09 de julho de 2026
Polícia

90% das presas respondem por tráfico

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Mais de 90% das mulheres presas em Bauru neste ano foram enquadradas no crime de tráfico de entorpecentes. Para a polícia, as mulheres assumem o ponto de tráfico quando o marido, ou filho, é preso. Elas se dizem inocentes. Alegam que são viciadas e que precisam de tratamento.

Das 58 mulheres presas em Cabrália Paulista, especificamente - oriundas de Bauru e região - 80% foram consideradas traficantes pela Justiça. Poucas aguardam julgamento e grande parte já está condenada.

O tráfico de drogas, um crime previsto pela lei de entorpecentes, nº 6368/76, penaliza os infratores com condenações que variam de três a 15 anos de reclusão. Por ser considerado um crime grave, aquele que infringe a lei, o acusado responde pelo crime na prisão.

Na opinião do titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), José Henrique Gomes dos Santos, o ingresso da mulher no tráfico pode ser movido por vários fatores. “O marido ou o filho traficante vai preso e ela precisa sobreviver. Então, assume o ponto de venda.”

Outro artifício usado pelas mulheres, segundo o delegado, é o trabalho de prostituição. “Elas usam o trabalho de pseudo prostitutas para encobrir o comércio de drogas. A mulher usa o artifício de fazer programas amorosos. Faz ponto nas áreas centrais, mas dispensa os clientes que querem programas.”

Ele lembra que há casos de prostitutas que também fazem tráfico de drogas. “Há aquelas que realmente são prostitutas e praticam o comércio de drogas.”

Nas unidades prisionais este comércio é mais valioso, devido à grande dificuldade em ingressar com a droga dentro do estabelecimento prisional. “As mulheres têm mais meios de esconder. Elas colocam a droga na vagina e só uma revista pessoal minuciosa pode descobrir.”

Na opinião de Santos, as mulheres usam as partes íntimas do corpo para esconder drogas e aparelhos celulares. “Não é raro mulheres serem presas na revista pessoal das unidades prisionais. Elas investem nisso para suprir as necessidades do marido ou companheiro e abastecer os amigos dele.”

Drogas “femininas”

O tráfico de drogas “pesadas”, como a cocaína e outras, ainda está nas mãos de homens. “Para as mulheres, o comércio de maconha e crack ainda é o predominante”, frisa o delegado.

Outro fator que influencia na venda da maconha e do crack por mulheres é o público-alvo. “Tanto a maconha quanto o crack são consumidos por jovens. A venda é mais rápida, enquanto que a cocaína, por ser mais cara, demora mais para ser comercializada.”

Santos ressalta que os consumidores de cocaína têm outro nível cultural e, normalmente, pertencem a uma classe social mais elevada.

Nível universitário

A Dise prendeu 33 mulheres em Bauru neste ano. Todas enquadradas em tráfico de entorpecentes. Todas foram encaminhadas para Cabrália Paulista. Nenhuma delas tinha nível universitário e direito à cela separada.

O perfil das mulheres traficantes não está bem delineado. Há senhoras com mais de 50 anos de idade que estão presas por tráfico e há jovens presas pelo mesmo motivo. Um item que pode ser destacado é que as senhoras assumem o ponto de comércio de drogas quando o filho é traficante.

Já as mulheres jovens, assumem o ponto quando o marido vai preso, por uma questão se sobrevivência e de manutenção do nível socioeconômico. As mulheres de traficantes mantêm um ‘status’ entre as demais. Possuem mais bens de consumo, gozam de determinados privilégios e concentram um certo poder.

As comerciantes de drogas são oriundas de famílias desestruturas, de maneira geral. Elas deixam a família muito cedo e vão morar com o companheiro ou marido. Têm filhos pequenos e, em sua maioria, moram na periferia.

Segundo o delegado da Dise, José Henrique Gomes dos Santos, uma única mulher presa pela delegacia era de classe média. “As demais são de classe social baixa.”