Mais de 90% das mulheres presas em Bauru neste ano foram enquadradas no crime de tráfico de entorpecentes. Para a polícia, as mulheres assumem o ponto de tráfico quando o marido, ou filho, é preso. Elas se dizem inocentes. Alegam que são viciadas e que precisam de tratamento.
Das 58 mulheres presas em Cabrália Paulista, especificamente - oriundas de Bauru e região - 80% foram consideradas traficantes pela Justiça. Poucas aguardam julgamento e grande parte já está condenada.
O tráfico de drogas, um crime previsto pela lei de entorpecentes, nº 6368/76, penaliza os infratores com condenações que variam de três a 15 anos de reclusão. Por ser considerado um crime grave, aquele que infringe a lei, o acusado responde pelo crime na prisão.
Na opinião do titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), José Henrique Gomes dos Santos, o ingresso da mulher no tráfico pode ser movido por vários fatores. “O marido ou o filho traficante vai preso e ela precisa sobreviver. Então, assume o ponto de venda.â€
Outro artifício usado pelas mulheres, segundo o delegado, é o trabalho de prostituição. “Elas usam o trabalho de pseudo prostitutas para encobrir o comércio de drogas. A mulher usa o artifício de fazer programas amorosos. Faz ponto nas áreas centrais, mas dispensa os clientes que querem programas.â€
Ele lembra que há casos de prostitutas que também fazem tráfico de drogas. “Há aquelas que realmente são prostitutas e praticam o comércio de drogas.â€
Nas unidades prisionais este comércio é mais valioso, devido à grande dificuldade em ingressar com a droga dentro do estabelecimento prisional. “As mulheres têm mais meios de esconder. Elas colocam a droga na vagina e só uma revista pessoal minuciosa pode descobrir.â€
Na opinião de Santos, as mulheres usam as partes íntimas do corpo para esconder drogas e aparelhos celulares. “Não é raro mulheres serem presas na revista pessoal das unidades prisionais. Elas investem nisso para suprir as necessidades do marido ou companheiro e abastecer os amigos dele.â€
Drogas “femininasâ€
O tráfico de drogas “pesadasâ€, como a cocaína e outras, ainda está nas mãos de homens. “Para as mulheres, o comércio de maconha e crack ainda é o predominanteâ€, frisa o delegado.
Outro fator que influencia na venda da maconha e do crack por mulheres é o público-alvo. “Tanto a maconha quanto o crack são consumidos por jovens. A venda é mais rápida, enquanto que a cocaína, por ser mais cara, demora mais para ser comercializada.â€
Santos ressalta que os consumidores de cocaína têm outro nível cultural e, normalmente, pertencem a uma classe social mais elevada.
Nível universitário
A Dise prendeu 33 mulheres em Bauru neste ano. Todas enquadradas em tráfico de entorpecentes. Todas foram encaminhadas para Cabrália Paulista. Nenhuma delas tinha nível universitário e direito à cela separada.
O perfil das mulheres traficantes não está bem delineado. Há senhoras com mais de 50 anos de idade que estão presas por tráfico e há jovens presas pelo mesmo motivo. Um item que pode ser destacado é que as senhoras assumem o ponto de comércio de drogas quando o filho é traficante.
Já as mulheres jovens, assumem o ponto quando o marido vai preso, por uma questão se sobrevivência e de manutenção do nível socioeconômico. As mulheres de traficantes mantêm um ‘status’ entre as demais. Possuem mais bens de consumo, gozam de determinados privilégios e concentram um certo poder.
As comerciantes de drogas são oriundas de famílias desestruturas, de maneira geral. Elas deixam a família muito cedo e vão morar com o companheiro ou marido. Têm filhos pequenos e, em sua maioria, moram na periferia.
Segundo o delegado da Dise, José Henrique Gomes dos Santos, uma única mulher presa pela delegacia era de classe média. “As demais são de classe social baixa.â€