Embora a ciência não tenha desvendado completamente os mistérios do sono, já está comprovado que ele é essencial para a reorganização do corpo e da mente após algumas horas de estado ativo. Ao contrário do que parece, o sono não é um estado de monotonia. Enquanto a pessoa dorme, o organismo realiza inúmeras atividades que parecem ser indispensáveis à sobrevivência.
Comparando o organismo a um computador, o neurologista Alberto Luiz Moura dos Santos afirma que uma noite bem dormida equivale a dar um “bootâ€, desfragmentar e passar o “scandisk†no organismo. Para a máquina, esses procedimentos significam uma limpeza e reordenação dos arquivos, com eliminação dos “bytes defeituososâ€.
“Graças aos exames mais aprofundados, descobriu-se que existem coisas no organismo que só ocorrem durante o sono. A produção de algumas enzimas e hormônios, a mudança de temperatura interna e a reorganização mental são alguns exemplosâ€, observa o especialista.
O hormônio do crescimento é um destes casos. Ele só é produzido durante o sono. “Um estudo recente mostra que quando a criança não passa por todos os ciclos do sono, ela altera a produção deste hormônio e tem desvios de desenvolvimento. No adulto, este hormônio é responsável pela tonicidade da musculatura e a falta dele causa flacidez e favorece o ganho de pesoâ€, comenta o dentista Walter da Silva Júnior.
Enquanto dorme, a pessoa atravessa cinco fases de sono. Elas se repetem sucessivamente durante toda a noite. Em média, são cinco ciclos de 90 minutos cada.
No estágio 1, a pessoa ainda está em vigília. Poucos segundos depois, ela avança para o estágio 2 e, em 20 minutos, já está no estágio 4. Estas são as fases de sono mais profundo. Por isso é tão difícil acordar alguém que adormeceu há pouco.
Uma hora e meia depois de ter adormecido, o indivíduo entra num período curto de sono REM (Rapid Eyes Moviment). Trata-se do mais surpreendente estágio de sono, é mais leve e o indivíduo está totalmente relaxado. Neste período, os olhos se movimentam muito rapidamente - algumas vezes fechados, outras vezes semiabertos. É o período dos sonhos.
No primeiro ciclo, o sono REM dura poucos minutos e a pessoa volta à fase 1. A cada 90 minutos, aproximadamente, acontece um novo sono REM, cada vez mais longo. Pela manhã, os estágios 3 e 4 desaparecem e os períodos de sono REM podem durar até uma hora.
Além da produção de hormônios e enzimas, o cérebro também reordena tudo o que assimilou e vivenciou naquele dia durante estes ciclos de sono. Neste período, ele vai “arquivar†as informações importantes nos lugares certos e “deletar†o que for superficial ou danoso ao organismo.
Segundo especialistas, pessoas que têm um sono calmo, tranqüilo e saudável dificilmente se lembram dos sonhos no dia seguinte. Para lembrar deles, é preciso que a pessoa desperte durante a fase REM e isso significa ter um sono fragmentado, o que não é bom para o organismo.
“Uma experiência realizada com ratos mostrou que sem o sono REM, o ser vivo morre. Eles criaram dois grupos de ratos com a mesma alimentação e mesmo tempo de sono. Mas com um dos grupos, toda vez em que os ratos entravam no sono REM, eles eram acordados. Estes ratos morreram em 30 diasâ€, conta Santos.
Tempo
Questionado sobre a duração do sono, o neurologista afirma que não existe um tempo certo. A necessidade de sono é individual. Em média, os adultos precisam de seis a nove horas de sono, mas há pessoas que se satisfazem com cinco horas e outras que precisam de dez horas.
“O que importa é que a pessoa durma pelo tempo suficiente para aquele organismo e isso pode ser avaliado durante o dia. Quem dorme bem, não sente sono durante o diaâ€, explica.
Ele cita um trabalho realizado nos Estados Unidos em que uma escola dividiu os alunos em dois grupos. O primeiro entrava às 7h e o segundo às 10h. “O segundo grupo apresentou notas muito superiores às do primeiro. Considerando que os adolescentes dormem muito tarde e que precisam de mais horas de sono, concluiu-se que eles estavam sendo privados de sono ao levantar cedoâ€, observa.
Todas estas pesquisas indicam que o ser humano ainda tem muito a aprender sobre o papel do sono na sobrevivência, mas eles já comprovam que ele precisa ser mais valorizado para uma vida saudável.