10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Costa brasileira esconde tesouro da pesca em águas profundas

Por Roberta Mathias | com Agência Estado
| Tempo de leitura: 3 min

Foi assim com o peixe-sapo e agora é a vez dos caranguejos-de-profundidade. O Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina, concluiu em dezembro uma importante pesquisa sobre a pesca do caranguejo-de-profundidade na costa brasileira.

Agora, cientistas, governo e setor produtivo devem definir em conjunto as regras para a o gerenciamento da pescaria a longo prazo. A pesca dos caranguejos-de-profundidade foi acompanhada durante dois anos pelos pesquisadores do CTTMar, que contou com a parceria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o que permitiu avaliar até onde a captura pode ameaçar as espécies.

De acordo com o coordenador do projeto, pesquisador e professor doutor da Univali Paulo Ricardo Pezzuto, o Brasil é um dos poucos países que conseguiram obter informações tão amplas e detalhadas sobre esses caranguejos.

São duas espécies, o caranguejo real (Chaceon ramosae) e o caranguejo vermelho (Chaceon notialis), e ambas são importantes na pesca de profundidade. A pesquisa torna-se fundamental para o setor pesqueiro brasileiro, pois previne sobre os riscos da explotação (tirar proveitos econômicos de recursos naturais) indiscriminada.

Pezzuto alerta sobre a fragilidade das espécies como forma de sustentar a pesca. “São organismos cuja explotação deve ser efetuada da forma mais cuidadosa possível, pois qualquer excesso na captura pode acarretar um desequilíbrio nas populações e na própria pescaria, possivelmente por décadas”, afirma Pezzuto.

Para se ter uma idéia de como a pesca sem parâmetros pode ser prejudicial às populações de caranguejos-de-profundidade, o caranguejo real, por exemplo, vive até 25 anos, mas só atinge sua maturidade sexual para reproduzir-se entre 5 e 15 anos de idade.

O interesse pela pesca de espécies de profundidade, o que corresponde a números entre 200 e 900 metros, é o mercado internacional. Segundo Pezzuto, atualmente, todas as embarcações de pesca de profundidade são estrangeiras, pois não há barcos de pesca brasileiros adequados para a atividade. Diante disso, esses caranguejos ainda não podem ser saboreados nos restaurantes brasileiros, pois toda a produção é exportada para os Estados Unidos, Japão e Europa.

Pezzuto comenta que atualmente a pesca dos caranguejos-de-profundidade ocorre de forma exploratória, mas com os dados levantados pela pesquisa essa situação poderá ser revertida.

“Não há dúvida que a frota atual que está realizando a pesca exploratória é superdimensionada e deverá ser reduzida a curto prazo”, explica o professor Pezzuto. A redução da exploração é uma das recomendações do projeto, que sugere regras para o ordenamento das pescarias.

Para a obtenção de dados substanciais para a realização do projeto, pesquisadores do CTTMar estiveram presentes em cinco embarcações estrangeiras, além de monitoramento 24h via satélite. Durante os dois anos de estudo, mais de meio milhão de caranguejos foram amostrados, permitindo ao projeto acumular um expressivo volume de informações científicas.

Caranguejo vermelho

O caranguejo vermelho (Chaceon notialis) ocorre no extremo Sul, do litoral da cidade de Rio Grande (RS) até a fronteira e costa do Uruguai, a 100 milhas náuticas (180 quilômetros). Adulto, pesa de 600 a 700 gramas e tem largura de 11 a 13 centímetros de largura.

A pesquisa concluiu que o estoque (soma da biomassa da espécie) de caranguejo vermelho é de 17.100 toneladas, o que prevê uma captura anual de 1.030 toneladas.

Caranguejo real

O caranguejo real ocorre de Florianópolis (SC) a Torres (RS), a cerca de 100 milhas náuticas da costa, entre 500 e 900 metros de profundidade. A espécie chega a pesar de 1,6 quilo e ter 17 centímetros de largura.

De acordo com a pesquisa, o estoque do caranguejo real na costa brasileira é de 11.600 toneladas. Isso significa, de acordo com o CTTMar, que poderiam ser pescadas 600 toneladas ao ano para manter-se o equilíbrio da espécie.

Outras informações relativas às pesquisas sobre os caranguejos-de-profundidade e o peixe-sapo podem ser obtidas no site: www.gep.cttmar.univali.br