09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A escola dos nossos sonhos


| Tempo de leitura: 4 min

Sou professor da Rede Estadual de Ensino desde 1983 e nunca vi nesses meus 50 anos de idade e 28 de militância uma política tão perversa como a praticada pelos senhores FHC/Geraldo Alckmin/Gabriel Chalita/Jair Sanches Vieira, respectivamente, ex-presidente da República, governador do Estado de São Paulo, secretário de Estado da Educação e dirigente regional de Ensino de Bauru

Nos anos 60/70 lutamos contra a ditadura militar, a carestia, a censura. Queríamos democracia. Nos anos 80/90 lutamos contra a inflação, o desemprego, a corrupção. Queríamos votar (Diretas-já) para presidente. Derrubamos o presidente (Fora Collor) corrupto no exercício de nossa cidadania dentro de um país democrático.

Nos anos finais do século 20 e iniciais do século 21 continuamos lutando contra o desemprego, a fome, a miséria, a violência e, pasmem! Contra a ditadura civil de um governo que retira brutalmente os direitos mais sagrados da população, como o direito de expressão, que usa a caneta para punir, a ameaça para calar e os instrumentos repressivos para ferir ou matar e ainda se diz democrático nas pessoas acima citadas.

O que aconteceu em Bauru dia 18/12 foi um exemplo vivo disto, onde o dirigente de Ensino de Bauru, professor Jair Sanches Vieira, organizou um Fórum para “debater” a tal da “escola dos nossos sonhos”, utilizando como instrumentos:

1) O local da realização do evento foi numa escola particular de Bauru que tem excelente infra-estrutura para acomodação, contrastando com a penúria das nossas pobres escolas públicas, que são abandonadas pelo governo;

2) A convocação para o Fórum teve caráter de convite (vai quem quer) para algumas escolas e para outras o convite foi um convocação (obrigação);

3) Palestrantes (que estão fora do chão da escola do ensino fundamental) que despejaram em nós, durante quatro horas, suas maneiras de ver o mundo (da fantasia?) na filosofia da “educação e afeto” do senhor secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita: traduzida em “auto-estima”, “o que é amar” e “as três dimensões do amor”, cujos conteúdos, na minha avaliação, muito evasivos, pois não acrescentaram nada de novo e de bom para os professores, alunos e melhoria da qualidade da educação. Além de termos de engolir algumas provocações, dentre as quais que o exercício do Magistério como professor não é uma profissão, é uma missão, e que o dinheiro não é importante porque não temos uma profissão, temos uma missão. Absurdo dos mais deslavados!!!

4) A proibição do exercício da cidadania dos participantes, manifestada na proibição do meu direito de usar a palavra no final do evento por discordar do conteúdo das palestras;

5) Foi autoritário para poder esconder sua incompetência, pois não demonstrou capacidade suficiente para administrar conflitos, nesse caso, conflitos de idéias num “Fórum de debates” que eu esperava ser democrático.

Às professoras e aos professores que lá estiveram eu pergunto: até quando havereis de suportar caladas e calados essa farsa?

Saibam que diante de tudo isto que está acontecendo, se a Escola Pública (vocês, meus colegas) não tiverem um compromisso político e coragem de subverter a ordem em razão dessa política que destrói direitos consagrados da população e se prestarem a reproduzir ou aceitar passivamente esse discurso neo-liberal que leva ao aprofundamento das desigualdades sociais; sem um "re-fazer", um "re-pensar", um "re-agir", e preferirem implementar tudo o que vem de cima, para não “terem trabalho”, não “terem encheção” e aprovarem automaticamente o aluno só para não terem que justificar ou dar explicação; saibam que vocês estarão prestando um desserviço para os próprios alunos e para toda a Nação brasileira, pois estarão, com isso, apostando no futuro andando para trás, como a política neo-liberal que em nome da modernidade, da estabilidade e do progresso trouxe o aumento da violência, do desemprego, da miséria e da exclusão da maioria do povo.

Então, é preciso ter coragem. Ser o agente transformador, o ator protagonista nesse cenário onde às vezes a caneta que assina as Leis é a mesma que escreve “justissa sossial”, porque a mão que a segura é de um figurante que não entende muito daquilo que assina ou esqueceu o que aprendeu e o que escreveu. Caso contrário...

Esta não é a escola dos nosso sonhos. Esta não é a escola que quereremos. (Professor Duilio Duka de Souza – duilioduka@uol. com.br)