08 de julho de 2026
Articulistas

Perversões natalinas


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Ao final de cada ano, uma crise histérica toma quase todas as sociedades do mundo ocidental. Embaladas pelo Natal, que em princípio traz o “espírito natalino” e o final de ano, que é considerado símbolo de mudanças, as pessoas ficam mais suscetíveis a amabilidades.

No Brasil, é o período em que as campanhas de donativos crescem acentuadamente. Nos últimos anos, a campanha nacional “Natal sem fome” é a que teve maior visibilidade.

Porém, uma questão se torna fundamental. A doação faz bem a quem doa ou a quem recebe? Em uma sociedade marcadamente judaico-cristã a resposta pode ser a quem doa. Doar significa gesto de caridade. Algo tão apregoado pelos manuais cristãos.

No entanto, a caridade tem algumas características perversas, uma vez que não produz mudanças sociais relevantes e mantém o status quo. Muitas vezes, quem doa sente prazer em fazê-lo não tanto pelo outro, mas pela superioridade que o seu gesto representa e a reafirmação de que a sua posição social é melhor do que a do outro.

A doação, muitas vezes, vem desassociada da crítica social. Poucas vezes se pergunta o porquê de indivíduos precisarem de ajuda, quando o ideal seria ele ter o direito de se auto-sustentar. Associada à caridade, tem crescido no Brasil o trabalho voluntário, em que algumas pessoas dispõem de algumas horas de trabalho por semana com as quais tenham afinidade ou experiência. É um ato reconhecido pela lei federal número 9.608, de 18 de fevereiro de 1998.

Apesar de ser um ato muito mais elaborado, filantrópico e permanente do que a doação, o trabalho voluntário no Brasil tem destituído de responsabilidade os governos. Muitas vezes, o assumir responsabilidades governamentais é camuflar a injustiça social promovida pelo próprio Estado, que arrecada milhões em impostos, mas não os aplica devidamente à promoção social. Estima-se, conforme dados mais recentes do IBGE, que mais de 60 milhões de pessoas são ineptas, justamente por estarem inaptas a participar com proveito da civilização letrada. O índice de desemprego tem sido conseqüência e causa deste fenômeno.

O período de natal vai acentuar essas posturas caridosas e acríticas. Mas por que será que ele provoca o afã e a sensação de bondade em toda parte? O natal vem sendo comemorado desde o século IV. A ideologia cristã sempre procurou manter e impor uma ordem social adequada à sociedade, preservando os interesses dominantes. São muitas as ideologias nesse sentido, como “é mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, a negação da individualidade e a exaltação do sofrimento como possibilidade de atingir um bem-estar pós-morte.

No período natalino, as pessoas artificialmente se tornam fraternas. Tanto é assim que pipocam em todas as empresas e instituições as festas de confraternizações. Pouco importa se durante todo o ano colegas de trabalho se massacraram, perseguiram uns aos outros ou usaram de todos os artifícios para deliberadamente prejudicar o outro. O final de cada ano é marcado por um passar a borracha para tudo recomeçar pós-carnaval. Por que será? (O autor, Ricardo Alexino Ferreira, é jornalista e professor de jornalismo especializado da Unesp)