08 de julho de 2026
Ser

Mil e uma habilidades

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Ele ainda tem muito caminho a trilhar, mas desde menino o ator Euri Moreira mostra que tem talento para o palco, as telas, a passarela e os holofotes. O bauruense descobriu o teatro ainda na escola, mas já começou dirigindo e atuando ao mesmo tempo. Hoje, aos 23 anos, ele se vê cara a cara com o mundo da moda, do teatro, do cinema e da propaganda, mas confessa que as dificuldades são muitas.

Mesmo assim, não se abala com facilidade. Se for preciso decorar árvore de Natal, vender roupa ou fazer figuração em novela, ele encara numa boa.

No fundo, no fundo sabe que tem talento e sua hora mágica vai chegar, seja como ator, autor ou diretor. Planos e oportunidades não lhe faltam e Euri não perde uma.

Se entra em crise, logo o destino lhe empurra para cima e um novo episódio passa a fazer parte do enredo de sua vida real.

Em uma temporada de espera em Bauru, Euri conversou com a equipe do Ser e contou um pouco de seu roteiro pessoal.

Jornal da Cidade - Quando a arte entrou na sua vida? Euri Moreira – Faz tempo. Desde os 12 anos. Eu comecei a fazer teatro no colégio Ernesto Monte. A minha primeira peça foi “Uma escola atrapalhada”, na qual atuei e dirigi com 12 anos de idade. Depois dessa peça, várias pessoas que foram assistir, me disseram: “Meu filho, o que você tem que fazer é isso mesmo.” Na verdade, eu nunca gostei de estudar mesmo. Mas agora devido à profissão, eu tenho que estar lendo, estudando o tempo todo. Mas voltando ao teatro, eu comecei a fazer uma série de peças tudo dentro da escola. Depois de um tempo, parei com teatro no colégio e entrei num grupo oficial, o do Yázigi. Nele, eu fiz o meu primeiro musical, que foi “Grease - Nos tempos da brilhantina” . Aí, me apaixonei por musicais, mas depois de Grease fiquei parado um ano e só voltei quando o grupo montou “Cats”. Tempos depois, me mudei de Bauru. Fui para Ribeirão Preto e vivi um dilema tentando descobrir se era teatro mesmo o que queria para a minha vida. Foi quando abri o jornal e vi um anúncio de um curso de interpretação para a televisão com três diretores da Rede Globo: o Léo Gama, que é diretor de elenco de “Esperança”, Ignácio Coqueiro e Luiz Henrique Rios. Resolvi fazer o curso e eles disseram que estava perdendo meu tempo no interior. Eu tinha que mudar para o Rio e fazer escola de teatro.

JC – Aí você foi? Euri - Eu larguei tudo e fui... Cheguei lá e disse: e agora? Eu não tinha registro de ator, e sem registro não adianta. O que eu ia fazer naquela cidade ganhando seguro-desemprego, morando em república? Comecei a me inscrever em todas as agências de figuração que tinha no Rio de Janeiro. Eu odiei. Figuração é a pior coisa que existe. Mas um dia um dos caras com quem eu morava foi fazer um teste e me chamou para ir junto. Eu passei e ele não. E o tempo fechou. Ele não olhava na minha cara...

JC – Como é administrar a questão da concorrência dentro de casa? Euri – Pegando as malas e indo embora quando a situação não tem conserto. Hoje, eu estou em Bauru e em Janeiro estou de mudança para São Paulo. Meu objetivo agora é atingir o mercado publicitário. Quero fazer comerciais de televisão, mas já estou fazendo cinema, que eu amo de paixão.

JC – E a sétima arte? Como surgiu esta ligação? Euri – O diretor Marcos Dartagnan foi assistir a peça que eu estava fazendo “Terror na Praia”, dirigido pela Cássia Calabria, no Teatro da Praia, que já teve no elenco Miguel Falabella, Guga Coelho e Taumaturgo Ferreira. O “Terror na Praia” é um teatro trash em que a gente interage o tempo todo com a platéia. A gente recebe o texto da peça uma hora antes do espetáculo e o roteiro pode ser mudado de acordo com as reações do público. A gente tem um ponto para nos nortear e é muito engraçado. Mas voltando, o Marcos Dartagnan foi ao espetáculo e me convidou para fazer uma ponta em “Victória”. Fui fazer a ponta em janeiro. Ele gostou e me chamou para gravar o “Lembranças do Passado”, que começa a ser rodado em janeiro de 2003.

