08 de julho de 2026
Regional

Artesão dá forma e emoção ao Natal

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

São Carlos - Com uma chama de alta pressão expelida de um maçarico, um tubo cilíndrico de vidro e o ar que sai dos seus pulmões, o artesão João Gilberto dá vida a peças que simbolizam a magia do Natal. Há 60 anos, ele domina uma arte que poucos no Brasil são capazes de manejar. Sua fábrica é especializada em quase tudo o que se pode imaginar de original para dar vida a um conto de Natal.

Gilberto caminha para completar 71 anos em março de 2003 e por volta dos nove anos de idade iniciou-se no ofício que exige inteligência, talento, imaginação e paixão constante pelo trabalho. “Precisa se apaixonar. Tudo o que a pessoa faz com amor, faz melhor que os outros”, orgulha-se o artista.

Nascido em São Carlos, na travessa quatro, número 9, há seis décadas suas mãos produzem peças finas que recriam, todos os anos, o conto de Natal. Ponteiro, pingo de vários tamanhos, bolas de vidro, pião romano, cabeça de Papai Noel, estrela.

Utilizando poucos equipamentos, o artesão constrói à mão todo tipo de enfeite natalino A maioria das peças não utiliza molde. João Gilberto faz questão de frisar que seu trabalho é dar o contorno e formas, mas o colorido fica por conta de sua esposa Emil Neide Fermino, responsável pela pintura.

O domínio da modelagem de peças em vidro já rendeu a João Gilberto encomendas de instrumentos para laboratórios, como torneiras de vidro e outros equipamentos. Entretanto um medidor de nível de uma aeronave – equipamento que indica a estabilidade de vôo – foi o objeto de vidro mais diferente que João Gilberto confeccionou.

Ele conta que o proprietário da aeronave necessitava equipar o avião para poder fazer a vistoria. Sem a colaboração de João Gilberto teria que importar a peça fabricada nos Estados Unidos.

O artesão conta que não teve dificuldade em moldar o vidro para forjar o instrumento de alta precisão, mantendo as linhas da original. Quando se trata de comentar seus enfeites, seus olhos brilham quando fala da confecção da corneta.

João Gilberto revela que desenvolveu uma técnica que outros artesãos não conseguiram atingir na produção desse enfeite. O detalhe é o ponto em que se produz a curva da alça. Para ele, é simples. Ouvindo e vendo o artesão produzir a corneta de vidro parece algo fácil. Mas só ele domina a técnica dessa peça, que impõe uma riqueza de harmonia difícil de ser superada.

A visão prejudicada

O artesão João Gilberto convive com uma dificuldade de visão no olho direito há três anos. Ele conta que um incidente prejudicou sua vista e hoje enxerga tudo muito embaçado. Mesmo com esse revés da vida, ele não desanimou ou mesmo pensou em parar de trabalhar.

A dificuldade é mais um obstáculo a ser superado no ofício persistente que realiza. Conta que quando era jovem trabalhava em ritmo frenético. Produzia de quinta-feira à tarde de sábado sem parar. No auge dos seus 70 anos, a jornada de trabalho continua a ser puxada. Ele explica que trabalha dez horas diariamente.

Para agüentar o dia-a-dia come pelo menos três maçãs diariamente e consome muito leite.

Orgulha-se ao falar que é o único artesão no Brasil vivo que tem total domínio sobre a técnica de fabricar enfeites natalinos em vidro. Lamentar, João Gilberto queixa-se apenas do fato de não ter encontrado em seu caminho alguém com o mesmo gosto pela sua arte para que pudesse passar seus conhecimentos.

Segredos da arte

É invejável a habilidade que João Gilberto tem com as mãos para transformar o vidro bruto em peças delicadas que vão compor o cenário do sonho de Natal. O segredo de sua arte, diz ele, é a precisão e o cuidado no início da moldagem das peças. Cada detalhe – das curvas às sinuosidades – deve estar plenamente harmonioso para alcançar a simetria de formas do conjunto final.

Só que João Gilberto tem poucos segundos para conseguir a qualidade imaginada. Isso exige extrema coordenação de movimentos mesmo lidando com o calor que sai das chamas do maçarico e a quentura do vidro que manuseia com as mãos sem nenhum tipo de proteção.

As bolas de seda também são confeccionadas por João Gilberto. De todas as cores e tamanhos, as bolas são tecidas em questão de segundos. Em menos de um minuto, o fio de seda recobre uma base esférica de plástico. De duas em duas, a máquina de tecer preenche toda a superfície da bola com seda. Quase não dá para acompanhar o processo de tão rápido que a máquina gira.

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Conto de Natal

A fábrica administrada pelo casal também monta árvores natalinas. O que encanta os compradores é a forma artesanal de um produto diferente. Bolas de vidro já deixaram de ser a preferência no mercado, primeiro pela dificuldade de se encontrar no comércio os enfeites e também por uma acomodação ao produto “similar”. Apesar da falta de brilho, a maioria das pessoas optam pela comodidade do plástico, que não quebra com a mesma facilidade do que o vidro.

A fábrica de enfeites mantém uma loja que recebe encomendas de quem deseja colorir de magia o Natal. É quase que um ritual para as pessoas que entram na loja. Observam cada enfeite distribuído em cestos de plásticos ou em caixas. Daí já se percebe a transformação no olhar das pessoas. É quase possível perceber que estão montando um cantinho especial em suas residências, ou ainda para levar a energia do Natal para o ambiente de trabalho, ou mesmo comprar algo especial para dar para um familiar ou amigo, antes mesmo do Natal.

No atacado, a fábrica fornece bolas para todo o País. Na venda direta ao consumidor, as pessoas saem com árvores inteiramente ornamentadas e personalizadas, ou apenas com as partes que compõem o universo do sonho de Natal.

O casal José Roberto e Viviane faz parte da legião de fãs do trabalho de João Gilberto. Eles são proprietários do Viviane Gás, fornecedora do combustível para o funcionamento do maçarico de João Gilberto. Na semana passada, estiveram na loja não para vender gás, mas para adquirir uma árvore de Natal montada e decorada com as peças artesanais feitas na fábrica. Eles comentaram que todo ano renovam o sonho de Natal com os produtos criados por João Gilberto. O comerciante comenta que além dos clientes locais, sua fábrica recebe encomendas para fornecer bolas para todos os cantos do País .