08 de julho de 2026
Geral

"A escola é para ensinar a pensar"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

A interdisciplinaridade e o conceito de progressão continuada são apenas duas ações que formam a reformulação do papel da escola no mundo moderno. O diretor regional de Ensino de Bauru, Jair Sanches Vieira, defende que o papel da escola não é o de ensinar fórmulas estanques e feitas, mas sim o de fazer o aluno pensar.

Mas a tentativa de romper com o passado de “decoreba” dentro da sala de aula rumo à humanização causa uma espécie de revolução educacional dentro e fora das salas de aula. Para os representantes de classe, a progressão continuada veio a serviço de um projeto neoliberal que aprofunda as mazelas do ensino.

Para discutir essas e outras questões, o professor Jair Sanches Vieira recebeu a reportagem do JC. Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - Qual é a estrutura da Diretoria Regional de Ensino? Jair Sanches Vieira - O funcionamento da Diretoria Regional de Ensino pertence a uma estruturada Secretaria Estadual de Educação, que conta com a Coordenadoria do Interior, que atende a 61 divisões, como a de Bauru. Nós atendemos Bauru e mais 13 cidades. Nós temos aqui uma estrutura montada de planejamento pedagógico e trabalhamos pela integração entre as ações do Estado e do Município para que a criança tenha uma boa escola e sempre o mais perto possível de sua casa. O planejamento é discutido com a Secretaria da Educação, que repassa as diretrizes do Governo do Estado.

JC - Como se definem as reformas e construções de escolas? Jair - As reformas ou construções são priorizadas pela regional. Se há uma reforma de até R$ 180 mil o repasse é feito para que a Associação de Pais e Mestres faça a licitação e acompanhe a obra. Se ultrapassa esse valor é feito sempre pela Fundação de Desenvolvimento Educacional, a FDE, que é centralizada em São Paulo. Os pedidos de acordo com as demandas são elaborados pelo setor de planejamento da direção regional. Os pontos de carência regionais estão sendo priorizados e os projetos dependem sempre da doação de terrenos pelos municípios. Temos problemas maiores na Vila São Paulo e na Vila Nova Esperança porque esses bairros ainda contam com muitos adolescentes na fase escolar e a demanda é maior que a estrutura. Mas já estamos cuidando desse e de outros casos.

JC - O mapa de localização das escolas da rede municipal e estadual supre todas as faixas etárias? Jair - Nós já temos um grande avanço porque temos feito o planejamento de construção do Estado e do Município juntos. Em Bauru nós temos tido essa liberdade de conversar com a professora Isabel Algodoal e estabelecer essa diretriz de construção. Mas há uma morosidade na licitação, na construção, na preparação do projeto. São questões com as quais temos que conviver e tentar acertar. Foi o caso da escola no Bauru 1, onde houve demora. Neste ano temos três novas escolas do Estado na cidade e a Prefeitura vem construindo escolas nos últimos anos.

JC - Entre os representantes da categoria a reclamação mais repetida é a política de abonos e gratificações e pisos salariais muito baixos. O Estado tem sido falho? Jair - Temos uma questão estrutural. Toda vez que você pensa em aumentos é para todo o Estado e não só para a Secretaria de Educação. Por isso é que muitas vezes a secretaria, para atender à demanda de algumas solicitações, tem que o fazer através de abonos ou gratificações que não se incorporam ao salário. O profissional recebe a mais, mas isso não faz parte de seu salário. Isso ocorre porque temos o teto a ser gasto com o funcionalismo na lei fiscal e o teto a ser consumido com folha de pagamento na lei do fundo da educação, que é 60% da receita do fundo. Por isso é que se tem recorrido a essa política. Não se pode transgredir a lei. E nem por isso o Estado tem deixado de aplicar os valores através de bônus, abono.

JC - Mas é cômodo para o Estado trabalhar com abonos, citar a lei e economizar com encargos que não vão para o piso? Jair - O Estado tem dado uma contrapartida nesse processo. Se não tem possibilitado o aumento real do piso, também não tem deixado o profissional sem o valor a mais que ele merece, ainda que seja através de benefícios nos últimos anos. Tem sido realizada uma discussão com os representantes de classe e o Estado. Agora, administrativamente, o Estado tem que levar em conta as normas.

