09 de julho de 2026
Bairros

40 erosões estão 'engolindo' a cidade

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Difícil saber ao certo quantas erosões há Bauru. A cada ano, muitas aparecem, outras são combatidas, mas a cidade não consegue ficar livre do problema. Estimativas da prefeitura, de ambientalista e geólogos apontam que o município deva ter em torno de 35 a 45 buracos gigantescos, alguns até com 15 metros de profundidade.

O solo é apontado como a principal causa das erosões. No entanto, muitos outros fatores acabam influenciando a ocorrência desse fenômeno: desmatamento, falta de sistema de macrodrenagem, falta de planejamento e urbanismo, uso e ocupação do solo feitos de forma desordenada, entre outras coisas. “Aceita-se, ainda hoje, a abertura de ruas sem a instalação de galerias de águas pluviais”, ressalta o vereador Rodrigo Agostinho (PMDB), secretário-executivo do Instituto Ambiental Vidágua.

Com o período de chuvas, as erosões se agravam. A força das águas acaba provocando a abertura de novas crateras e o alargamento das já existentes, elucidando ainda mais o problema.

No último dia 17, por exemplo, a erosão localizada na quadra 4 da avenida Manoel Monteiro, no Jardim da Grama, desmoronou, levando com ela parte dos trilhos da Brasil Ferrovias, empresa que administra a malha ferroviária que passa por Bauru. A circulação de trens teve de ser interditada, comprometendo até o abastecimento de combustível do Mato Grosso do Sul.

Apesar da gravidade, essa não é uma das piores erosões de Bauru. De acordo com Agostinho, há quatro outros pontos que enfrentam situações mais complicadas. Eles estão localizados na divisa entre o Núcleo Bauru 2000 e o Jardim Flórida; no Jardim Jussara; próximo ao Jardim Nicéia e Jardim Colonial, e na Pousada da Esperança.

O secretário municipal de Obras, Antônio Carlos Duarte, diz que a região do Jardim Jussara tem sido a mais complicada desde 1998. “Com relação à progressão da erosão e à disciplina de cheias, esse pode ser considerado o pior trecho”, enfatiza.

Ele diz que a prefeitura tem combatido diversas erosões na cidade, mas que o trabalho é feito em etapas. “Não é só tapar o buraco. A gente tem que evitar que ele se abra novamente. E isso só é possível com um sistema de macrodrenagem e a pavimentação das vias”, explica o secretário.

Lei

Duarte destaca que, em 95% dos casos de erosão que há em Bauru, a estratégia de combate é disciplinar o escoamento das águas pluviais. “Precisamos criar um sistema que não permita a concentração das águas em trechos pequenos, o que acaba aumentando a sua velocidade e causando as erosões”, destaca.

Essa tese é reforçada pelo geólogo Nariaqui Cavaguti. De acordo com ele, é possível solucionar de vez o problema das erosões na cidade, mas, para isso, Bauru deveria ter um sistema de drenagem adequado com a ocupação atual do solo. “Há 20 anos, a idéia de todos é que houvesse um crescimento ilimitado da cidade. Foram construindo casas e núcleos habitacionais sem levar em conta o escoamento de água. Hoje, a rede existe não consegue atender a necessidade do número de moradores e bairros existentes”, salienta.

Para tentar conter esse avanço sem controle, foi criada uma lei pela Câmara Municipal de Bauru, em fevereiro do ano passado, visando regulamentar a questão das erosões. O autor, vereador Rodrigo Agostinho, explica que ela já está em vigor, mas que não está regulamentada pela prefeitura. “Eu não sei se a lei já está sendo aplicada”, salienta.

De acordo com o diretor de divisão da Secretaria Municipal do Planejamento, Valcirlei Gonçalves da Silva, a aplicação da lei já está sendo feita. “Os novos loteamentos estão tendo de cumprir critérios mais rigorosos para serem aprovados”, salienta.

O grande reflexo dos problemas provocados pelas erosões acontece diretamente no setor imobiliário da cidade. José Martinho Teixeira da Silva, presidente da Associação dos Administradores e Corretores de Imóveis de Bauru (Aciba), salienta que os terrenos situados próximos aos buracos perdem totalmente o seu valor de mercado. “Simplesmente, não se vende imóvel perto de erosão”, diz.

Ele explica que isso acaba desvalorizando até o bairro, já que as pessoas temem que o buraco avance e ameace o seu terreno. “O Jardim Jussara é um exemplo disso. Quem vende uma casa lá não consegue comprar outra, do mesmo tamanho, em outro local”, ressalta.

Ele acredita que deveria ser criada uma comissão com o intuito de cuidar do problema na cidade. “Tem que fazer um trabalho de prevenção e de combate rígido às erosões, para tentar sanar o problema na cidade”, avalia.