08 de julho de 2026
Auto Mercado

Um lugar de energia mística

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Foram seis dias caminhando praticamente sem parar e, ao final deles, 86 quilômetros percorridos e o sentimento de missão cumprida em um lugar especial e de uma energia única, onde a natureza está mais viva do que nunca.

Assim o aventureiro Antônio Machado define a Patagônia, que ele considera possuir características místicas e capazes de fazer os seres humanos descobrir e superar seus limites. â€œÉ uma viagem de auto-conhecimento em que você percebe que sua capacidade é muito maior do que imaginava”, enfatiza ele.

Por isso, acrescenta Machado, apesar do trekking na Patagônia exigir um brutal esforço físico e mental, também foi o responsável por instantes de curtição inigualáveis. “Participei de um evento certa vez em que, mesmo carregando apenas um terço do peso que levei agora, sofri e me estressei muito. Desta vez, apesar da pauleira, me diverti demais junto com o grupo, cuja harmonia também colaborou para isso”, atesta.

Machado conta que, em certos momentos do trekking, sentiu a nítida impressão de que a natureza “comunicava-se” com eles para demonstrar que era ela a dona do local. “Os ventos uivavam e pareciam querer tirar nossas barracas de onde estávamos”, assegura ele. â€œÉ um local onde é preciso pedir licença à natureza”, complementa Serrano.

Além disso, um dos momentos mais marcantes para o aventureiro foi atravessar a chamada floresta de lengas. Machado conta que, durante várias horas, apenas o trio andava pelo interior da formação, em um cenário que lembrava o filme “Senhor dos Anéis”. “Era um silêncio absoluto e, ao mesmo tempo, revelador”, relembra.

Já para Serrano e Waldete, a lembrança que ficará para sempre guardadas em suas memórias será a travessia do Paso John Garner, considerada uma das mais difíceis do mundo. “Enfrentamos pântanos, neve, penhascos e florestas. Além disso, corríamos o risco de ficarmos presos devido às mudanças do tempo e termos de nos refugiar em um dos locais mais remotos da Patagônia”, afirma.

Por essa razão, continua Serrano, ao chegar ao topo do Paso John Garner, a emoção foi indescritível. â€œÉ arrebatador”, resume ele.

Rumo ao Everest

Os aventureiros fazem questão de frisar que a Patagônia é um local onde os riscos de se encará-la podem ser definidos como “controlados”. “Os perigos existem e, como tais devem ser respeitados. Entretanto, não é uma região em que a pessoa estará se expondo a riscos absurdos e até a morrer”, sustenta Machado.

Mesmo assim, é preciso, mais do que nunca, saber onde pisar na Patagônia, conforme Serrano. “Quem quiser ir para lá deve procurar, o máximo possível, saber o que irá encontrar. Só para ter uma idéia da dificuldade, estudei o parque de Torres del Paine durante um ano e, ainda assim, não consegui ter uma idéia exata do que ia enfrentar”, alerta ele.

Por isso, com a Patagônia já conquistada, o próximo alvo dos aventureiros bauruenses pode ser definido como mais do que ambicioso: chegar ao campo-base da montanha mais alta do mundo, o pico Everest, com 8.848 metros de altura, no Nepal.

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Diário da expedição

Primeiro dia

“No refúgio Lãs Torres partiríamos para a primeira etapa. Iríamos para o vale Ascêcio até as bases das Torres del Paine. Levamos só água e o equipamento fotográfico. Seguimos a trilha toda marcada por estacas laranja, sinais que nos acompanhariam por todo o circuito.

Após atravessar montanhas, vales, florestas de lengas (árvores nativas) e uma subida inteira de pedras de todos tamanhos, com frio intenso e vento muito forte, chegamos ao topo e nos deslumbramos com a visão espetacular das torres. Descemos com dificuldades e retornamos pelo mesmo caminho.”

Segundo dia

“Teríamos que caminhar até o refúgio Seron, em um trajeto de pelo menos seis horas. Nas primeiras horas, as mochilas pesaram muito e precisávamos acostumar os músculos àquele peso extra. No meu caso, por causa do equipamento fotográfico, carregava 21 quilos. O visual era de tirar o fôlego, com montanhas nevadas, riachos com águas límpidas que desciam das geleiras, imensas florestas e flores. Ao final do dia chegamos ao Seron. Com o sol ainda alto, deu pra montar a barraca, tomar banho, cozinhar e aproveitar o visual até anoitecer.”

