09 de julho de 2026
Bairros

Jd. Manchester vive primeiro Natal de luz

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Com copos de refrigerante bem gelado, os moradores do Jardim Manchester começaram a brindar em plena noite de segunda-feira o primeiro Natal iluminado no bairro de Bauru, onde a energia elétrica só chegou no final do mês de maio.

“Nosso Natal mudou da água quente para o vinho gelado. Antes não tínhamos direito de ter um pisca-pisca numa árvore, tomar guaraná gelado sem pressa do gelo derreter, ou então, de fazer uma sobremesa”, desabafa a diarista Cristina Aparecida da Silva Cordeiro, que recebia em sua varanda quase 30 pessoas, entre amigos e parentes, para a primeira revelação de amigo secreto iluminada por uma única lâmpada que substituía os diversos lampiões dos natais passados.

Pela primeira vez, a festa era animada por CDs ao invés do rádio de pilha ou da batucada improvisada, e todos puderam comemorar depois de uma chuveirada morna.

“Além de podermos tomar banho de gente, o leite não azeda mais, nem perdemos mais as carnes. Não é preciso mais parecer morto de fome e comer tudo de uma só vez para não estragar”, comenta a presidente da associação de moradores do bairro, Claudeci dos Santos Tavares, popularmente chamada de Claudia.

Ela conta que não foi só o Natal que ficou diferente. O Manchester é outro desde que a luz se fez presente nas casas e nas ruas, que ainda não possuem asfalto. O bairro que antes tinha apenas 94 casas, agora já possui dois bares, uma quitanda e até sorveteria. Os ônibus de transporte coletivo e os entregadores também passaram a circular pelas redondezas.

A vida doméstica também mudou. A grande mudança está em não precisar mais carregar latas d’água de 20 litros da fogueira no quintal até o banheiro para fazer a higiene de cada um da família, num lugar onde a média de habitantes por casa é de cinco pessoas.

A auxiliar de escritório Tatiane dos Santos revela que sem ter que fazer lenha para os banhos e o ferro de passar roupas tem mais tempo para curtir os filhos e cuidar da casa. “Quantas vezes a gente saiu de roupa amassada por não ter como alisá-las. Muitas vezes, esquentei o ferro no fogão para poder passar uma camisa. Gastava gás e não ficava bom.”

O serviço essencial, que chegou ao bairro a tempo de seus moradores assistirem a vitória do Brasil na Copa do Mundo de Futebol, parece trazer tanto benefício que os usuários não se queixam de pagar a conta antes inexistente.

“Os valores nos boletos variam muito. Tem gente que gasta pouco por ainda não ter eletrodomésticos suficientes para aumentar a cota. A minha conta fica em torno de R$ 30,00, mas deixo uma lâmpada acesa a noite toda porque tenho criança pequena”, diz Claudia, confidenciando que alguns vizinhos gastam bem menos e que já tem gente no bairro que tem até freezer e paga mais caro por isso.

Namoro e sonho

Com um mês e meio de namoro assumido “às claras”, o casal de estudantes Daiane Cordeiro, 16 anos, e Ricardo Ramos de Oliveira, 18 anos, deixam escapar que o romance começou quando as noites do Manchester eram pura escuridão. Às vezes, a luz da lua era cúmplice dos dois, mas o lampião era o companheiro de quem precisa ir embora sozinho para casa.

Hoje, a luminária é um acessório dispensável, mas com a luz nos postes os garotos revelam que tem sempre alguém para “segurar vela”.

Se por um lado os adultos e adolescentes já se acertaram com o fenômeno energia elétrica, as crianças ainda estão maravilhadas em poder ter pisca-pisca e lâmpadas coloridas decorando a casa. Os irmãos Débora Aline e Wellington Rafael da Rosa de Almeida, de 7 e 9 anos respectivamente contam que sempre quiseram ter luzinhas em sua casa como viam na televisão movida a bateria automotiva.

“Parece um sonho. Sempre quis um desse”, dispara Rafael, grudado na grade da janela de sua casa e acompanhado da irmã, do pai e do irmão caçula ainda bebê, que já observa as luzes no pequeno arbusto no jardim. Outro sonho que o menino sempre alimentou e só pôde saborear depois da chegada energia foi um de seus doces favoritos: gelatina.