Percebe-se em toda a dinâmica fisionomia nacional que o nosso homem mudou na maioria das coisas. De salto em salto ele acabou chegando a alturas às quais não estava ambientado, promovendo-se, inclusive para a categoria de “civilizadoâ€, pela qual abriu rápido a mão do tacape para fechar a da espada. Foi mais longe ou mais alto ainda, pulando abertamento para as mortíferas bombas atômicas e hidrogênicas, assim como para os sofisticados teleguiados, com os quais se tornou dominante absoluto da natureza, dono impiedoso do fabuloso cosmo que a outro pertencia. Finalmente, atingiu a toda uma enorme série de dimensões, mas parou o veículo na estrada da infelicidade quando, um dia, percebeu ter desaprendido de amar. Já não idolatra ele o seu querido próximo como o fazia em outras eras, abandonando-o à mercê da solidão, que o faz viver em permanente tristeza, em desmedidas exigências alimentares, em sérios problemas de saúde, em totais dificuldades de moradia, em terríveis carências profissionais, em total insegurança pessoal e em delicado relacionamento com sua família. Anda absorto nas cidades, pensando, naturalmente: “Ruas também são caminhos/ com lisas faixas de asfalto/ por fora não têm espinhos/ mas têm violência de assalto!†E se está, então, na hora de perguntar: Como será ele, o nosso homem, neste novo e interrogativo milênio? Continuará desaprendendo as lições que lhe foram passadas, sem tempo bastante para redescobrir a realidade humana e, por isso, prosseguirá se auto-destruindo por não se despertar para a obrigação que tem de se converter e voltar para os bons tempos? Prosseguirá, consequentemente, na sua inglória transformação em animal que perdeu totalmente a capacidade de ter afeto e se apiedar dos males de seus próximos? Eis uma tarefa que incumbe a esta nova folhinha, numerada como 2003, que todos os dias se desfolhará tendo no coração a esperança de dias melhores, nos quais as amarguras geradas pelo homem moderno possam vir a naufragar em águas oceânicas e não retornem ao nosso aprisco, como conclama o nobilíssimo Papa que, reativando inspiradamente sua vocação poética da distante juventude, está escrevendo agora poema de 14 páginas em que condiciona as sociedades ao culto da natureza e do amor, que não podem morrer e ser esquecidos por ninguém, exigindo serem alimentados indefinidamente como fator de amizade que une os seres com a solidez dos laços indestrutíveis e, por isso, obstrui suas eventuais tendências para a violência e o desamor individual ou coletivo. Impossível aquinhoar-se a um exército de pigmeus a força cujo exercício se pode minimizar a contento. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)