Três temas foram confirmados no Conselho Europeu, reunido em Copenhague, como encerramento da presidência dinamarquesa da União Européia (UE). O primeiro é que o maior êxito de integração internacional caminha para uma transformação radical, não somente de suas dimensões como também de sua estrutura interna. A segunda é que a UE, teimosamente, continua adiando decisões sobre assuntos espinhosos, e prefere deixar ao passo do tempo a resolução de problemas difíceis de enfrentar de maneira contundente. O terceiro detalhe é que a UE, desde a Ata Única de 1986 e do Tratado de Maastricht de 1992, com a adoção do euro este ano e dos debates constitucionais, já não é vista como uma experiência incerta. Atrai a atenção dos Estados Unidos nesses tempos nublados pós-11 de setembro.
Em Copenhague, confirmou-se a entrada, em 1 de maio de 2004, de dez novos membros. Também exortou-se a Romênia e a Bulgária para que continuem fazendo a lição de casa. Manteve-se uma porta aberta para a entrada da Turquia a partir de algumas negociações que poderiam começar em 2005, se no final de 2004 a UE considerar que Ancara progrediu nos assuntos pendentes.
Por um lado, conseguiu-se a ampliação para 25 membros, mas com um calendário de adaptação longo para que os novos sócios possam assimilar o golpe que representa tratar de “você†os demais membros. Por outro lado, enquanto a UE aumenta sua população ostensivamente, em relação ao PIB o faz apenas em cerca de 5%. De certo modo, a ampliação para os países do Leste e duas ilhas do Sul (Malta e Chipre) é como a incorporação da República Democrática Alemã após a queda do Muro de Berlim e da reunificação da Alemanha. Foi uma decisão de justiça política, mas com notáveis desvantagens e conseqüências econômicas.
Porém, da mesma maneira que a UE retarda a decisão final com relação à Turquia, também deixa no ar outro assunto espinhoso que insolitamente causa impacto direto em um dos novos membros: Chipre. Deixa a porta aberta para uma resolução sobre a formação de uma federação viável, para a qual é necessária a boa vontade dos turco-cipriotas, cujo território do norte está ocupado por 35 mil soldados turcos desde os enfrentamentos de 1974. Caso contrário, se terá acertado uma fórmula pela qual os benefícios que o território turco deveria receber ficariam suspensos, fazendo com que, de fato, para a UE Chipre seria somente a comunidade dos grego-cipriotas.
Por trás desta solução está a boa intenção e desejos de que o impasse sirva de estímulo à Turquia para inserir a resolução do problema no dossiê de boa conduta que a UE a obriga a apresentar em 2004. Somente assim terá possibilidades de iniciar as desejadas negociações de ingresso na UE em 2005.
Suspeita-se na Europa que a satisfação norte-americana pela ampliação da UE é, na realidade, um desejo para que derive no sentido de uma zona de livre comércio sem ambições de defesa autônoma. A resposta pode partir unicamente da própria UE. Mas a ambivalência e as indecisões colocam em perigo seu futuro. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático “Jean Monnet†e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami)