“Sertão Noroeste: índios atacam dois roceiros. Um deles é degolado, outro empalado. O revide dos brancos perpetua-se na madrugada seguinte. Trinta e oito silvícolas, uns adultos, outros crianças, surpreendidos na aldeia, ainda sonados, são exterminados a tiros e golpes de facão.â€
Partiram de Araritaguaba, às margens do rio Tietê. Vinte e seis canoas... homens e suprimentos nelas. Sob o comando do sargento-mor, atendendo incumbência do presidente da Província, a caravana fluvial iniciou a viagem numa manhã ensolarada de dezembro, 17. Seu destino, se tudo corresse bem, distanciava dois meses ou mais: o Forte Iguatemi, em Goiás. Ali renovariam o estoque de suprimentos e trocariam os componentes da armada.
No primeiro dia, depois de muito navegar, surgiu a primeira cachoeira, Abaramanduaba; depois outra, Piraporá. Vencidas no final da tarde, embicadas as canoas à margem do rio, abriu-se uma clareira para alojar o pessoal, lugar comum nas noites seguintes: matança de jararacas e corais, ladainhas entoadas à Nossa Senhora e rezas ao santo protetor. Dourados e pintados apresados e comidos, veados pardos abatidos para servir às refeições.
Cachoeiras, correntezas e saltos seriam vencidos nos dias seguintes. Haveria transporte da carga por terra, para que as canoas pudessem sobrepujá-los... um cenário redundante numa longa jornada desenrolada no século 18. No trajeto, o contato com carrapatos que feriam a pele dos viajantes, doenças grassando, alguns perecendo no percurso.
No terceiro dia a caravana chegou às barras dos rios Capivari e Sorocaba. Dificuldades aflorando, o rio, até então indomável, sucumbia aos remos que avançavam... ficaram para trás o ribeirão Icoacatu e a barra do rio Piracicaba.
Nautas avistaram os morros de Piracicaba e Araraquara-Guaçu, há mais de oito léguas de distância, pasto adentro. Acamparam sempre com o mesmo ritual... No dia seguinte, 24, seguindo rumo noroeste, transpuseram as cachoeiras Potunduva, Ibauru-Guassu e Ibauru-Mirim... arrancharam próximos a um rio que desembocava entre elas.
Na manhã de 25 a caravana demorou para retomar a viagem, pois dois nascimentos estavam ocorrendo. Uma jovem mulher, cabocla das Gerais, num lento e doloroso parto, deu à luz um menino... seu nome, Jesus. Criança robusta que abriu seus pulmões na mata e chorou até encontrar o seio materno e mamar com avidez.
Outra jovem, uma índia bronzeada, guarani da horda de Apapukúva, rumou em direção a um igarapé, e, silenciosamente, imersa na água, sentiu nascer um menino... novo choro à procura das mamas maternas, invadiu a floresta. Seu nome... Yma ú, uma semente sagrada para consagrar esse dia.
O Natal na floresta cristalizou-se com o nascimento das duas crianças, e nos dias seguintes eles viajariam juntos, às vezes na mesma canoa. Somente depois, muito depois, alguns anos adiante, poderiam se confrontar, um trucidando o outro e vice-versa.
Mas quando a caravana partiu, ruídos dos pássaros e animais na floresta, confirmavam o sacrossanto dia. (Texto parcialmente inspirado no “Diário de Navegação†do sargento-mor Teotônio José Juzarte)