Comentário do professor José Carlos M. Brandão na exposição “Sonhos de Primaveraâ€, no salão da Catedral: Venha ver um quadro. É muito importante: você estará criando como um artista. Um dos maiores escritores franceses, Paul Valéry, disse que uma obra de arte só existe in actu, isto é, quando está sendo vivida por alguém. Se não, é letra morta. Somente quando eu leio um poema, ouço uma música, vejo uma pintura, essa obra ganha vida.
Mas você pode dizer, e quem não entende nada de arte? Como eu sei que um quadro é bom ou não? Disseram para olhar coisas como cor, forma, volume, perspectiva - e daí? Eu não entendo nada disso. E eu lhe direi: você tem sensibilidade. A obra de arte é feita para emocionar e todos os homens são capazes de viver uma emoção. Olhe um quadro. Olhe-o globalmente, depois olhe-o minuciosamente, como se estivesse apalpando cada detalhe com os olhos. Se você conseguiu projetar-se no quadro, se você conseguiu entrar dentro do quadro, essa pintura é boa. E você deu vida a essa pintura. Você, nesse momento, é um criador. Ou, então, em algumas obras, talvez você consiga tirar a pintura de dentro do quadro. A cor das árvores, das paredes, da pele das pessoas, a expressão de um olhar, dos lábios, das mãos parecem ter vida. Você lhes deu vida. Você, nesse momento, foi um criador.
E não é preciso interpretar nada, entender o que significa isso ou aquilo. Você não pergunta se uma flor, um pássaro ou o sol têm significado. Você sabe que existem. Você saboreia. Você vive a luz do sol, a beleza da flor ou do pássaro. Veja bem: numa pintura, uma flor nem precisa existir. Não precisa ser uma flor. René Magritte, um dos grandes pintores do século XX, pintou com perfeição um cachimbo e escreveu embaixo: “Isto não é um cachimbo.â€ É óbvio que muita gente se esquece: aquilo era um quadro. O cachimbo tem uma existência. O quadro tem outra existência. Quando o quadro tiver existência, será um bom quadro. Você o criou. (Elizabeth De Lucca - RG 1.439.365)