O Noroeste inicia a temporada 2003 com perspectivas otimistas. Depois de um ano conturbado, dentro e fora de campo, a equipe de Bauru foi “resgatada†por um grupo de empresários da cidade, que espera recolocar o clube no Campeonato Paulista da Primeira Divisão.
O projeto é a médio prazo. Uma das primeiras medidas da diretoria noroestina para recuperar o prestígio do clube, bastante abalado após temporadas sucessivas de fracassos, foi a contratação do técnico Vitor Hugo.
Nascido em 9 de fevereiro de 1964 na pequena Muçum, no Rio Grande do Sul, o zagueiro Vitor Hugo iniciou sua carreira no Esportivo de Bento Gonçalves. Em 1986 transferiu-se para o Noroeste, por intermédio do técnico Varlei de Carvalho. Aqui, o zagueiro iniciou sua carreira profissional. No ano anterior, o time de Bauru havia sido rebaixado da Primeira para a Segunda Divisão.
A equipe conseguiu o acesso à Primeira após conquistar o título, com Vitor Hugo como titular absoluto. Em 1987, ao lado de Márcio Araújo, Jacenir, Alívio, Rodinaldo, Baroninho, Chico Spina e outros, integrou um dos melhores times já montados pelo Noroeste.
Depois disso, foi para o Inter de Limeira. Conseguiu outro acesso para a Primeira Divisão com o Bragantino, em 1988. Sua postura estilo “xerife†na zaga chamou a atenção do Guarani, que o contratou em 1989, e de onde foi para o Flamengo, para ser campeão da Copa do Brasil em 1990. A seguir, Vitor Hugo teve passagens por Paysandu-PA, Marília, Ceará, Sãocarlense, Matsubara, Portuguesa, Confiança-SE, Fortaleza, Goiatuba-GO, Remo-PA, Francana e encerrou a carreira de jogador em julho de 2000, no Olímpia.
Além dos títulos da Segunda Divisão Paulista, com Noroeste e Bragantino, e da Copa do Brasil com o Flamengo, Vitor Hugo foi campeão estadual com o Paysandu (1992), Ceará (1993, 1994 e 1996) e Confiança (1996).
Neste meio tempo teve mais duas passagens pelo Noroeste, em 1997, e em 2000, quando sofreu uma contusão e não atuou, depois de assinar contrato. Assim que deixou o lado de dentro das quatro linhas, Vitor Hugo iniciou sua carreira de treinador. Onde? Em Bauru, no Noroeste. “Eu nasci torcedor do Inter de Porto Alegre, mas hoje, se me perguntam para que time torço, eu falo que sou noroestinoâ€, orgulha-se. Além do Norusca, o técnico já treinou o Taquaritinga, Sãocarlense e Sertãozinho. Leia os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Com toda essa experiência como jogador e agora como treinador, o que você considera mais difícil: ficar do lado de lá das quatro linhas ou no banco? Vitor Hugo - Acho que são duas situações diferentes. Como jogador a gente se preocupa apenas em fazer nossa parte, treinar e estar bem no dia do jogo. Se a equipe não foi bem, você pensa: “Ah! Mas eu joguei bemâ€. Já como treinador, você tem de se preocupar com um grupo de 30 ou 40 pessoas, do qual você é o comandante. Precisa ter muita tranqüilidade. Tem que saber a hora certa de falar as coisas, de “dar uma dura†ou uma “alisadaâ€.
JC - Você se espelha em algum treinador já consagrado? Vitor Hugo - Principalmente no Luís Felipe (Scolari, ex-técnico da Seleção Brasileira, atualmente na Seleção de Portugal) e no Emerson Leão (técnico campeão brasileiro com o Santos).
JC - Eles são conhecidos como treinadores da chamada “linha duraâ€. Você também se considera “durãoâ€? Vitor Hugo - Eu gosto das coisas certas. Se o treino está marcado para as 9h, eu acho que tem que começar na hora certa. Se vejo o meu time desarrumado dentro de campo, eu fico nervoso. Não é bem uma linha dura, do tipo não pode fazer isso, não pode fazer aquilo. Não é isso. Em termos táticos eu sou um disciplinador.
JC - Como treinador você havia trabalhado apenas com profissionais. Como está sendo lidar com os garotos do Noroeste que vão disputar a Copa São Paulo? Vitor Hugo - A diferença é que, no júnior, você pega o jogador ainda sem vício de posicionamento. O profissional já tem uma maneira de jogar, um posicionamento que ele gosta e é difícil mudar. Já os garotos em início de carreira, assimilam tudo o que você fala. É mais fácil trabalhar com os mais jovens.
JC - Como foi sua primeira passagem (como treinador) pelo Noroeste? Por que você saiu? Vitor Hugo - O time estava bem no campeonato. Fizemos um bom primeiro turno, estávamos na briga pelas primeiras colocações, mas na segunda partida do returno me dispensaram. O time estava em terceiro lugar, a três ou quatro pontos do líder. Eu saí porque perdi um jogo para o lanterna do campeonato e a diretoria achou por bem me dispensar.
JC - Naquela época, o presidente era o Toninho Gimenez (atual presidente). Não ficou nenhuma mágoa? Vitor Hugo - Não. Tanto é que estamos trabalhando juntos novamente. Futebol é assim mesmo.
