08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Aventura no Batalha

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

Há oito anos, sempre no mês de janeiro, pescadores e amantes da natureza descem o rio Batalha para saudar as suas águas e lutar por sua preservação. Neste ano, a descida foi um pouco mais preocupante que alguns anos anteriores: mesmo com as fortes chuvas, o rio não atingiu seu limite.

O trajeto foi iniciado em Avaí com destino a Uru, onde há o encontro com o rio Tietê, finalizado em festa na Rachonete Sucuri. Foram 15 barcos, com três tripulantes cada, que saíram de Avaí no sábado passado, acamparam na prainha de Reginópolis e seguiram o passeio durante o domingo. Nesse percurso, alegrias e tristezas.

Encontrar um filhote de capivara nadando no rio Batalha, mesmo com o alvoroço causado pelas embarcações, é realmente motivo de alegria. Porém, momentos depois, encontramos barrigadas de capivara no rio. Sinal de caçadores, daqueles que fazem ceva para caçar um animal indefeso.

Mesmo com as ações da Polícia Ambiental, que acompanhou parte do percurso, é difícil impedir atitudes como essas. Além das capivaras, os peixes que ainda sobrevivem nas águas do rio Batalha correm o risco de desaparecer por causa das redes de pesca. Independente do período de piracema, há predadores que covardemente armam suas redes de forma a atravessar o rio de margem a margem.

Lambaris, bagres, piaus e outras espécies como o pacu sofrem com as ações do homem. Além da pesca, o esgoto e o assoreamento visíveis no rio são agravantes de uma situação difícil de se resolver.

Durante a descida, foi possível constatar a beleza do rio, com áreas onde a mata ciliar está bastante preservada. Macacos, ariranhas, capivaras, tucanos, papagaios, borboletas, pernilongos e uma infinidade de espécies nativas disputam cada margem do rio. As bromélias e orquídeas fazem a sua parte, transformando a vida e a paisagem da região.

Porém, há trechos em que a mata ciliar foi destruída para dar lugar às pastagens. O gado tem prioridade e acesso à margem do rio para beber água. Por onde passam, a mata não consegue se recuperar. Esgostos despejados diretamente no rio também são fáceis de encontrar.

A cidade de Bauru depende do Batalha para abastecer 43% da população (esse índice já chegou a 50%), o que também reflete na saúde do rio.

Porém, com um forte desejo de que o rio se recupere, um grupo de pescadores e amantes da natureza de Avaí decidiu criar uma organização não-governamental para “batalhar” pelo rio Batalha. A Associação dos Pescadores de Avaí (APA) é presidida por Sérgio Coelho e pretende cuidar do rio nos 60 quilômetros em que ele passa pelo município.

Eles acreditam que cada cidade deveria dar a sua contribuição e lutar para que o rio Batalha se recupere e volte a ter vida como no passado. Coelho explica que a APA dividiu a região em quatro trechos que serão vasculhados a cada quatro semanas. “Nós iremos fazer a limpeza, retirando garrafas plásticas, sacolas e todo o lixo encontrado, pretendemos conscientizar os pescadores e também reflorestar as áreas devastadas”, explica o presidente.

Ele informa que as ações já foram iniciadas. “Na semana passada, fizemos uma descida só para retirar lixo do rio. Voltamos carregados de lixo. Tem gente que até joga entulho no rio, o que é um absurdo. Outra ação importante realizada pela Associação é a preparação de mudas. Pegamos sementes de várias espécies e estamos preparando as mudas para o plantio.”

Coelho alerta porém que o plantio deve ser realizado em acordo com o proprietário das terras, incentivando a colocação de cercas para o gado. “Caso contrário, os animais irão comer as mudas”, comenta. Há uma intenção da Prefeitura de Avaí em colaborar com as ações da ONG no futuro.

Segundo o prefeito de Avaí, Reinaldo Rocha, assim que o recesso da Câmara Municipal terminar será enviado um projeto de lei para apoiar a iniciativa da APA. “Creio que poderemos colaborar com uma ajuda de custo para combustível, manutenção de uma embarcação e colocar a nossa bióloga no projeto de reflorestamento”, comunica o prefeito.

Apaixonado pelo Batalha, Eurico de Oliveira também não perde as descidas do rio. Mesmo morando em Bauru, ele sempre programa alguns passeios pelo rio e colabora com a APA. Oliveira já escreveu vários “causos” sobre o Batalha e escolhe paisagens para reproduzir em quadros.

Rodrigo Mônico, 31 anos, é pescador e secretário da APA. Ele mora em um sítio às margens do rio Batalha e fica indignado com a falta de consideração das pessoas que freqüentam o rio. “Os pescadores vêm, pescam, levam os peixes e deixam o seu lixo, seus sacos plásticos. Outros armam redes. A gente fica cansado de tirar sujeira do rio”, comenta Mônico.

Porém, a idéia e ações da Associação animam os pescadores. “Temos voluntários de Avaí, Pirajuí, aqui não tem essa de cargo, todos trabalham bastante”, fala Coelho. Eles já somam 17 membros e novos associados estão se cadastrando. “Pretendemos fazer um trabalho sério e intenso pelo rio Batalha”, acrescenta.

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Rio ainda está para peixe

Altair Azevedo, 71 anos, ex-ferroviário e aposentado da Polícia Civil, esse pescador também é um apaixonado pelas águas do rio Batalha. Todas as semanas, ele pratica um curioso ritual, no qual exercita sua paciência e habilidade na pescaria.

Aos domingos, Azevedo sai de Bauru para pescar no rio Batalha sobre a ponte que liga Avaí ao distrito de Nogueira ou em Clavinote. Ele costuma arremessar diretamente da ponte e com sensibilidade captura vários lambaris. Aliás, essa é sua espécie preferida, para a qual usa um equipamento bastante leve.

Em poucos minutos, foi possível assistir o pescador fisgar quatro deles, que freneticamente balançavam o rabinho vermelho. Azevedo dá a dica: “Você joga quirela, bem pertinho dos galhos, porque o lambari se esconde de outros predadores, aí é só arremessar. Ele ataca mesmo!”

Na verdade, o segredo do mestre pescador é a isca. Aqueles que pensam que é o famoso macarrãozinho se enganaram, mas é quase. “Eu uso sagu. É só ferver por 12 minutos e depois passar no fubá. Se deixar de molho antes, aí serão só cinco minutos de fervura. Ele fica “emborrachadinho” e não sai do anzol. Além de ser muito mais barato e render mais”, dá a dica o pescador Azevedo.

Altair Azevedo é um antigo apaixonado pelo Batalha. Ele também é artista plástico e não se cansa de reproduzir suas paisagens. “Fiz curso com Baccan. Também gosto de pintar flores. O girassol é a flor da sorte, irradia alegria”, conta o pescador.

Na sua experiência, Azevedo também lamenta o descaso com o rio e dá sugestões para o grupo plantar amoreiras e outras espécies que tenham um rápido crescimento. “Não gosto de ver as margens devastadas”, finaliza.