Terceiro dia

“Arrumamos tudo depressa e começamos a caminhar, seriam sete horas com mochila nas costas. Os músculos reclamavam, mas não tinha jeito. Chegamos ao topo e o impacto foi enorme. Além do vento, lá embaixo o lago Paine, majestoso na sua cor verde esmeralda.

Seguimos o caminho pela encosta contornando todo o lago. Ao final do dia, chegamos ao topo de uma montanha e de lá avistamos o refúgio Dickson. O acampamento ficava ao lado do glaciar. À noite, no refúgio, assistimos uma projeção de slides sobre o parque, que tão logo acabou fomos dormir, pois estávamos cansados e fazia um frio intenso, pois nos aproximávamos da área mais fria do parque.”

Quarto dia

“Nosso próximo destino seria o refúgio Los Perros. Caminhamos o tempo todo dentro de um bosque de lengas. Fizemos o percurso com tranqüilidade e iniciamos a subida de uma montanha. Ao chegarmos no topo, nos deparamos com o glaciar Los Perros.

Pouco mais de uma hora depois chegamos ao acampamento. Montamos a barraca e me preparei psicologicamente para tomar banho. Fui até a área reservada e quase desanimei. Era a céu aberto e só tinha uma cortina de plástico para não te verem pelado.

Quando a água saiu do cano estava em ponto de congelamento. Acho que foi o banho mais rápido que tomei. Sequei o corpo rapidamente, me agasalhei e fui direto para a barraca. Comemos e fomos dormir, na noite mais fria que enfrentamos.”

Quinto dia

“Esse seria o dia mais difícil de todo o circuito. Teríamos de tentar chegar ao refúgio Grey, em uma caminhada que poderia levar de nove a 14 horas. Era o ponto mais complicado, pois tínhamos que atravessar o Paso John Garner, uma montanha coberta de neve para em seguida descer em direção ao Glaciar Grey.

Dante, o responsável pelo refúgio, nos autorizou a subir, mas aconselhou a retornarmos diante de qualquer problema, pois era perigoso ficar por lá em caso de nevasca.

Apreensivos, iniciamos a subida. Tivemos de atravessar um pântano com árvores baixas, que dificultavam os movimentos. Saindo do pântano fomos ganhando terreno. Quando iniciamos o trecho de neve, caminhávamos com ela até quase o joelho.

Finalmente chegamos ao topo, a 1.241 metros de altura, e quando vimos o outro lado, a visão foi arrebatadora, a mais espetacular até aqui! Lá embaixo, no meio de um vale rodeado de montanhas cobertas de neve, o glaciar Grey se espalhava por mais de 17 quilômetros.

Vimos uma formação de nuvens baixas, que prenunciava uma nevasca. Precisávamos descer o mais rápido possível. Íamos nos sustentando como podíamos. Alcançamos a floresta, mas nem por isso a dificuldade diminuiu. A neve tinha acabado, mas o trecho era muito íngrime e as raízes dificultavam o percurso. Fomos caminhando sem pensar em cansaço, tínhamos que alcançar o refúgio naquele dia, de qualquer maneira.

Quando acabou a floresta iniciou um trecho não menos difícil. Tivemos de passar por uma trilha estreita, à beira de um penhasco perigosamente inclinado. Aos poucos fomos vencendo o caminho e, no final de 11 horas de caminhada, avistamos o Refúgio Grey. Finalmente respiramos aliviados.”

Sexto dia

“Em clima de comemoração, partimos com o sol alto para nossa última etapa, o refúgio Pehoe. Caminhávamos bem mais tranqüilos, pois já tínhamos passado o pior trecho e agora era só curtir. A mochila já não pesava tanto, os músculos, de tanto gritar, se conformaram e não tínhamos mais tantas dores.

Após passarmos a Laguna Roca, no terço final do caminho, chegamos a um lugar batizado de “Quebrada de Los Vientos”. O lugar faz jus ao nome, o tempo fechou e o vento uivou como nunca e começou a chover forte. O que seria uma caminhada tranqüila, se tornou um pesadelo, pois levamos cinco horas para chegar ao refúgio. Mas fomos dormir felizes, com a missão cumprida. (Os relatos são do aventureiro Silvio Serrano, que também foi o fotógrafo do trekking)