JC - Com várias passagens pelo Noroeste, você já conhece bem o clube. O que falta ao Norusca para se firmar na elite do futebol? Vitor Hugo - Mais profissionalismo. Pessoas que não entendem nada de futebol querem se meter a fazer futebol. É como fazer uma casa: se você não entende do ofício, a casa não vai ficar boa. Acho que as pessoas têm que ser mais profissionais. Outra coisa é que alguns se aproximam do clube apenas para tirar proveito próprio, o que não é o caso da diretoria atual. Basta ver o tanto de dívidas que ela já saldou, sem ter disputado um campeonato sequer. É um trabalho sério, voltado para as categorias de base e que, se for mantido, em três ou quatro anos o Noroeste vai estar andando com as próprias pernas.
JC - O cargo de treinador no Brasil é bastante instável. Os resultados sõ muito cobrados, mas às vezes demoram a acontecer. Você não está preocupado em iniciar um trabalho no Noroeste que pode não ter resultados imediatamente? Vitor Hugo - Esta é a mentalidade predominante entre os dirigentes brasileiros. Mas a partir do momento em que se passa a gerir o futebol com uma mentalidade empresarial, como está acontecendo hoje no Noroeste, isso muda. O importante é ter tranqüilidade e o respaldo para você desenvolver um trabalho, mexer com a garotada. A partir do momento em que você disputa competições profissionais com 15, 18 garotos, você não pode ser cobrado.
JC - Então, neste ano o Noroeste ainda estará se estruturando. Será difícil conseguir o tão sonhado acesso agora? Vitor Hugo - Veja bem, não é porque vamos ter um time-base formado por garotos que nós não vamos lutar para subir. Vamos contratar, eu acredito, cerca de oito a dez jogadores experientes para dar apoio aos garotos. Não adianta formar um time só de garotos, que se perder dois ou três jogos seguidos pode colocar todo um trabalho que seria a longo prazo por água abaixo. Temos que contratar profissionais experientes para dar suporte, caso contrário, a coisa desanda mesmo. Nosso objetivo é subir. Não sei se vamos, mas nosso trabalho é voltado para o acesso. Disso você pode ter certeza.
JC - O futebol do Interior paulista já foi considerado um dos mais fortes do País. Atualmente, os times vivem crises financeiras sérias e o público tem se afastado cada vez mais dos estádios. No ano passado, a média de público do Noroeste foi inferior a 200 torcedores por partida. A que você atribui esta situação? Vitor Hugo - Acho que hoje existem muitos jogos na televisão. Todo final de semana tem três ou quatro jogos na TV. Se passa um Corinthians x Palmeiras, quem vai sair de casa para assistir a um Noroeste x Inter de Bebedouro, pela Série A3? Tem que gostar muito. Outra coisa. A Federação (Paulista de Futebol) dá com uma mão e tira com a outra. É taxa de arbitragem e de outras coisas. Hoje tudo tem custo no futebol e antigamente não era assim. Os clubes arrecadam menos e gastam mais.
JC - Futebol hoje é apenas negócio? Vitor Hugo - Principalmente em clube grande. Gira muito dinheiro. Há muito interesse de diretores, empresários e de outras pessoas. Veja o caso do Vanderlei Luxemburgo: por trás dele há uma máfia que compra e vende jogador, leva para cá, para lá. Realmente virou um negócio e, para alguns, muito rentável. Para outros, já é mais difícil.
JC - Você vê possibilidades de o futebol recuperar um pouco do romantismo de antigamente? Vitor Hugo - Hoje em dia, toda pessoa que entra no futebol, entra para tirar proveito em alguma coisa. Antigamente não era assim, as pessoas entravam no futebol porque gostavam. Hoje o moleque começa a jogar e logo tem alguém por trás para vender o passe. Mas eu acredito que o futebol poderia ser mais motivado se o Campeonato Paulista voltasse a ser mais longo, com as equipes da região disputando uma mesma divisão, o que alimentaria a rivalidade, sadia é claro, trazendo mais público. Se certas equipes paulistas de mais tradição, como Noroeste, XV de Jaú e Ferroviária voltassem à Primeira Divisão, ajudaria bastante.
JC - Você ainda sente aquele “friozinho†na barriga antes de um jogo importante? Vitor Hugo - Para você ter uma idéia, eu estou ansioso para esta Copa São Paulo, que para mim não é tão importante. Eu não vejo a hora de o time entrar em campo. A gente vive o clima com se fosse um dos jogadores.
JC - O novo governo assumiu prometendo usar o esporte como instrumento de inclusão social. Você acredita que o futebol profissional pode colaborar neste sentido? Vitor Hugo - Fora do futebol profissional eu acredito que seja possível realizar bons projetos sociais, inclusive com outros esportes. Mas com o profissional é difícil, há muito dinheiro envolvido, muitos interesses.
JC - Para finalizar, como fica a vida familiar numa carreira com tantas passagens por tantas cidades diferentes? Vitor Hugo - Sou casado há 15 anos com a Vivian e tenho duas filhas - Giovana, de 11 anos, e Gabriela, de 14 -, e faz cinco anos que estamos em Bauru. Mas a família não me acompanhava em todas as mudanças. No meu caso, consegui conciliar e, graças a Deus, deu tudo certo.