08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

O arroz de carreteiro


| Tempo de leitura: 5 min

“Quando eu me aposentei há alguns anos, andei meio perdido no tempo, ainda sem costume com a nova situação, indo da cama para a rede, da rede para o sofá, do sofá para a geladeira e não houve colesterol que resistisse. Daí comecei a caminhar dia e noite pelas ruas e avenidas de Bauru até que alguém me perguntou quantos metros tinha a Nações Unidas.

Mas eu fui salvo pelo meu amigo e mais tarde sócio de rancho, o dentista pescador Diocélio P. Domingues que me convidou para uma pescaria em Borborema. Ele estava aposentado há mais tempo e já se encontrava devidamente adaptado com a nova vida.

Programamos pescar apenas por um dia no rio Tietê e até que tivemos sorte naquela ocasião, pois ancoramos nosso barco na curva do pedregulho e conseguimos fisgar boa quantidade de peixes no mesmo lugar, sem necessidade de ficar mudando à procura de cardumes, como é comum. No final do dia contabilizamos grande número de várias espécies, principalmente apaiaris e pacus-prata, estes também conhecidos por CD, tal a sua semelhança.

Naquela noite, o time do Diocélio, o Palmeiras, jogaria importante partida internacional e ele convidou todos quantos encontrou para um churrasco regado a muita cerveja, vinho, peixe e ainda comemorar a certa vitória do seu time.

Mas o Palmeiras perdeu e a carne, a bebida, os peixes e tudo mais se acabaram e para não voltarmos para casa sem nada, resolvemos voltar ao mesmo lugar no dia seguinte para uma nova pescaria.

A barra do sol ainda não clareava o dia e já estávamos de volta ao pedregulho, mas tivemos uma decepção, pois naquele mesmo lugar, no mesmo pau, na mesma posição do nosso dia anterior, tinha um barco com duas senhoras de origem japonesa pescando tranqüilamente e já tinham alguns peixes no puçá.

Ficamos desconsertados pois ali era o canal dos peixes, razão da nossa madrugada, mas procuramos nos mostrar amistosos.

- Bom dia, cumprimentamos.

- Bom dia, responderam alegremente e com a costumeira e simpática inclinação nipônica.

- Esse lugar aí é bom, não é mesmo?, indagamos.

- É sim, nós já sabíamos disso, mas ontem chegamos aqui depois de vocês, por isso hoje chegamos mais cedo.

Ficamos sem graça mas apoitamos nosso barco meio de lado, por ali mesmo, mas praticamente só assistíamos as duas fisgarem um peixe atrás do outro, igualzinho ao nosso dia anterior, mas com o detalhe que devolviam ao rio os apaiaris, por serem muito feios e os CD’s, para que se tornassem pacus de verdade.

Eu e o meu companheiro só pescávamos lambaris, mas quando vinha um apaiari ou CD, olhávamos de lado e notávamos que as duas estavam nos observando, então constrangidos e com a maior dor de coração soltávamos também os nossos. E toma gozação:

- Brasirero vem de Bauru aqui só para pescar arambari, brincou uma delas.

Era verdade e à medida que o tempo passava, torcíamos cada vez mais para que elas não resistissem ao mormaço ou saíssem para almoçar. Não adiantou pois elas se protegeram com panos à moda da casa e para almoçar nem saíram do barco.

- Elas têm que sair para fazer xixi, lembrou meu amigo.

- Então cerveja nelas, Diocélio.

- Aceitam cervejas?, oferecemos.

- Aqui ninguém bebe, responderam.

- Desculpem, é que todo pescador bebe, tentamos consertar.

- Eu disse que aqui ninguém bebe, só ará im casa, respondeu rindo de nós.

Com mais essa na cabeça e com poucos peixes, meu companheiro simulou a perda de um grande peixe e ainda reclamou bastante pois seria uma grande piapara, mas nova cacetada não demorou.

- Peguei aquela piapara que escapou de você dotoro Diocério, disse uma delas.

- Mas como a senhora sabe que é a mesma?, perguntamos.

- Era está fedendo cerveja e tem um dente arrancado, respondeu zombando outra vez.

Assim já era demais e elas tinham de sair dali bem logo. O Tietê começava a ficar pequeno demais, então eu resolvi atacá-las:

- Seu motor de popa parece ser dos bons.

- Parece não, é bom mesmo e dá de dez a zero no seu, respondeu sem dó.

- É que eu pretendo comprar um igualzinho, então a senhora não faria o favor de dar umas voltas por aí para eu poder observar e depois decidir?, teimei de novo.

- Aqui ó, respondeu me dando uma banana com os dois braços. Vocês dois querem é pescar aqui neste lugar.

Depois dessa, ligamos nós o nosso motor e saímos à procura de uma outra praia chegando mais tarde ao rancho de um amigo profissional, que nos fez proposta de peixes de graça em troca de fazermos o jantar para eles.

A proposta cheirava “probosta”, mas como não tínhamos mais tempo nem outra saída, topamos a parada.

Lá pelas tantas horas da noite o amigo retornou com as suas redes repletas de peixes e nos deu um montão de traíras, mandiúvas, cascudos e outros ainda menos nobres e veio para dentro dar uma olhada no jantar, pois estava com muito apetite.

O Diocélio então lhe apresentou sua especialidade, um arroz carreteiro no capricho com “sazom” e tudo mas que não saía da panela de jeito nenhum. Virou a panela de boca para baixo e nada. Balançou, e nada. Depois deu uma batida no canto da mesa e, agora sim, caiu tudo no chão e foi rolando feito bola, rodando feito roda, feito pneu e de forma que ninguém conseguiu alcançar e foi parar tudo dentro do rio Tietê.

Decepcionado, cansado e com fome, o dono do rancho ainda nos fez ouvir a última do dia:

- Isso não é arroz de carreteiro. É pneu de carreta de carreteiro e deve ser pneu dos bons. Deve ser da marca “Good Year” pois estamos no mês de janeiro de 1998.

Então, como estamos agora no mês de janeiro de 2003, “good year” para todos os leitores desta coluna.” (Eurico de Oliveira - Aposentado, pescador e contador de histórias)