09 de julho de 2026
Articulistas

OMC: generosa com os ricos, avara com os pobres


| Tempo de leitura: 2 min

Para barrar os poderosos que aterrorizam os fracos e os forçam a abrir seus mercados às grandes corporações e aos países ricos, será preciso reformar a Organização Mundial do Comércio. É necessário, com urgência, incorporar Justiça e imparcialidade às normas comerciais internacionais, proteger a sobrevivência dos camponeses do Terceiro Mundo e defender o direito à alimentação dos pobres. Para isso, é preciso reduzir os custos de produção e impedir a competição desleal por parte de importações artificialmente baratas graças aos subsídios. Esta são questões que deveriam encabeçar a lista de prioridades para a próxima reunião ministerial da OMC em Cancún, no México, entre 10 e 14 de setembro deste ano.

O governo de George Bush aprovou recentemente uma lei agrária que aumenta os subsídios agrícolas norte-americanos em 10%, ou seja, cerca de US$ 20 bilhões anuais. Por outro lado, na Europa os atuais subsídios serão mantidos até 2013. Entretanto, países pobres como a Índia são forçados a eliminar restrições às importações e vêem a derrubada de seus mercados internos e dos preços à medida em que produtos importados, artificialmente baratos e fortemente subsidiados, inundam seu mercado. Como resultado de um comércio desleal legalizado pela OMC, as importações agrícolas da Índia se quadruplicaram, já que passaram de US$ 1,04 bilhão, em 1995, para US$ 4,016 bilhões em 2000.

Enquanto o comércio global que beneficia as grandes empresas agro-comerciais do Norte cresce, os camponeses do Terceiro Mundo estão perdendo seus meios de sustento. Por exemplo, o comércio de café aumentou de US$ 40 bilhões para US$ 70 bilhões nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a renda dos cafeicultores caiu de US$ 9 bilhões para US$ 5 bilhões.

Os dois pesos e duas medidas aplicados pela OMC e as distorções que provoca são facilmente visíveis. É por isso que, inclusive, a débil base de negociações em sua sede central de Genebra está sendo substituída por “minirreuniões ministeriais”, como a realizada em novembro na cidade de Sydney e a prevista para o próximo mês em Tóquio. Estas reuniões reservadas resultam perfeitas para exercer fortes pressões e ameaçar, enquanto os resultados que produzem são um atropelo contra a transparência e a democracia. No momento em que nos aproximamos de Cancún, as questões da democracia, dos alimentos, da fome e da sobrevivência dos camponeses pobres deveriam estar em lugar preferencial na agenda.

A recente decisão dos Estados Unidos sobre o acordo têxtil mostra claramente que este país não cederá diante da OMC quando esta for contra os “lobbies” domésticos. Esta é uma atitude reforçada pelo novo papel militar dos Estados Unidos desde 11 de setembro. (Vandana Shiva, escritora e promotora de campanhas internacionais em favor das mulheres e do meio ambiente. Em 1993 recebeu o Right Livelihood Award, prêmio alternativo ao Nobel)