Já fazia algum tempo que aquele casal participava de um grupo de pais de drogaditados que se reunia no Colégio São Luiz, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Foi lá, no Amor Exigente, que eles aprenderam que era preciso afastar a filha das suas atuais más companhias, levá-la a mudar de tribo.
Lá eles também tomaram ciência da falácia dos argumentos modernosos de certos “especialistasâ€, segundo os quais o uso eventual de drogas como marijuana, cocaína e ecstasy não representam, necessariamente, um mal. Como outros pais, eles também ficaram impressionados com o testemunho pessoal de um viciado em crack, que afirmou, em suas próprias palavras: “Ninguém consegue parar só na maconhaâ€.
Fizeram mais: foram pessoalmente conhecer um internato para tratamento de drogadição que os seus novos amigos lhes indicaram, o qual, apesar de suas modestas instalações, era conhecido pelo alto número de jovens que lá se livraram das drogas.
Na verdade, a primeira impressão sobre o estabelecimento não foi nada positiva. Revestido de argamassa grosseira mal disfarçada pelo banco da caiação, os cômodos ligados e construídos em épocas diferentes, o prédio lembrava um cortiço de periferia. E tinha aquele cheiro acre dos dormitórios, os banheiros com barra-a-óleo em vez de azulejos, as cubas das pias da cozinha feitas de concreto tosco...
Mas a terapia empregada na recuperação dos internos era baseada, principalmente, na renovação espiritual de cada um e existem até estatísticas que demonstram que esse tipo de tratamento tem apresentado resultados superiores àqueles aplicados em clínicas psiquiátricas convencionais.
A noite do asmodeu
Ela foi até o quarto dos pais. Eles dormiam abraçados e tranqüilos, descansando da lida cotidiana. A coragem extraída das moléculas de THC dos vários “bagulhos†que, em companhia de seus parceiros, ela havia tragado, de repente arrefeceu. Em vez de acender a luz do corredor, ela desceu as escadas e encontrou os dois irmãos:
“Olhaí meu... ela não tá mais afim... quer tirar o time de campo!â€, falou o mais velho. “Sei nãoâ€, ajuntou o mais jovem. “Tava tudo certo...†e mostrou os canos recheados de massa de cimento endurecido. “E daí se você resolve entregá nóis prus hôme?†Ela foi lá dentro e voltou com um rolinho de notas. O mais velho tomou as verdinhas da mãos dela, contou apressado o dinheiro e determinou:
“Simbóra mano, que a sua mina mijô prá traz.†Depois que eles se foram, ela pegou a chave do carro e foi buscar o irmão menor que fora deixado, estrategicamente, em um fliperama. Naquele resto de noite, ele repensou sua vida.
Pela manhã, quando seus pais se levantaram, ela pediu: “Não dá mais pra agüentar, eu preciso de ajudaâ€. Eles, que aguardavam ansiosos por aquele pedido, a levaram no mesmo dia para a clínica que haviam visitado. No Natal, o pai, a mãe e o irmão foram visitá-la. À tarde, na capela, participaram da celebração do aniversário do Salvador. À frente da atenta congregação formada por internos e familiares, alguém leu a parábola do filho pródigo, leitura que soava extemporânea para aquele dia.
“... Levantar-me-ei e irei ter com meu Pai...†Enquanto o pregador ia alinhavando o seu sermão, ela olhou para os pais que a ladeavam e implorou: “Vocês me perdoam?†Eles lhes estenderam as mãos, que ela agarrou sofregamente. Um sentimento de transbordante alegria permeou-lhe o ser, quando ela percebeu que ainda poderia fazer como o pródigo da parábola, que, saindo do lodaçal em que se atolara, levantou-se e foi ter com seu pai. (Oscar Camaforte - RG 3.640.192)