09 de julho de 2026
Bairros

Futuro está nas mãos da sociedade

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

O desenvolvimento sustentável de Bauru saiu das mãos do Poder Público e agora está sob a responsabilidade da sociedade. O lançamento do projeto “Bauru+10 - Construindo o Futuro”, ocorrido no último dia 4, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi o marco para essa transformação, que deverá ser levada a sério a partir de agora por todos os moradores da cidade.

De acordo com José Alcides Gobbo Júnior, professor de economia e administração do curso de engenharia da universidade, o governo não tem mais condições de arcar sozinho com esse tipo de preocupação. “Para que a cidade ganhe em qualidade de vida, a sociedade tem que participar ativamente”, diz.

Para organizar essa atuação, foi criado o Bauru+10, levando em consideração a Agenda 21, um documento que traduz em ações o desenvolvimento sustentável.

Jair Manfrinato, professor de estatística do Departamento de Engenharia de Produção da Faculdade de Engenharia da Unesp, integrante da comissão que organizou o projeto, salienta que, para que a cidade se torne atrativa para novas empresas e promova o seu crescimento, todos os setores da sociedade precisam estar em sintonia e trabalhar pela sua melhoria. â€œÉ um trabalho em conjunto, que vai render frutos para o todo”, explica.

A idéia de desenvolver esse projeto nasceu a partir de um pedido da Prefeitura Municipal à Unesp, para que fosse montado um banco de dados com informações sobre a cidade, com o intuito de atrair novas empresas para cá. “Entendemos que apenas isso não resolveria essa questão. Para que Bauru se torne uma cidade atrativa, cresça e se desenvolva é preciso melhorar em todos os sentidos”, destaca Gobbo Júnior.

Ele diz que a competição entre os municípios é muito grande e, para sair na frente, é preciso apresentar vantagens de infra-estrutura e de qualidade de vida. “Antes de aportar em uma cidade, o empresário leva muitos fatores em conta, como incentivo fiscal, doação de terreno, logística, qualidade de vida dos moradores, mão-de-obra qualificada, entre muitos outros”, define.

O projeto visa, em uma primeira instância, definir quais os problemas, a competência e a vocação da cidade. Esses dados devem ser colocados em um papel e definidos como prioridades a serem observadas por cada setor da sociedade. A partir daí, nasce a Agenda 21 do município, apoiada no tripé “sociedade justa, economia viável e meio ambiente correto”.

Na prática

O projeto é bem complexo e abrange uma grande quantidade de pessoas, que deverão estar envolvidas de forma voluntária e engajada para que o Bauru+10 dê certo.

Gobbo Júnior avisa que nem a Unesp e nem a Prefeitura são as donas do projeto. “Nós apenas fizemos o embrião. O desenvolvimento terá de ser abraçado por todos”, diz.

No primeiro fórum realizado para a apresentação do projeto, compareceram sindicalistas, autoridades políticas, professores e alunos da Unesp, além de empresários de diversos setores. De acordo com Manfrinato, 90% dos participantes demonstraram, que aprovam o projeto. “As pessoas mostraram bastante interesse pelo tema e disseram que estão empolgadas em participar”, diz.

Sem recursos específicos para tocar a iniciativa, os professores da universidade salientam que o mais importante é o desprendimento e a preocupação de todos no desenvolvimento da cidade. “Terá de ser um trabalho voluntário, pelo menos no início, para que possamos chegar à Agenda 21 do município”, destaca.

O problema é saber como esse projeto vai sair do papel. Por ser um trabalho importante para alavancar o desenvolvimento da cidade, há muito interesse por parte de todos os setores, mas ainda está difícil dar o “start” para que saia do papel. “Nós estamos no final do ano e agora não dará tempo de fazer nada de concreto. Mas, no início do ano que vem, a idéia é abraçar esse projeto”, ressalta o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Roberto Rufino.

Já o diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Luiz Miranda Simonelli, destaca que não vai ser fácil mobilizar todo o mundo. “Eu sou favorável ao projeto, estou disposto a participar, mas acredito que ele é muito complexo pelo tanto de pessoas que envolve”, diz.

Para ele, o interesse tem que ter a mesma medida, tanto no que diz respeito ao Poder Público, quanto à iniciativa privada. “Os empresários só vão realmente se animar a encarar o Bauru+10 se a prefeitura der a contrapartida e fizer a sua parte”, frisa.

O secretário-executivo do Instituto Ambiental Vidágua e vereador, Rodrigo Agostinho, ressalta que é de extrema importância colocar esse projeto em prática. “Bauru está parada, estagnada e precisa programar o seu desenvolvimento, de modo a trazer qualidade de vida a seus moradores”, diz. Ele lembra que o objetivo principal não é o de aumentar a população do município, mas sim melhorar o nível socioeconômico de seus habitantes atuais.

Um projeto semelhante está sendo realizado na cidade de Piracicaba desde o ano 2000. Denominado “Piracicaba 2010 - Realizando o Futuro”, o estudo já cumpriu diversas etapas de sua proposta inicial e atualmente está na sua fase de implementação.

O secretário-executivo do programa, Hans Alois Schaeffer, esteve em Bauru na ocasião do lançamento do Bauru+10 e mostrou ao público como funciona e o que já foi feito na cidade.

A diferença é que lá o projeto foi praticamente encampado pelos empresários da cidade, que estão se dedicando a montar um diagnóstico do município e batalhando pelas melhorias. Tanto é que Piracicaba saltou 10 pontos no ranking das “100 melhores cidades para fazer negócio”, feito anualmente pela revista Exame. Em 2000, ela estava em 42.º lugar; em 2001, chegou a 32.º e neste ano está em 33.º.