11 de julho de 2026
Cultura

Aposentado compõe música para homenagear pedreiros


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O aposentado bauruense José Carlos de Carvalho, mais conhecido como Jota Carvalho, resolveu lançar hoje, na data em que se comemora o dia nacional do pedreiro, um CD para homenagear a categoria.

Definindo-se como um “meditador comunitário, humanitário e solidário”, Carvalho não é cantor e sequer toca instrumentos musicais. Mesmo assim, contratou os arranjos e um cantor para interpretar as três faixas que compôs para o CD: “O grito do pedreiro”, “Big bode” e “Voto certo”.

A primeira música, considerada carro-chefe do CD, ele destaca ter feito para quitar uma “dívida” moral de reconhecimento à classe trabalhadora em questão. “Eles constróem desde o lar onde nascemos e repousamos até o local onde trabalhamos, as escolas em que estudamos e a tumba onde eternamente dormiremos”, salienta Carvalho.

Ele frisa reconhecer o valor das demais atividades profissionais, mas para o aposentado os pedreiros têm importância especial. “Aquele que chega primeiro no terreno acidentado, levanta a obra e aprende a profissão na raça, quase sempre sem freqüentar uma escola, com trabalho árduo, muito suor e calos nas mãos e realiza o sonho da casa própria de tantos irmãos, merece uma comemoração significativa.”

Segundo o aposentado, a idéia de fazer algo para elevar a importância da categoria surgiu após a construção de dois imóveis, um deles o lar atual de Carvalho. “Não passou por mim despercebida a luta e o sofrimento desses profissionais. Por isso, tentei reproduzir na letra da música a luta dessa humilde classe trabalhadora, tão mal remunerada no Brasil”, afirma ele.

Além disso, a letra, conforme Carvalho, é dirigida principalmente aos pedreiros autonômos (informais) que trabalham sem carteira assinada. “Em reportagem do Jornal da Cidade de setembro deste ano, uma estimativa do Sindicato da Construção Civil de Bauru cita haver apenas 15% de trabalhadores informais na área, um índice de filiados acima do contexto nacional”, aponta.

Ele continua seu raciocínio exemplificando que, no Brasil, cerca de 70% dos trabalhadores estão na informalidade. “Dos 4 milhões que atuam na construção civil no País, apenas 1,2 milhão estão formalizados. O restante fica à margem dos benefícios e sujeito aos especuladores de mão-de-obra. Sequer conseguem almejar, ironicamente, uma casa própria por não ter como provar renda”, critica.

Diante de tal cenário desolador, Carvalho ressalta que a música poderia inspirar políticos a defender um projeto que facilitasse o acesso à casa própria aos pedreiros, especialmente aos informais. “Se a pessoa possui todos os documentos, constitui família, tem o nome limpo, trabalha e sustenta um lar, trata-se de um batalhador, um herói que não precisa provar renda para ter direito à moradia popular”, diz.

O aposentado justifica que nem a inadimplência seria motivo de preocupação para o eventual projeto. “Ela não faria nem cócegas aos grandes cartéis que fajutam documentos para conseguir financiamentos e, depois, usam o prestígio e o lobby da politicagem para serem beneficiados rolando, negociando, e não pagando as dívidas contraídas”, ataca Carvalho.

Grito longe

Carvalho faz questão de ressaltar que o CD não foi produzido com intuito comercial e nem será vendido em lojas. “Foi um hobby para dar vida a algumas letras que compus após aposentar-me. A intenção é muito mais solidária do que financeira”, enfatiza. Apesar disso, quem se interessar pelo CD poderá adquiri-lo.

Na luta para fazer ecoar o “O grito do pedreiro”, Carvalho distribuirá o CD nas rádios bauruenses e tentará repassar a música a um famoso cantor nacional, que ele preferiu não divulgar o nome. “Assim, esse grito ecoará para o Brasil inteiro”, acredita.

O aposentado pretende, em 2003, convidar o sindicato da categoria, lojas de materias de construção, construtoras e imprensa em geral para participar de uma festa que deseja organizar em homenagem aos pedreiros. “Quero conscientizar todos sobre os grandes benefícios prestados por essa classe trabalhadora para a geração do progresso do Brasil”, salienta Carvalho.

Ele explica, ainda, a existência das outras duas músicas integrantes do CD, “O voto certo” e “Big bode”. “A primeira, que já foi motivo de reportagens na mídia, foi composta antes das eleições e fala da importância do voto consciente. A outra faixa é uma sátira divertida que visa ajudar os nordestinos a vender o animal típico da região”, conclui.

Serviço

Os interessados em adquirir o CD a preço de custo (R$ 3,50) podem ligar para o telefone (14) 234-5255.

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O grito do pedreiro

Eu sou pedreiro construtor, eu sou obreiro De janeiro a janeiro é labuta o dia inteiro Não tenho férias nem direito a lazer O registro e benefícios é o que eu mais queria ter Sou projetista orçamentista faço a lista Sem escola freqüentar e sem direito de errar O meu trabalho é meu sonho edificar De tijolo em tijolo construindo o seu lar

Refrão (1x)

Sou bóia fria, bóia morna requentada De mãos grossas como lixa, reclama a namorada Seu empreiteiro, arquiteto ou engenheiro Se não fosse minha fibra como a obra iria arriba Demolição, obra nova ou reformar Tudo toma nova forma pra paisagem embelezar

Refrão (1x)

Obra de pé, suor e calos nas mãos Tantos outros operários vêm tirar seu ganha pão Sou orgulhoso de servir o meu irmão Com muita satisfação e amor no coração Mesmo depois que todos vestirem o terno Estarei na vossa tumba lapidando o berço eterno

Refrão (1x)

Senhor patrão, tenha muita compaixão Pra eu poder adquirir meu pedacinho de chão Doutor político, não quero enricar Só direito a um lugar pra família habitar Senhor presidente faz favor, olhe pra gente Mão-de-obra varonil pro progresso do Brasil

Refrão (7x)