08 de julho de 2026
Bairros

Moradores lutam contra preconceito

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Preconceito. Entre os problemas de se viver no Núcleo Fortunato Rocha Lima, os moradores destacam esse item como um dos que mais atrapalham na completa integração com a sociedade.

De acordo com eles, a falta de emprego para os habitantes do local se deve, muitas vezes, a esse tipo de sentimento, que isola e os exclui do restante da cidade. “A gente não pode falar que mora aqui no bairro que as pessoas fecham as portas na nossa cara”, reclama a revendedora Rosa da Silva.

Ela conta que a sua nora tentou uma vaga como empregada doméstica e não foi aceita por causa do seu endereço residencial. “Saiu um anúncio no jornal e ela ligou para se candidatar à vaga. A conversa estava indo bem até que ela informou à futura patroa que morava no Fortunato. Na hora, a mulher mudou de idéia e disse que já tinha preenchido a vaga”, lamenta.

Ela diz que, apesar de o núcleo ter todas as características de um bairro qualquer da cidade, muita gente ainda o aponta como o “Desfavelamento”. “A gente não pode negar a origem, mas todo o mundo é cidadão, todos precisam de emprego para sustentar a família e sobreviver”, reclama.

Ela mora no Fortunato há mais de sete anos e é uma das poucas remanescentes do projeto original. “Eu vivia na favela São Manoel”, conta.

Na época, Rosa se cadastrou e trabalhou no mutirão para erguer a casa. Hoje ela acredita que a sua vida melhorou 50% em relação ao que era antigamente. “Eu morava na beira do rio e, a cada chuva, a minha casa desmontava”, lembra. De acordo com ela, de cinco cômodos, a sua residência só ficou com um no final. “Sempre que chovia, caía uma parte da casa”, diz.

No núcleo, ela conseguiu uma residência de um quarto, sala, cozinha conjugada e banheiro. Com o tempo, a revendedora foi ampliando a residência e fazendo reformas, deixando-a com a sua cara. “Nós sempre mexemos na casa para ficar mais bonita e confortável. Só paramos nos últimos tempos por falta de dinheiro, já que meu marido ficou desempregado”, salienta.

Rosa é vizinha de sua mãe, Luiza Jamarini da Silva, que também conseguiu uma casa na época do mutirão. Ela é proveniente da favela São Manoel e conta que hoje vive bem melhor do que antigamente. “O bairro é bom, faltam muitas coisas, mas é melhor do que na favela”, salienta.

Ela também ampliou a planta original da casa, fazendo mais um quarto e uma cozinha. Além disso, colocou piso frio e revestimento no banheiro. Até telefone a dona de casa possui, algo impossível de se pensar na época da favela. “A vida melhorou”, destaca.

Para o marido de Luíza, Arnaldo de Jesus Souza, o Projeto de Desfavelamento era ótimo na teoria, mas não foi concretizado como deveria. “Faltou fazer muita coisa para deixar o bairro bom para se viver”, salienta.

Ele, que já foi presidente da associação de moradores do núcleo, diz que seria bom não só para os moradores, como para toda a cidade, que o projeto tivesse dado certo.

Para Souza, a falta de documentação das casas é um dos problemas mais preocupantes atualmente. No entanto, ele ressalta que há outras obras sociais ausentes no bairro, o que dificulta a vida dos moradores. “A gente precisa de escola, posto de saúde e área de lazer”, destaca.

Rosa da Silva salienta que, para conseguir marcar uma consulta da Unidade Básica de Saúde, é preciso levantar de madrugada. “A gente tem que ir até o (Parque) Santa Edwirges”, explica.

Ela diz ainda que não há escola de 6.ª até 8.ª série, muito menos ensino médio. “As crianças têm que ir até o Parque Jaraguá ou o Santa Edwirges para estudar e, à noite, fica tudo mais difícil”, destaca.