Jaú - O temor do governo de que falte álcool no mercado forçou a antecipação do início da safra de cana-de-açúcar deste ano para o mês de abril. A informação é do presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Francisco Paulo Brandão, 70 anos.
De acordo com ele, essa decisão causará prejuízo aos usineiros. Mas é uma forma de garantir o abastecimento e cumprir o compromisso assumido recentemente com o governo e com os consumidores, de não deixar faltar álcool anidro (para mistura) e hidratado (combustível) no mercado interno.
“Se há um compromisso assumido, é preciso respeitá-loâ€, disse Brandão.
Normalmente, a safra da cana começa em maio e termina em novembro. Com a antecipação, será preciso colher mais cana para se extrair a mesma quantidade de álcool de épocas normais. Isso porque a cana ainda não estará no seu tamanho ideal para o corte.
Para o presidente da Associcana, a possível redução de 25% para 20% da quantidade de álcool misturada à gasolina (anunciada semana passada pelo governo) é uma medida paliativa e emergencial.
A saída, na opinião dele, é ampliar a área plantada e, com isso, aumentar a produção de álcool.
“Se a quantidade não é suficiente, então vamos plantar mais. Área tem sobrandoâ€, diagnosticou Brandão.
Na região, segundo ele, houve um aumento de 2 mil alqueires de área plantada, no ano passado, principalmente em Boracéia, Bariri e Iacanga.
Ao comentar o risco de desabastecimento, Brandão lembrou que está em andamento negociações com o Japão para a venda de álcool combustível para aquele país.
Se o problema persistir, ele vê grandes dificuldades para o setor. “Compromisso com exportação é coisa séria. Não tem como assumir um compromisso e depois dizer que não pode entregar o produto na quantia que foi acertadaâ€, disse.
Se isso acontecer, Brandão acredita que o Brasil não conseguirá vender “nem mais um litro de álcool no exteriorâ€.
Para o presidente da Associcana, a falta de álcool no mercado interno se deve a dois fatores.
O primeiro tem a ver com a queda de 20% na produção de cana, provocada pela falta de chuva no ano passado. “Infelizmente, a grande safra que nós esperávamos não se confirmouâ€, lamentou ele.
O segundo fator, segundo Brandão, teve a ver com a preferência dos usineiros em produzir mais açúcar e menos álcool. Com o preço do açúcar em alta no mercado exterior, o produto passou a ser mais lucrativo do que o álcool; o que levou os produtores a investir mais na produção do açúcar.
A atitude foi condenada por Brandão. Segundo ele, o setor sucroalcooleiro fez tanto esforço para a volta do carro a álcool, que agora não pode deixar o consumidor sem combustível.
“(Garantir o abastecimento) foi um compromisso assumido com os compradores do carro a álcool. Eles confiaram no setor, e agora essa confiança não pode sofrer abalo de nenhuma espécieâ€, salientou.
A decisão de reduzir a quantidade de álcool misturada à gasolina foi anunciada na quarta-feira passada pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Pela regulamentação atual, o percentual de álcool misturado à gasolina pode variar de 20% a 25%, com um ponto percentual de margem de erro.
A decisão foi tomada porque o governo teme que falte álcool no mercado interno.
Pelos cálculos do ministro, a partir de abril poderá faltar cerca de 400 milhões de litros de álcool. Com a redução do percentual de álcool anidro na gasolina, o combustível poderá ser usado na forma de álcool hidratado, que é usado diretamente nos veículos.
Com a antecipação da safra, o ministério acredita que seria possível produzir 600 milhões de litros de álcool até o fim de abril.