Passado o calor do embate eleitoral, fica mais fácil recuperarmos reflexões ponderadas e análises interessantes do processo político brasileiro. Proliferaram na mídia, nos últimos meses, as mais variadas interpretações. Avaliações exaustivas dos anos Fernando Henrique ainda não foram produzidas. Rememorar reflexões importantes de intelectuais inteligentes iluminam a compreensão de nosso processo político.
Cândido Mendes, há pouco, sintetizou a herança do governo FHC: “Devemos-lhe a consolidação democrática. A estabilidade monetária e até mesmo o bom humor. Ele deixou a marca social do seu governo para o segundo mandato e, com a crise cambial de 1999, foi apanhado na contramão. Seu projeto ficou inacabado. O PSDB fez o governo da alegria do PFL e agora o PT está condenado a fazer o governo da alegria do pensamento social-democrata do PSDBâ€. A fina ironia de Cândido Mendes mostra como as intenções dos agentes políticos são difíceis de se tornar realidade.
Roberto da Matta, antropólogo, comentando o processo eleitoral, lembrava que “não pode haver regime democrático sem permanências e continuidades. Constâncias sem as quais não há rodízio do poder além de, como bem tem percebido o governo Fernando Henrique, serem básicas para criar o sentimento de integridade e de competência, sem o qual não existe estima nacionalâ€. A compreensão clara do processo democrático era exigida como premissa inteligente dos candidatos para “que se domestique um tenebroso personalismo que tem constituído o nosso tão conhecido quanto perverso salvacionismo político. Esse salvacionismo-carnavalesco que, tocado a populismo irresponsável, a agressão leviana e a mitomania mentirosa, sempre desemboca em autoritarismo porque não pode ir além de si mesmoâ€. Permanências e continuidades são premissas da vida democrática. Personalismo, salvacionismo e populismo serão sempre ameaças autoritárias.
José de Souza Martins, sociólogo, reitera algumas constantes político-culturais: “Somos um país messiânico e milenarista ainda hoje. A candidatura de Lula foi gestada muito antes de ele saber que era o escolhido e sem que se soubesse que seria ele o eleito dos filhos da promessa.Tem, portanto, uma origem messiânica.†Historia o nascimento, em Santo André, da presença política da Igreja Católica entre os operários, numa região, até então, dominada pelos comunistas. Dom Jorge Marcos de Oliveira criou a alternativa que preparou o cenário para o aparecimento de uma liderança operária católica, que fosse além do discurso sindical e se transformasse numa liderança política. “Foi a Igreja, e não as esquerdas, que criou a figura poderosamente simbólica que, na pessoa de Lula, cumpre a promessa do advento do ungido. Na verdade, um reavivamento do sebastianismo, a espera messiânica no retorno do rei d.Sebastião para libertar o reino.†Determinações simbólicas que trançam a trama de nossa cultura política, mas que joga o ungido na realidade rude do exercício do poder. Lula terá que conhecer e reconhecer a liturgia própria do cargo de presidente e com ela se identificar. “Não há “presidente companheiro†nem pode haver, pois o único companheiro do presidente é o poderâ€, medita Souza Martins.
Os historiadores têm boa informação. José Murilo de Carvalho tem um julgamento definitivo: “A vitória de Lula significa uma guinada em nossa história republicana. Em parte por sua origem social. Mas a novidade não estará principalmente aí. Já tivemos presidentes de origem social parecida. O exemplo mais claro é Nilo Peçanha, eleito vive presidente de Afonso Pena. Com a morte do presidente Nilo Peçanha assumiu e governou por 17 meses, sob o lema “paz e amorâ€. Hoje se autodesignaria Nilinho Paz e Amor. Nilo era mulato e filho de dono de padaria. Mas Nilo, na cor mais povo que Lula, integrara-se ao mundo da elite republicana. Formara-se em direito e seguira os passos tradicionais da carreira política. Lula é mais povo pela biografia. Pelo que representa, ele é um estranho no mundo da elite. Aí a grande novidade, aí o desconforto de alguns e a esperança de muitosâ€.
Importantes reflexões para entendermos nossa complicada vida política... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)