09 de julho de 2026
Articulistas

Uma questão de saúde pública


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A qualidade de vida, uma expressão que tem conquistado espaço substancial – de estudos sociológicos a conversas de rua –, esbarra no Brasil em uma série de problemas, dos quais o álcool se destaca. Qualidade de vida é quase sinônimo de saúde e neste quesito as bebidas alcoólicas exercem um papel desagregador na sociedade brasileira.

O estudo “Prevenindo Riscos, Promovendo a Vida Saudável”, da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em outubro passado, aponta o consumo de bebida alcoólica como o principal fator de redução da expectativa de vida do brasileiro, estimada em 68,7 anos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A OMS calcula que o período vivido com boa saúde no Brasil é de 56,7 anos.

A exemplo de outros países latino-americanos, como México, Argentina e Chile, o Brasil poderia ganhar sete anos a mais de vida se os fatores de risco à saúde fossem eliminados pelo governo e pela população. A OMS afirma que 20 fatores de risco – como bebidas alcoólicas, fumo, excesso de peso, pressão alta, colesterol alto, entre outros – são responsáveis por 47% das mortes e doenças do mundo.

Para a OMS, o conceito de “vida saudável” abrange não só a expectativa de vida, como também doenças incapacitantes e a precariedade dos serviços de saúde, entre outros fatores. E, neste ponto, o consumo de bebidas alcoólicas mostra o estrago que faz no Brasil, sendo responsável por 11,6% de anos perdidos. Em segundo lugar está a obesidade, com 4,3%, seguida pela hipertensão (4%), cigarro (3,7%) e colesterol (2,3%).

As bebidas alcoólicas ainda são responsáveis por acidentes de trânsito e atos de violência. De acordo com pesquisa da Unifesp, a combinação de álcool e direção se traduz em dados alarmantes: em São Paulo, 13% dos acidentes com vítimas que sofreram algum tipo de trauma físico estão associados à ingestão abusiva de bebidas alcoólicas. Segundo dados do Hospital das Clínicas, em São Paulo, a cada ano cerca de 29 mil mortes no trânsito estão relacionadas ao álcool, sendo os jovens os mais atingidos.

Também não se pode deixar de lado a questão social. A falta de perspectivas pode trazer seqüelas profundas à auto-estima das pessoas, independente da idade. A vida pode perder o sentido tanto para aquele que não consegue chegar ao primeiro emprego, como para o que perdeu sua fonte de sustento e de sua família. Para esses, o risco de a bebida alcoólica virar um companheiro constante é catastrófico.

A saída para o problema da dependência química não é simples: é lenta e desgastante. No entanto, no Brasil, temos um ingrediente comum a nosso favor, que é a solidariedade. É preciso defender a tão propalada qualidade de vida. É preciso preparar os profissionais de saúde para atender esses casos. É preciso, também, contar com a boa-vontade das famílias e dos amigos para ajudar os dependentes. E é preciso criar oportunidades para que as pessoas andem de cabeça erguida em direção ao trabalho, e não caiam na esparrela do conforto fácil da garrafa. (O autor, Arnaldo Jardim, é deputado estadual)