08 de julho de 2026
Articulistas

A moça de vermelho


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Há pessoas que vêem o que não existe. Algumas, inclusive, se consideram videntes e chegam a explorar esse dom profissionalmente. Outras vivem assustadas e morrem de medo de fantasmas. Esse fenômeno já inspirou muitos romances e filmes de terror. Aos olhos da ciência, no entanto, as coisas são diferentes. A sensação mais conhecida é o déjà-vu. A pessoa tem a impressão de já ter estado naquele lugar antes, ou de ter vivido sensação semelhante no passado. Esse sintoma já foi estudado na medicina e ocorre, freqüentemente, com pessoas disrítmicas. O cérebro dá um curto-circuito e mistura a memória presente com a passada; ele não consegue naquele momento, distinguir a variação do tempo.

Um amigo meu disse ter tido a sensação de que o buraco em que caiu com seu Golf na avenida Getúlio Vargas, bem em frente ao Posto da Shell, era o mesmo que danificara o seu pneu no ano passado. Aconselhei-o a procurar um neurologista para um eletroencefalograma, face ao perigo de ser diagnosticada disritimia em estágio preocupante. A Prefeitura de Bauru gastou R$ 8 milhões para tapar os buracos da cidade e, portanto, jamais poderia ser o mesmo. É o déjà-vu.

Outro fato importante é a intensidade com que imaginamos algo que almejamos muito. Desejamos tanto que aquilo aconteça, que no futuro poderemos até jurar que de fato aquilo ocorreu. É uma forma de compensação afetiva. Deve ser a explicação para o fato de eu ter sonhado que a CEI da Câmara havia concluído pela inocência de todos os injustamente citados. Cheguei a “ver” nesse êxtase o Toninho Garmes envolto em brumas, fazendo um discurso parabenizando o presidente da Câmara pelo brilhante final da sua gestão. Em Dom Quixote de la Mancha (Ediouro), Cervantes (1547-1616) diz que “o sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados”.

O mesmo pode acontecer com imagens que nos impressionaram, mas ficaram guardadas no inconsciente. Certa vez, descia do carro na garagem de casa, quando vi uma moça vestida toda de vermelho, écharpe esvoaçante, pele branca e uma trança ruiva caída sobre um ombro. A imagem era tão nítida, que voltei a cabeça para olhá-la. Ela havia desaparecido. A partir daí, comecei a estudar esses fenômenos. Como gosto de filmes de época e teatro será que essa moça, tão plácida, não ficou escondida em algum lugar na minha memória e surgiu quando estava muito estressado? (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)