Das frias e brumosas manhãs da capital dos paranaenses ouço de Paulo Coelho e penso em Nidoval Reis, não outro senão, o poeta bauruense. Quem jamais ouviu falar desse poeta (a inexorável constatação asserta que os privilegiados sempre serão em menor número), que vão procurar pelas brochuras e cadernos do bardo na Biblioteca Municipal (ainda existe?). Desconheço seu valor no panteão da literatura nacional, como afirmam ter a de Paulo Coelho; Nidoval Reis cantava Bauru em versos. Afinal, encontro muito mais sentido do que no mago Coelho. Acredito que, romântico ufanista, procurava civilizar o selvagem que éramos, ou portugueses, hispânicos, libaneses, itálicos ou nipônicos se tornavam ao tocarem a terra branca. Acho que era seu desejo. Acompanhei meu pai numa visita a sua casa no Ipiranga, ou redondezas. Parecia a casa de um sertanista. Pendurado na parede um porrete de madeira escura, tosco; uma arma. Claudicando quis fazer uma demonstração. Pegou o porrete e dele sacou a lâmina dissimulada de uma baioneta. Meu pai e eu congelamos! O Nidoval, agora semelhante a um Anhangüera endoidecido, contou que aquela arma fora usada em tempos difíceis, numa Bauru limítrofe a terras devolutas. Morria-se em emboscadas na beira de estradas. A vida era moeda da dívida não paga (assim continua, dirão). Seu porrete/baioneta não era um “recuerdo del Japón†para combinar com o visual fardão. Nidoval era guerreiro. Aprendi duas lições. Um sentido de arte e vigilância permeou meu modo de fazer as coisas. Isto deu identidade a este nipo-bugre de meia letra a sobreviver na jangal cosmopolita. Desenvolveu em mim o orgulho natural pelo sotaque, tantas vezes execrado pelo paulistano capitalino, medíocre, muito mais servo das metrópoles euro-americanas. É incrível como o paulistano “antenado†rejeita o falar interiorano. Antenas deixo para os insetos. Última lição: “endoidecer†auxilia a esgrima de uma baioneta dissimulada que se apresenta súbito. (Jorge Miyashiro - diretor da Miyashiro Teatro de Bonecos - Curitiba/PR)