09 de julho de 2026
Cultura

Sem medo de ser feliz

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

A capa do livro “Sem Medo de Voar”, que Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, lança amanhã numa noite de autógrafos na livraria Jalovi, foi feita por um artista chinês, em Pequim, a pedido do arquiteto Jurandyr Bueno Filho, que visitava a capital chinesa e já havia combinado com o autor de pensar em algo para ilustrar a obra.

O texto da orelha do livro foi escrito pelo jornalista especializado em cinema Luiz Carlos Merten, do jornal O Estado de São Paulo e a abertura, pelo consagrado escritor Ignácio de Loyola Brandão.

A pluralidade das carreiras dos envolvidos no projeto não poderia ser mais perfeita para uma obra que reúne os textos publicados na coluna “Entre Mundos”, no JC Cultura. Uma das seções mais lidas do caderno aos domingos, a coluna do padre Beto aborda os mais diversos temas e oferece ao leitor novos pontos de vista sobre eles.

Da religião à música, do cinema à globalização, passando pela família e a ecologia, nada escapa dos comentários sempre inteligentes e embasados do padre, um intelectual, formado em Direito, História e Teologia, com mestrado e doutorado pela universidade alemã Ludwig-Maximilian, de Munique.

Atualmente, Beto exerce a função de vigário na Igreja Santa Terezinha. Em janeiro, ele deve continuar na função na Paróquia Universitária.

Depois de dois anos de coluna, a idéia de transformar os textos publicados em livro veio como uma forma de atender o pedido dos leitores. “As pessoas me mandavam e-mails dizendo como recortavam os textos e guardavam. Daí pensei em juntar todos”, conta o religioso.

O livro, de 286 páginas, editado pela editora bauruense Lipel, traz 84 crônicas publicadas de julho de 2000 a outubro de 2002. Apenas um dos textos foi deixado de fora por ser muito relativo ao momento no qual foi escrito. Todos os outros entraram no livro. “Fiz pequenas alterações em alguns deles para deixá-los melhores para o livro, mas não foi nada que mudasse o seu conteúdo”, explica.

Além do livro, o padre Beto também lança amanhã no mesmo evento o CD “Crônicas”, no qual lê 11 textos também já publicados mas que não entraram no livro. “Escolhi para o CD os textos que tinham uma história, que seriam mais interessantes de serem ouvidas. Também optei por aqueles que têm um conteúdo mais otimista, uma mensagem mais legal em relação à vida, de reflexão”, diz.

O objetivo do padre com as duas obras é alcançar o maior número de pessoas possível e levar - como já faz a sua coluna - outros prismas à assuntos variados.

“Não tenho nenhuma intenção de me dedicar à literatura. O livro é uma conseqüência lógica de uma caminhada, de uma coluna que deu certo, que agradou”, diz, confirmando que pretende que a obra seja a primeira de uma série. “Talvez no futuro eu escreva diretamente pensando em um livro”, confessa.

A aventura do padre na literatura começou quase sem querer. “Nem sei porque comecei, como gostava de cinema e comecei a escrever sobre isso. Quando surgiu a chance de escrever para o JC propus que fossem textos que abordassem outros assuntos, vários mundos”, explica.

Além de “Sem medo de Voar”, o padre Beto já havia publicado, no Brasil e na Alemanha os textos que resultaram dos seus estudos na universidade que ligam o cinema à religião, entre eles sua tese de mestrado: “Teologia da Libertação no Cinema - Um Análise do Filme ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’”, no qual analisa o clássico filme de Glauber Rocha.

O nome do livro, segundo o padre, é uma das frases que ele mais gosta de dizer e ouvir. “O título surgiu numa homilia minha. O voar para mim é símbolo de liberdade, de não ficar preso, não ter raízes, não ter medo. É uma frase que diz muito para mim, assim como ‘não ter medo de ser feliz’. Na vida acho que tem que ser assim”, afirma.

• Serviço

Lançamento do livro “Sem Medo de Voar” e do CD “Crônicas”. Amanhã, às 20h, na Jalovi - Alto da Cidade. Informações: (14) 223-1207.

____________________

Para todos os mundos

Não li o livro do padre Beto mas já conheço grande parte do seu conteúdo (para não dizer tudo), porque sempre acompanhei seus textos como leitor e agora como editor do JC Cultura. Se já as considerava muita boas isoladamente, juntas, suas crônicas ganham uma força ainda maior porque mostram, página após página, o raciocínio de um homem de uma inteligência privilegiada, rara.

E o melhor de tudo é que, além da erudição magistralmente colocada sem pedantismo, os textos do padre Beto não ficam restritos a um tipo de público, a uma faixa etária, a um mundo. Eles abordam tudo ao mesmo tempo e de uma maneira dinâmica, moderna.

Quando você imaginou que leria um texto assinado por um religioso que cita positivamente ícones da cultura pop contemporânea como Pink Floyd, Raul Seixas e o filme “Matrix”? E ele não faz isso para agradar o público jovem. Não existem concessões em seus textos, existem explicações, lógicas e sempre enriquecedoras.

Como escreve Luiz Carlos Merten na orelha de “Sem Medo de Voar”, padre Beto é um pensador, e um pensador que não deixa que nada lhe escape. Jovem, alegre, piercing na orelha, ele não se encaixa em nada no estereótipo do padre com o qual, com certeza, a maioria dos brasileiros está acostumada. Mais um ponto para ele.