Estranhamente, não obstante produzir o Brasil cerca de 80 por cento do combustível petrolífero que consome, o produto importado do Exterior vem saindo para o País como o mais caro do mundo. Está na ordem de 22 por cento acima da cotação internacional e tende a aumentar ainda mais com rapidez meteorítica. Já não o faria somente por causa das elevações do ganancioso dólar, que não caem nem estacionam e, sim, vivem disparando no sentido das alturas estratosféricas. Têm, agora, outras motivações: a ameaça de guerra de Iraque e Estados Unidos e de greve geral na Venezuela. Teria o brasileiro culpa dessas divergências políticas e econômicas de outros povos? Então, eles se desentendem, entram em corpo-a-corpo e a gente, tradicionalmente tão pacífica, sem ímpetos guerreiros, é escolhida para pagar mais caro suas importações? Não está correto, mas, se é preciso ser assim, que o seja então. O inexplicável é que da forma como o problema cresce a gasolina e o diesel já estão com seu custo rivalizando com o da alimentação humana. Faça-se um cotejo de quanto nosso querido patrício despende com alimentos e chegar-se-á a uma soma equivalente à que os motoristas investem para dar algumas poucas voltinhas nas ruas da cidade. Tem-se, logicamente, de classificar o resultado como absurdo, já que não se pode admitir que os veículos paguem por suas líquidas “refeições†o mesmo que as pessoas o fazem com seu arroz, o seu feijão e a sua carninha escondida sob crostas de gorduras. Como o brasileiro poderá salvar-se igualado assim economicamente aos motores de automóveis, caminhões, auto-ônibus e barulhentas motos? É algo inconcebível a enorme incoerência, exatamente no instante em que o novo Governo da República se revela ostensivamente disposto a instituir no País a cognominada “Fome Zero†e desejando corporificá-la promovendo maior consumo de alimentos entre todos os milhões de famintos, para o que cogita reduzir o preço dos grãos e correlatos existentes no mercado, medida que não lhe será fácil por estar dito valor esbarrando nas influentes escarpas das gigantescas montanhas de dólares, libras esterlinas, iens e demais moedas externas que regem o que a nossa lavoura e indústria produzem com o calor e a energia dos nossos pobres homens, milhões dos quais sem-terra, uns e outros acrescidos da população sufocada pelo petróleo que não é o nosso, ou seja, aquele pelo qual, sob a revolucionária inspiração de Monteiro Lobato, o homérico Getúlio Vargas pôs em risco a própria vida, começando a extraí-lo das profundezas do nosso oceano e a refiná-lo valentemente ainda que sob contundentes ameaças dos concorrentes estrangeiros, premidos pela suposição de esvaziamento de suas arrecadações em futuro facilmente imaginável. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)