Morango temperado com endosulfan e tetradifon; mamão com dicofol e metamidofós; alface com ditiocarbamatos e clorotalonil. São apenas alguns exemplos de agrotóxicos não autorizados para essas culturas, mas detectados nos alimentos em um estudo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
As análises foram realizadas em quatro Estados - São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Pernambuco - com 1.295 amostras de nove tipos de alimento: alface, banana, batata, cenoura, laranja, maçã, mamão, morango e tomate.
Cerca de 83% das amostras (1.051) continham resíduos de agrotóxicos e 22% (233) estavam em desacordo com a legislação: 74 com resíduos de produtos não autorizados para aquele alimento, 94 com resíduos acima do permitido e 65 com os dois problemas.
“Embora o Brasil não disponha de dados suficientes que reflitam a situação de contaminação nos alimentos, é possível supor que o problema seja significativo, considerando-se que o País é um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do mundo, aliado ao fato de que as Boas Práticas Agrícolas (BPA) não estão asseguradasâ€, informa o relatório da pesquisa.
Para o gerente-geral de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles, alguns dos resultados são considerados “alarmantesâ€. No entanto, não existe comprovação científica de que o consumo de alimentos da agricultura tradicional a longo prazo faça mal à saúde, até mesmo pela complexidade que um diagnóstico como esse exigiria
O uso de agrotóxicos, segundo Meirelles, é regido por normas internacionais e nacionais de segurança, segundo as quais o alimento deve chegar à mesa do consumidor livre de qualquer resíduo potencialmente nocivo (abaixo de um valor máximo permitido).
De acordo com o Idec, a venda e utilização de substâncias mais nocivas, conhecidas mundialmente como “os 12 sujosâ€, estão proibidas no País desde 1985. Mas apenas em 1990 a Lei dos Agrotóxicos foi regulamentada no Brasil. A legislação responsabiliza os ministérios da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente pelo controle dos componentes químicos.
Porém, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil é um dos países que mais exageram no uso de agrotóxicos, consumindo 7% da produção mundial.
A falta de fiscalização e capacitação sobre a aplicação desses produtos no campo oferece poucas garantias de que haja efetivamente um controle. “O alimento convencional carrega esse risco embutidoâ€, comenta Meirelles.
“Há uma exposição humana muito grande e desnecessária a esses produtosâ€, afirma o coordenador-geral de vigilância ambiental em saúde da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Guilherme Franco Netto. “Não tem um produto na cadeia alimentar que não receba algum tipo de agrotóxicoâ€, completa.
Intoxicação
Desenvolvidos para combater insetos, fungos e ervas daninhas das plantações, os agrotóxicos acabam atingindo outros níveis do meio ambiente, não apenas os alimentos.
O Idec alerta que, junto com a água, eles são absorvidos pelo solo e migram para as águas subterrâneas, poluindo rios e mares. Com isso, podem ocasionar sérios prejuízos ao ecossistema, como a acidificação do solo e a morte por asfixia das espécies aquáticas.
Mesmo em concentrações mínimas, muitos resíduos químicos concentrados nos alimentos e na água são bioacumulativos, ou seja, não são eliminados pelo organismo. Isso compromete toda a cadeia alimentar. O animal tratado com grãos ou vegetais cultivados com agrotóxicos vai carregar os resíduos em sua carne, que será ingerida pelo homem.
Isso sem contar o risco de intoxicação direta dos trabalhadores rurais. Muitos chegam a aplicar os agrotóxicos na lavoura sem qualquer proteção. De acordo com o Idec, várias doenças já começam a ser atribuídas ao consumo e contato do homem com os pesticidas, como alergias, câncer e até queda da fertilidade do homem.
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Observe
• Os alimentos produzidos sem substâncias químicas tóxicas têm mais nutrientes e vitaminas. Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) comprovou que o ovo de galinha caipira tem cerca de quatro vezes mais caroteno (pró-vitamina A), em comparação com um desses ovos produzidos em granjas modernas com insumos industriais.
• O ecossistema é preservado. De acordo com o site Planeta Orgânico, pesquisas mostram que há aumento da fauna e da flora (biodiversidade) em propriedades orgânicas. Os pesticidas usados na produção de alimentos convencionais invadem os lençóis freáticos, poluindo rios e lagos. A agricultura orgânica também evita a erosão do solo e ainda contribui para reduzir o efeito estufa.
• O fator social: quem compra orgânicos pode ajudar a manter as pequenas propriedades de cultivo de alimentos - os maiores produtores desse tipo de produto - e colabora para acabar com o envenenamento por pesticidas de agricultores e suas famílias. (Fonte: Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)