10 de julho de 2026
Economia & Negócios

2003 traz despesas de várias áreas com preços mais altos

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Durante o ano de 2002, a dona de casa Ângela Marta Gabriel Moreno, 46 anos, gastou aproximadamente R$ 569,00 em contas administradas pela Prefeitura Municipal de Bauru. Foram R$ 425,00 de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), mais uma média de R$ 12,00 mensais de água para o Departamento de Água e Esgoto (DAE). Neste ano, Ângela gastará pouco mais de R$ 700,00 - alta de 23%.

A elevação de custos no orçamento da casa se deve ao aumento de 20,78% no IPTU e aos reajustes da tarifa de água, de 30% em janeiro e 15% em abril. Em ambos os casos, o aumento ocorreu nos últimos dias do ano passado. O desfalque poderia ser maior se a Contribuição para Custeio dos Serviços de Iluminação Pública (CIP) tivesse sido aprovada pela Câmara Municipal na última segunda-feira.

Com a CIP, que previa pagamento de 5% sobre o valor da conta de energia elétrica, Ângela passaria a gastar de R$ 6,00 a R$ 7,00 todo mês, já que sua conta de luz varia entre R$ 110,00 e R$ 120,00. A “sorte” da dona de casa, de classe média, é que ela não anda de ônibus, pois há um mês a tarifa do transporte coletivo subiu 20%, passando para R$ 1,20.

Por outro lado, a família de Ângela possui dois carros, que juntos consomem cerca de R$ 830,00 por ano apenas de Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). Porém, ambos que foram transformados de gasolina para álcool. No início da semana, a gasolina subiu 22%, chegando a uma média de R$ 2,25 por litro em Bauru.

“A renda da casa continua a mesma. Quer dizer que a gente vai ter de cortar outras coisas, diminuir bem no mercado. Viagem não teve nesse final de ano. Vou ter de cortar por todo lado para suprir esses aumentos”, lamenta Ângela. Segundo ela, a situação da casa “se complica” no mês de janeiro, pois seu marido é vendedor autônomo e, portanto, não recebe o esperado 13.º salário.

A dona de casa tem três filhas, duas delas estudando em escolas particulares. A mensalidade da mais nova, matriculada na 3.ª série do ensino médio, passou de R$ 211,00 para R$ 340,00. A “filha do meio”, que cursa faculdade de direito, já anunciou para a mãe um reajuste em torno de 12% na mensalidade.

A filha mais velha estuda em Araraquara numa universidade pública e tem carro, mas vem a Bauru de ônibus. “Carro para ela é só dentro da cidade. Contando o pedágio, são mais ou menos R$ 60,00 para vir a Bauru”, diz Ângela.

Além disso, a família é obrigada a pagar preços cada vez mais altos no supermercado, já que os itens de alimentação tiveram aumentos maiores do que a inflação do País, que ultrapassou os 25% de acordo com o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). Em Bauru, o Data-ITE apurou aumento de 31,7% no custo da cesta básica em 2002.

Diante dos aumentos que chegaram junto com o Réveillon para os bauruenses, a dona de casa tomou a decisão “menos traumática”: vai começar a pagar o IPTU apenas em maio. “No ano passado eu deixei de pagar o IPTU e acabei parcelando no final do ano, quando deu uma ‘folgadinha’”, relembra Ângela.

“Tiro pela culatra”

O economista Reinaldo Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), aponta que a saída encontrada pela dona de casa poderá se tornar um problema para a prefeitura. “Talvez o governo municipal tenha dado um ‘tiro pela culatra’, porque pode indicar um aumento na inadimplência. O aumento de 20% (no IPTU) pode não ter efeito nenhum no caixa da prefeitura”, observa Cafeo.

Para o economista, a questão principal é que, no caso do IPTU, o Poder Público não tem meios de pressão como o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) ou o corte de algum serviço por falta de pagamento. A média histórica de inadimplência com o IPTU em Bauru é de 20%. “O setor público é menos dinâmico”, avalia Cafeo.

Como a situação de muitas famílias chega a ponto de não ter mais supérfluos para cortar, a solução é postergar os gastos necessários, mas não “urgentes”, acredita o economista. “Entre comer e pagar o crediário, provavelmente a pessoa vai deixar o crediário para trás”, declara Cafeo.