08 de julho de 2026
Polícia

Após 3 dias, seqüestrado sai com vida

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

O estudante de direito, Danilo Carlos Travain, 20 anos, foi libertado na madrugada de ontem, na estrada Ibaté/Brotas, onde ficou acorrentado por cerca de oito horas. O jovem estava seqüestrado desde a última quarta-feira. O resgate de R$ 50 mil não chegou a ser pago. Quatro pessoas foram presas em flagrante. O mentor do crime, Ivan Martins Alves, conhecido por “Gaúcho” continua foragido.

O seqüestro teve início na tarde de quarta-feira, na quadra 3 da rua Gabriel Rabelo de Andrade, Parque Jaraguá, onde a família tem um depósito de material de construção. O estudante foi convidado por “Gaúcho” para comprar um trator.

Como o estudante não retornou, o pai, Airton José Travain, 47 anos, procurou a polícia e registrou o desaparecimento. Um primeiro contato do seqüestrador com a família foi feito na quinta-feira.

Um policial foi colocado na casa da família, na cidade de Pederneiras, e passou a negociar com o seqüestrador, segundo o titular do Grupo Anti-Seqüestro, delegado José Jorge Cardia. “Eles pediram um resgate de R$ 80 mil, inicialmente. Passaram para R$ 70 mil e aceitaram os R$ 50 mil.”

Além do Grupo Anti- Seqüestro, policiais civis de Ibitinga, São Carlos, Igaraçu do Tietê, Jaú e Ibaté colaboraram com a ação que culminou com a prisão de quatro dos envolvidos.

O último contato dos seqüestradores com a família foi feito no início da noite de sexta-feira, quando ficou estabelecido que o pagamento seria feito por volta das 22h em um bar localizado a oito quilômetros após o obelisco, numa estrada de terra, que liga a cidade de Dourado a Brotas, região de São Carlos.

O seqüestrador quis saber antecipadamente a placa e marca do carro que levaria o dinheiro do resgate. “O pai foi fazer o pagamento dos R$ 50 mil em espécie, usando um Gol”, explica o delegado.

No bar, o pai deveria entregar o dinheiro aos ocupantes de uma Kombi, branca. A polícia cercou o local e ficou aguardando o pagamento. Quando o pacote de dinheiro ia ser entregue aos ocupantes da Kombi, foi efetuada a prisão em flagrante. O mentor do crime, suspeita a polícia, observava a entrega do dinheiro e conseguiu fugir sem ser preso.

A prisão do trio levou a polícia até um matagal na estrada que liga as cidades de Ibaté e Brotas, onde a vítima estava acorrentada desde o início da noite. O cativeiro inicial, onde o estudante ficou acorrentado desde quarta até a noite de sexta-feira, também foi identificado, chalé da Dona Neusa, alugado por “Gaúcho.”

Busca pelo mentor

Segundo o titular do Grupo Anti-Seqüestro, J.J.Cardia, após a libertação da vítima, todas as equipes de policiais civis que trabalhavam no caso investiram na procura pelo mentor do crime, conhecido por “Gaúcho”.

O delegado frisa que uma chácara na cidade de São Carlos, mantida pelo acusado “Gaúcho” foi revistada. “Ele não foi encontrado, mas as buscas continuam.”

Os quatro presos foram autuados em flagrante por crime de seqüestro, com pena prevista de 12 a 30 anos de reclusão.

Dono das chaves

Samuel de Almeida, 21 anos estava com as chaves do chalé e dos cadeados que prendiam o estudante no matagal. Foi ele quem levou a polícia até o matagal e ao antigo cativeiro.

Ele contou que foi contratado por “Gaúcho” para trabalhar como pedreiro. “Ele ia me pagar R$ 25,00 o dia. Eu topei porque estou desempregado.”

No depósito de material, “Gaúcho” teria dito a ele que ia ter uma “fita”. “Ele falou que ia seqüestrar o rapaz. Eu já estava lá e topei. O meu papel era cuidar da vítima. Tirar a corrente para ele tomar água e ir ao banheiro.”

Não sabia que era seqüestro

Carlos Guastaldi jura que não sabia que era um seqüestro. “Fui contratado para fazer um carreto. O serviço era pegar um pacote e levar, só isso.”

O sobrinho de Carlos, Mauro Donizete Guastaldi confessa que não estranhou que “Gaúcho” ofereceu R$ 800,00 pelo frete. “Meu tio perguntou se podia fazer o carreto, porque a Kombi está em meu nome. Eu não cobro esse valor por frete, mas ele ofereceu e eu aceitei.”

Mauro ressalta que o dinheiro seria dividido entre o tio e ele. “Era só pegar um pacote que chegaria num Gol branco e levar para ele. Quando nós íamos pegar o pacote, a polícia chegou.”

Cuidando do hóspede

Irene Maria Lemos foi contratada por “Gaúcho” para cuidar de um amigo dele que ficaria hospedado no chalé. “Ele me procurou e falou que um amigo ficaria hospedado no chalé e eu teria que lavar, passar e cozinhar para ele. Para mim não tinha problema algum.”

Ele me pegou na quinta-feira ao meio dia em Bauru. “Só na hora que eu cheguei lá que eu fiquei sabendo que era um seqüestro. Eu não tinha como correr. Eu não estava amarrada mas estava com medo dele.”

O valor do pagamento não teria sido combinado entre Irene e “Gaúcho”. “Ele não prometeu nada. Eu ia trabalhar sem saber quanto ia ganhar.”

Curriculum

Mauro Guastaldi não possui passagem pela polícia, assim como Irene Lemos e Samuel de Almeida. Carlos Guastaldi foi preso na cidade de Franca, segundo o delegado J.J.Cardia.

“Responde duas vezes por porte de entorpecente, 12 vezes por furto, uma vez por receptação e uma vez por falta de habilitação.”

Caso mais longo

Em março deste ano, o fazendeiro João Lourival Arantes, 68 anos, foi seqüestrado em Bauru. A vítima passou 21 horas nas mãos dos seqüestradores. Ele foi encontrado amarrado a uma árvore na antiga estrada que liga Bauru a Piratininga.

A vítima foi encontrada sem ferimentos graves e o resgate de R$ 50 mil pedido pelos seqüestradores não chegou a ser pago. O caso também foi esclarecido pelo Grupo Anti-Seqüestro da Polícia Civil. Neste caso, houve a participação da Polícia Militar.

O trio, autor do crime, Anderson Aparecido da Silva, 21 anos, Cícero Ferreira da Silva, 24 anos e Wellington Luiz Batista de Andrade, 18 anos foram presos.

O seqüestro do estudante de direito é o segundo registrado, nos últimos cinco anos em Bauru, além de ser o mais longo desse período.