09 de julho de 2026
Geral

Rede pública não age em casos de fono

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O fonoaudiólogo comemora hoje o dia da profissão sem que os serviços de prevenção para distúrbios graves como a surdez tenha chegado à rede pública de saúde. O alerta também serve para a necessidade de oferecimento dos serviços de fonoaudiologia pela grande maioria dos planos de saúde privado.

A importância da atividade de fono enquanto qualidade de vida pode ser demonstrada pelo teste de orelhinha que, se realizado até o terceiro mês de vida do bebê, atua como importante ação preventiva para a eliminação dos casos de surdez.

Para as professoras da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP) pertencentes ao Núcleo de Fonoaudiologia a precariedade do serviço público de saúde fala mais alto que a implantação de serviços da área como ferramenta médica resolutiva para distúrbios. “O número de profissionais de fono na rede pública é muito pequeno e não preenche os requisitos para a realização de programas de prevenção, diagnóstico e tratamento precoce”, cita a professora Andréa Cintra Lopes.

Os maiores perigos causados pela carência de programas da rede pública para o setor estão concentrados mais nos casos de perdas auditivas na infância. “A criança está sujeita aos casos de meningite e de rubéola na mãe. Os maiores riscos estão na fase de até três meses de gestação. Os dois casos são irreversíveis para a manifestação da surdez no futuro bebê. Os programas públicos de saúde permitiriam a prevenção para que a mãe fosse preparada antes mesmo de ficar grávida”, informa Lopes.

Em um país onde os serviços de saúde pública são precários em diferentes especialidades, a fonoaudiologia se mantém sufocada. Porém, programas de baixo custo poderiam resolver os casos de surdez, como o teste da orelhinha - indicado para a identificação precoce do distúrbio. “Com esse teste é possível identificar a deficiência auditiva logo após o nascimento e realizar o tratamento adequado de pronto”, aborda.

Dificuldades também são encontradas na legislação. A professora de fono salienta que existem projetos na área em andamento no Congresso. “Mais as propostas ainda não viraram lei para diferentes formas de atuação contra distúrbios do gênero. Outros projetos são leis que ainda não saíram do papel, como o teste auditivo”, argumenta Andréa Lopes.

O Poder Público parece ‘não dar ouvidos’ para a letra fria da lei. “Existe uma lei no Estado de São Paulo onde o professor deve ter garantido pelo uma vez por ano um curso de uso adequado da voz em sala de aula e isso não acontece”, conta a professora de fono Liliane Campos Stumn. A lei entrou em vigor em setembro do ano passado.

Outro erro estrutural no setor de ensino é que as escolas em geral não são equipadas com sistema de som amplificado nas salas de aula. “O professor é muito prejudicado com classes lotadas e convive diariamente com a necessidade de forçar a voz para ser ouvido e concorrendo com o ruído do próprio ambiente de ensino. Além disso, os professores atuam em cargas horárias longas e em mais de um período o que traz consequências com o tempo”, explica Stumn.

Em Bauru, um programa preventivo para distúrbios de fonoaudiologia está sendo discutido junto à Maternidade Santa Isabel através de convênio. A expectativa é que o programa possa ser iniciado no próximo ano.

Embora a cidade conte com duas faculdades no setor, uma pública (FOB-USP) e outra privada (Universidade do Sagrado Coração- USC), ainda não existem programas efetivos em andamento com acesso à população mais carente, exatamente o público que mais carece de atendimento e sofre por falta de informação. “A qualidade de vida por perda auditiva pode ser recuperada com tratamento”, reafirma Lopes.

O pequeno número de profissionais de fono na rede pública de saúde é o indicador mais claro para a verificação das carências na área.

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Profissional cuida da voz, fala e linguagem

Os profissionais de fonoaudiologia atuam nos sistemas que tratam da comunicação humana: a audição, voz, fala e linguagem. A área de atuação está ligada à prevenção e tratamento de distúrbios, aprimoramento, avaliação e tratamento de problemas com comunicação, além das ações com estética vocal e facial.

Um dos problemas atacados pela fonoaudiologia é a perda auditiva. Além dos casos que têm como origem doenças como a meningite, podem surgir complicações relacionadas à infecção do ouvido (otite). Uma das dificuldades é que a ausência de dor pode dificultar a identificação do distúrbio.

Outros casos estão relacionados à situações ocupacionais, como os ruídos permanentes e repetidos ou a exposição das vias orais a produto químico no ambiente de trabalho. A orientação é que os trabalhadores usem corretamente os dispositivos de proteção no trabalho.

Outros distúrbios podem surgir também por trauma acústico com uma única e forte ocorrência (tiro, explosão, entre outros). O ouvido humano sente os efeitos do ruído já a partir de 120 decibéis. Nas empresas, a norma pede proteção para o barulho que atingir pelo menos 85 decíbeis.

A voz também sofre com distúrbios, mas os registros são maiores na idade adulta. O dicionário popular trata essas questões de forma confusa como se fossem rouquidão. O uso inadequado da voz por cantores, atores ou profissionais de marketing são alguns dos exemplos neste capítulo da fonoaudiologia.

O tratamento da voz ainda envolve prevenção e aprimoramento. Alguns cuidados associados a exercícios orientados promovem melhora na qualidade vocal. A orientação também permite o uso correto da voz de acordo com as circunstâncias da profissão. “Infelizmente as pessoas buscam os serviços da fonoaudiologia quando já ocorre a disfonia (distúrbio por mau uso da voz)”, adverte Alcione Brasolotto.

Ela dá uma dica para quem tem na voz um instrumento de trabalho. â€œÉ necessário fazer aquecimento e desaquecimento vocal. Não fumar, não tomar bebida alcoólica e não ingerir nada gelado são passos que devem ser seguidos sempre”, acrescenta Brasolotto. Outros problemas estão associados à linguagem, como por exemplo a criança demorar para falar. “Por volta de dois anos de idade a criança já deve estar falando, produzindo fala e frases”, indica a professora Liliane Stumn.

Um dos mais conhecidos distúrbios é a gagueira. â€œÉ preciso dizer que é reversível, tem cura para a guagueira que pode se manifestar já a partir dos dois anos e meio de idade”, manifesta Stumn.

Mas há entre a população o mito da língua presa. “Na verdade a questão é definida como postura inadequada da língua. Essas dificuldades podem surgir, por exemplo, pelo uso excessivo de chupeta. O ideal é que as crianças deixem de usar chupeta a partir dos dois anos de idade”, amplia. A abordagem das questões acima mostra a abrangência da ação do fonoaudiólogo, profissional que hoje comemora o seu dia.