Antes disso, ele me propôs um teste para um longa, o “Anjo Negro” no qual tinha vários atores conhecidos. Eu passei e vou ser o protagonista do filme, que a pretensão inicial é rodar em Bauru. O Dartagnan veio conhecer a cidade e achou o cenário ideal, mas estamos batalhando dinheiro fora para rodar o filme aqui, pois não tivemos o apoio esperado.

JC – Ele fez o filme pensando em Bauru? Qual é o enredo da trama? Euri – Não, mas quando li o roteiro disse a ele que era a minha cidade. E ele veio para cá conhecer e achou o cenário perfeito para o filme, que conta a história de um garoto que aos 20 anos de idade descobre que é adotivo. Ele cria uma revolta por isso, não pela adoção, mas pelo tempo da mentira. Ele ama a mãe de paixão e ela sempre pediu a ele para que nunca mentisse na vida e ela mentiu para ele durante os 20 anos. Nessa revolta, ele, que tinha uma turma que ajudava as pessoas, começa a praticar roubos pela cidade. Mas ele não usa armas, somente alta tecnologia e planos perfeitos. É uma produção de ação primorosa que faz um mix de vários estilos de filmes, com muitos efeitos especiais. O “Anjo Negro” também é um musical, tem uma parte em que canto e danço.

JC – Você já tem o roteiro do “Lembranças do Passado”? Euri – O “Lembranças” é um curta metragem com a Gisele Policarpo, Fausto Amaral e o famoso Carvalhinho. A Gisele fará agora a filha da protagonista da nova novela das oito. Ela é maravilhosa. O filme se passa na II Guerra Mundial e fala dos pracinhas. Ainda não sei detalhes, pois só vou receber o roteiro no começo de janeiro. Vou ser um soldado de guerra e o filme vai ser todinho rodado em Minas Gerais.

JC – Entre um take e outro, você também está atacando de modelo? Euri – Decorador também (risos). Mas como estava querendo atingir o mercado publicitário, procurei uma agência de modelo aqui mesmo em Bauru, a Angels que tem parceria com a Taxi. Conversei com a Angélica e ela me deu a maior força. Disse para mim: “vamos começar de novo”. Fiz um book com o fotógrafo Márcio Del Nero, que trabalha na Capricho e estou na Taxi. Não fiz nenhum trabalho ainda, mas no ano que vem, se Deus quiser, estarei em vários comerciais.

JC – Dá para viver de arte ou você tem “paitrocínio”? Euri – Nunca vivi de paitrocínio. Nunca, nunca, nunca. Meu pai sempre criou a gente assim: “quer? Vai lá e compra. Cada um se vira. Se tem dinheiro, sai. Senão, não”. Aí, como sempre tive dom manual, comecei a fazer decoração, vitrine, fiz cursos. Pois você só sobrevive como ator se tem contrato com alguma emissora, caso contrário tem que ter uma atividade paralela. Até o ano que vem vou prestar vestibular para ter outra profissão, talvez jornalismo, pois só de teatro não se sobrevive.

JC – Como você encara esse compasso de espera? Euri – Eu sou uma pessoa super ansiosa. Não tenho paciência para esperar. Já tive a fase da depressão, de querer largar tudo, faço terapia floral, resolvo ir para a praia vender água de coco, no outro dia digo que vou voltar, que o teatro é minha vida... Para não pirar, eu escrevo. Estou escrevendo um curta chamado “Meninos de Rua” e estou começando um projeto sobre três socialites famosas de Bauru, que todo ano faço a decoração de Natal na casa delas. Aliás, quem eu acho que escreveria essa história perfeitamente é o Mauro Rasi. Ele seria perfeito para escrever “Loucuras de Natal”, que é narrar peripécias e as brigas das três, tudo por uma árvore de Natal. Queria três atrizes maravilhosas no elenco e eu estaria atuando também. Afinal, ninguém melhor do que eu para fazer o meu papel. Mas esse projeto é futuríssimo.