JC - Não há um vazio enorme entre a aplicação do conceito de interdisciplinaridade e a realidade nas salas de aula? Jair - A nossa responsabilidade na escola é o de fazer o aluno pensar. Esse é o papel novo da escola porque até alguns anos o professor era o único que sabia. E ele estava na escola para ensinar e o aluno para aprender. E se o aluno não aprendesse entendendo o tema, a matéria, ele tinha que decorar. E isso pesava sobre a avaliação do aluno. Quem não aprendeu ou não decorou, por diferentes motivos, era reprovado. Hoje o professor tem que se integrar com o aluno e aprender também com ele. Porque ambos devem aprender e pensar juntos. O professor deve continuar sempre aprendendo e o aluno deve sair da escola sabendo ler, escrever, interpretar e discutir. É sim um processo que não se altera em apenas alguns anos escolares. Pode durar mais de uma geração, mas esse é o novo papel da escola.

JC - Esse processo de transição está em curso de forma correta, adequada? Jair - Hoje as escolas e o próprio aluno já passam a contar com inúmeros instrumentos que não se falava antes, como a Internet, a informática. Buscar informações sobre os rios que compõem a margem esquerda e direita do Amazonas é fácil. Mas usar essa ferramenta de pesquisa, hoje farta, para que o aluno pense o contexto da geografia interligada com o meio ambiente, a história e a política é que passa a ser a razão da escola. O projeto JC na Escola é uma das belas experiências dessa visão, onde o aluno através da leitura e de recortes de jornal é chamado a pensar sobre o seu mundo e a interpretar diferentes assuntos e disciplinas a partir da realidade. Esse é o papel da escola. Você trabalha a informação, pesquisa, estatística, política e as diferentes áreas de conhecimento neste processo. E o professor não deve temer que o aluno saiba mais que ele em uma área específica. Deve aprender e ensinar junto. Devemos insistir nessa humanização.

JC - Mas esse processo exige redifinição do papel do professor? Jair - Estamos vendo que este borbulho na escola está provocando essa mudança de postura. O professor está vendo que não detém sozinho o conhecimento e que a pesquisa pela pesquisa de dados sozinha também não ensina nada. A pesquisa de dados, hoje ampla e fácil, deve ser feita como ferramenta para a discussão em sala de aula. Mas é a tarefa de fazer o aluno pensar e a interpretar o mundo e os conteúdos junto com ele que vai humanizar nossa escola. Para isso o professor, é claro, também deve se reciclar o tempo todo. A iniciativa, a criatividade e o compromisso do professor e do aluno valem muito mais hoje. E temos tido notícias felizes nesse campo.

JC - A função do período de recuperação escolar para o aluno também está neste processo? Jair - Nós muitas vezes reprovamos alunos porque estes não sabiam decor uma fórmula, ou um questionário passado. E essa não é a melhor opção para formamos nossas crianças em futuros cidadãos. O que interessa a fórmula e a decoreba dos afluentes do rio Amazonas hoje se o aluno não entender o processo e não compreender essa ferramenta? É melhor ter o mapa em mãos e consultar os rios e discutir as temáticas referentes ao assunto. O conteúdo tem que ser ensinado e não decorado. Quando o aluno entende, ele incorpora esse conteúdo em seu dia-a-dia. E se for para decorar, a escola vai continuar cada vez menos atrativa e saindo de foco em relação a seu papel.

JC - Mas a escola corre o risco de aprovar alunos que não freqüentaram a sala de aula. Qual o critério na fase de recuperação? Jair - A escola está caminhando para a interdisciplinaridade. E existem alunos que podem não ter comparecido a todas as aulas, mas que contam com maior capacidade de assimilação desse conceito. Agora, se faltou demais isso, é um dos critérios que será levado em conta em sua avaliação final. O que não parece razoável é querer que o aluno que foi mal durante o ano em uma disciplina ou que teve um número de faltas um pouco além da média aprenda o material de todo o ano somente no período de recuperação. E penalizar com repetência quem demonstrou desenvoltura, interpretação e assimilação de conceitos não parece o melhor caminho. Esse é o papel da escola: humanizar e dar noção de interdisciplinaridade, cidadania, valores ao aluno.

JC - Mas talvez a maior crítica em torno da aplicação da progressão continuada é sua distância com a realidade de nossa escola? Jair - O professor achava, até alguns anos, que tinha a faca e o queijo nas mãos. Ou seja, eu aprovo e reprovo. Não dá mais para ser assim. Para a recuperação vão alunos que sabem as matérias e os que não sabem realmente. Os que sabem são, em geral, os que tiveram comportamento questionável na sala de aula, mas aprenderam. Que modelo que se deve aplicar? A progressão continuada provoca a rediscussão sobre esse modelo. E não é só discussão de custo por ano com o aluno. Não é verdade que reprovar torna esse aluno em um menino de sucesso no ano seguinte. Então o conceito não deve ser só em torno da rebeldia ou das faltas por si só. Temos que ver se a escola é atrativa também e é isso que a progressão e a interdisciplinaridade colocam para a sociedade agora. Os conteúdos e as formas de aprendizados não são estanques.