08 de julho de 2026
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O carro do Papai Noel

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Barba branca, barriga proeminente, cinto e botas pretas, gorro, calça e camisa vermelhas. Para completar, um rosto com as bochechas rosadas e o indefectível sorriso “Ho, Ho, Ho”. Diante de tal descrição, é impossível não associá-lo à figura do Papai Noel, lenda mundialmente conhecida e arraigada na cultura popular e, principalmente, infantil.

Por isso, falar no bom velhinho é, acima de tudo, exercitar a imaginação. Só assim é possível considerar que o igualmente famoso trenó é o “carro” do Papai Noel. Entretanto, ele não é um veículo convencional. Além de ser movido pela força de oito renas, cujos nomes são Dasher, Dancer, Vixen, Comet, Cupid, Prancer, Donder e Blitzen, ele voa.

Partindo de um mundo gelado, no qual o trenó é o único “carro” capaz de mover-se na neve, ele voa para rodar o mundo e entregar os presentes às crianças, descendo pela chaminé das casas ou por locais que permitirem a proeza. Essa é parte da lenda “oficial” do Noel. Entretanto, também é possível brincar com as influências da lenda e a realidade de cada país e povo.

A professora bauruense Leila Gasparezzo Ignatius Grassi, especialista em Educação, Artes e História da Cultura, considera que se o Papai Noel tivesse de chegar em um carro de verdade no Brasil, rodaria com um veículo em cada rua. “Se fosse para uma pessoa de meia idade, viria em uma Ferrari. Já para um mais velho, estaria a bordo de uma Mercedes”, afirma ela, rindo.

No caso de uma criança do Nordeste, poderia estar dentro de um bug para superar as dunas. Já para um negro americano, viria em um Mustang. “Conforme o lugar e o povo, ele viria de um jeito, pois toda cultura popular se adapta ao espaço geográfico”, destaca a docente.

Desta forma, o Papai Noel genuinamente brasileiro, conforme Leila, teria de ser negro e apelidado de Pai João. Ela explica que tentativas nesse sentido foram realizadas no Brasil, mas não obtiveram êxito. “Suponho que a imagem escolhida de um afrodescendente não tenha dado certo porque o brasileiro não aceita essa afrodescendência”, frisa Leila.

A especialista complementa que a figura do Papai Noel no Brasil, a exemplo de outros países, foi importada para nossa cultura, a partir da segunda década do século XX, por aspectos comerciais. “O Papai Noel sobrevive não só devido ao comércio que se atrelou à data natalina, mas também graças à fantasia infantil”, ressalta ela.

Manifestações brasileiras

Leila enfatiza que algumas manifestações culturais populares, se não podem ser consideradas genuinamente nacionais, integram os festejos natalinos. A professora esclarece que pertencem a esse grupo, na região Sudeste e, principalmente, em São Paulo a folia de reis e, na região Norte-Nordeste, o pastoril. Além dessas, também podem ser citadas os presépios e os bois de reizado.

Mesmo possuindo características diferentes, todas apresentam um elo em comum, conforme Leila: festejam o nascimento de Jesus Cristo, o verdadeiro objetivo do Natal. “A grande festa é isso e não o Papai Noel”, enfatiza ela.

Leila acrescenta que, apesar de tais eventos possuírem importância cultural$muito maior do que a do Papai Noel, eles estão desaparecendo em razão da falta de interesse dos jovens em continuar a tradição.

Entretanto, acredita a docente, as manifestações não estão fadadas à extinção. “Elas são cíclicas e sempre ressurgem influenciadas pelo turismo, cinema, música e até as universidades. Apenas hibernam e retornam pela necessidade cultural do ser humano”, conclui Leila.

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O que diz a lenda

A lenda do bom velhinho foi inspirada em uma pessoa verdadeira: o bispo turco São Nicolau, que viveu há muitos séculos. Embora tenha sido um dos santos mais populares do Cristianismo, atualmente poucas pessoas conhecem sua história. Ele viveu em Lycia, uma província na planície de Anatolia no sudoeste da costa da Ásia Menor, onde hoje existe a Turquia.

A história diz que ele nasceu no ano de 350 e viajou para o Egito e Palestina ainda jovem. Durante o período da perseguição aos cristãos pelo imperador Dioclécio, foi aprisionado e solto posteriormente pelo sucessor Constantino, o Grande.

Em meados do século VI, o santuário onde foi sepultado transformou-se em uma nascente de água. Em 1087, seus restos mortais foram transportados para Bari, na Itália, que tornou-se um centro de peregrinação em sua homenagem. Milhares de igrejas na Europa receberam o seu nome e a ele foram creditados vários milagres.

Uma das lendas conta que salvou três oficiais da morte aparecendo para eles em sonhos. Sua reputação de generosidade e compaixão é melhor exemplificada na lenda que relata São Nicolau salvando da prostituição três filhas de um homem pobre.

Em três ocasiões diferentes, o bispo arremessou uma bolsa contendo ouro pela janela da casa da família, abastecendo cada filha com um respeitável dote para que pudessem conseguir um bom casamento.

São Nicolau foi escolhido como o santo patrono da Rússia e da Grécia e também o patrono das crianças e dos marinheiros. Entretanto, sua transformação em Papai Noel começou na Alemanha entre as igrejas protestantes e sua imagem passou definitivamente a ser associada com as festividades e as costumeiras trocas de presentes no dia seis de dezembro (dia de São Nicolau).

Como transformou-se na mais famosa e popular das festas, a lenda cresceu. Em 1822, Clement Moore escreveu o poema “A Visit from St. Nicholas”, retratando Papai Noel passeando em um trenó puxado por oito pequenas renas, o mesmo modo de transporte utilizado na Escandinávia.

Mas o primeiro desenho retratando a figura do Papai Noel dos dias atuais foi feito por Thomas Nast e publicado no semanário “Harpers Weekly”, no ano de 1866. Especula-se, ainda, que as roupas vermelhas só foram acrescentadas no início deste século por meio de uma campanha publicitária feita no rótulo de uma grande marca de refrigerante.

Entretanto, a Reforma Protestante fez com que o culto a São Nicolau desaparecesse na Europa, com exceção da Holanda, onde sua figura persistiu como Sinterklaas, adaptação do nome de São Nicolau.

Colonizadores holandeses levaram a tradição até New Amsterdan (atual Nova Iorque) nas colônias norte-americanas do século XVII. Sinterklaas foi adotado pelo povo americano falante do inglês, que passou a chamá-lo de Santa Claus - em português, Papai Noel.