09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Roupa está mais acessível que comida

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

A alta desenfreada nos preços dos alimentos nos últimos meses produziu mais uma aberração: para o consumidor, está sendo mais fácil se vestir do que comer. A constatação parte, principalmente, de pessoas com poder aquisitivo mais baixo, às quais os itens de alimentação têm um peso maior no orçamento.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), neste ano - pela primeira vez desde 1999 - os alimentos subiram mais do que os preços administrados no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

De janeiro a novembro, o IPCA acumulou alta de 10,22%, enquanto que os alimentos subiram 14,97%.

A doméstica Rosenilda Colodiano, 24 anos, conta que há um ano fazia a compra do mês com pouco mais de R$ 100,00. Ela, que mora com o marido e dois filhos, afirma que o valor deixado no caixa do supermercado dobrou em 12 meses. “Hoje eu gasto de R$ 200,00 a R$ 250,00 por mês. Roupa eu compro a cada três ou quatro meses e gasto uns R$ 100,00”, compara.

Ontem, Rosenilda se preparava para comprar cerca de oito peças de roupas para os filhos em uma loja do Calçadão, e pretendia gastar menos do que R$ 100,00. “A roupa também estava um pouco mais barata um tempo atrás, mas ainda dá para segurar”, ressalta.

Já a também doméstica Silvana Aparecida de Andrade, 41 anos, ontem escolhia roupas para presentear seu filho e mais cinco sobrinhos no Natal. “Estou comprando uma peça para cada criança, o que vai dar uns R$ 30,00, R$ 40,00”, calcula.

Ela concorda que, por conta dos aumentos no supermercado, está mais fácil comprar roupas do que comida para a família. “Hoje a comida é mais cara, porque todo mês está subindo alguma coisa. Com roupa, demora mais para subir”, diz Silvana.

A aposentada Núria Fainer, 56 anos, diz que não costuma comprar roupas em lojas. Ela manda fazer na costureira duas vezes por ano. “Gasto mais ou menos R$ 100,00 e dura o ano todo. No supermercado, dá para comprar muito pouco com esse dinheiro”, afirma. E pondera: “As roupas também aumentaram um pouco, só que bem menos do que no supermercado.”

Em uma loja de confecções no Centro da cidade, o gerente Luiz Colpani afirma que a concorrência é a grande causa da manutenção de preços no setor. “O dólar influencia todos os segmentos, tanto a alimentação quanto a indústria têxtil. Mas a concorrência no nosso mercado nos obriga a vender barato. Nossa margem de lucro tem de ser menor e nós temos que ganhar na quantidade”, explica.

Colpani afirma que na loja onde trabalha, centrada em mercadorias populares, os preços variam de R$ 1,99 a R$ 29,00, valores que se mantêm ao longo dos anos. “Com R$ 50,00, a pessoa compra uma calça jeans e duas camisas. E vai usá-las, pelo menos, por um ano. No decorrer desses últimos cinco anos, eu tenho produto que vendo no mesmo preço”, declara o gerente.

Melhoras

Por outro lado, no supermercado, a promessa é de que os preços estarão se assentando - quando não diminuindo - até o início do ano que vem. “A gente percebe que neste mês as negociações já começaram a melhorar para o nosso lado”, revela o supermercadista Cláudio Moura, dono de três estabelecimentos em Bauru.

Segundo ele, os altos preços nas gôndolas não prejudicaram o faturamento, mas a quantidade de produtos vendidos diminuiu entre 6% e 7%. “O cliente que comprava cinco latas de ervilhas, agora compra três. Ele não deixa de comer, mas come menos”, diz Moura.

Para o empresário, a explicação para a diferença relativa entre os aumentos no supermercado e nos artigos de vestuário é que estes aumentaram “aos poucos”, ao passo que o primeiro sofreu o impacto “de uma só vez”. “A indústria de produtos alimentícios se contentou em vender mais e não mexer em preço. Só que nesses últimos três meses, com o problema do dólar, a indústria resolveu abrir a ‘caixa de ferramentas’ e reajustar preços”, diz Moura.

Ele conta que ontem negociou com um grande fornecedor de refrigerantes, que diminuiu o custo do produto de R$ 1,30 para R$ 1,15, justo em época de festas. Para Moura, a negociação com a indústria tem um forte aliado: o consumidor, que está migrando para similares mais baratos. “O poder de resposta do consumidor é na hora, mostrando para o industrial que a coisa não é bem assim”, declara.

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Distorção

Na opinião do economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), a impressão de que os itens de vestuário mantiveram os preços enquanto os produtos alimentícios estouraram deve ser analisada com cuidado.

Segundo ele, a questão principal é que o governo se “empenhou” para segurar os preços da cesta básica, o que se tornou impossível com as recentes altas do dólar. “As confecções, de modo geral, também recebem os efeitos do dólar, mas elas vêm, ao longo dos oito anos do Plano Real, sofrendo reajuste periódico. Isso fez com que a defasagem desse setor não fosse tão grande quanto a dos itens alimentícios”, diz Cafeo.

De acordo com o economista, outro fator importante é a concorrência dos setores. “A negociação dos supermercados com o atacado é feita com uma ‘meia-dúzia’ de empresas, que acabam impondo seus preços”, aponta Cafeo. E completa: “O varejo da indústria têxtil é bem mais pulverizado, e a concorrência é mais significativa nesse setor.”

No entanto, Cafeo afirma que quando os itens de supermercado e de vestuário começam a crescer de maneira desproporcional, isso pode representar algum problema de ordem macroeconômica. “Sem dúvida é uma distorção. E quando há uma distorção na relatividade de preços, é porque há alguma anormalidade na condição econômica”, ressalta o economista.