A partir deste ano, escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio estão obrigadas a ensinar cultura e história afro-brasileiras. A decisão do governo federal foi bem-recebida entre educadores ouvidos pelo JC.
A especialista em história do Brasil, professora Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, afirma que não se pode ensinar história brasileira sem mencionar o histórico e a cultura negra. “As tradições deste povo estão presentes na religião, música, culinária, folclore, enfim, no dia-a-dia nacionalâ€, diz.
A lei publicada no Diário Oficial da União do último dia 10 oficializa os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) elaborados pelo Ministério da Educação (MEC), que já estabeleciam que o ensino de história deve abordar a contribuição das diferentes etnias na formação da nação brasileira.
A lei não determinou carga-horária para ministrar a cultura afro, que deve ser dada nas aulas de história. “A cultura e a história do negro, em muitas escolas, estavam resumidas em um capítulo que trata da escravidãoâ€, diz Vera Lúcia. O negro é o grande ausente da história brasileira, os livros didáticos de história muitas vezes o apresentam como o escravo, forte, bom de trabalho, ignorante e sem direito de pensar e dominado pelo branco.
“A contribuição deste povo é imensa, além da braçal. Com esta lei poderemos fazer um resgate tardio dessa importânciaâ€, acredita a professora. A Diretoria de Ensino de Bauru afirma que o ensino sobre o negro já é realidade nas salas de aula. Para o dirigente de ensino, Jair Sanches Vieira, a lei chega para reforçar a necessidade de ensinar e discutir a história e cultura negra nas escolas.
Floripes Soares dos Santos é professora de história e geografia há 12 anos. Para ela, a lei já mostra que existe deficiência no ensino sobre o negro. “Os próprios professores desconhecem fatos importantes. Com a lei todos terão que se atualizar para atender a exigência federalâ€, frisa.
“Como negra sempre estudei a história do meu povo. Em sala de aula, posso falar - nós negros - destacar a história, cultura, escravidão e a situação do negro hojeâ€, diz. Esta lei será positiva fora do papel, por isso sua divulgação e aplicação nas escolas deve ser imediata.
Os preconceitos contra o negro ainda existem, talvez porque ele ainda seja um desconhecido. “As pessoas têm que saber qual foi a contribuição africana. O próprio negro precisa conhecer sua história, seu valorâ€. A professora, que atua na rede pública, acredita que a Diretoria de Ensino de Bauru deva divulgar esta lei e cobrar o aperfeiçoamento de seus professores.
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75% de história do Brasil
No currículo da rede pública, 75% das aulas de histórias são dedicadas ao Brasil, inclusive à história e cultura afro-brasileira. Existem comunidades que não atendem as determinações dos PCNs. “Estas escolas agora terão que falar do negro. Isso será importante para mostrar ao brasileiro o quanto a cultura africana faz parte de sua realidadeâ€, comenta Vieira. O negro, muitas vezes, é lembrado como parte do folclore nacional, mas esquecido como ator e sujeito dessa história.
O resultado poderá ser notado no futuro. “Esta lei trará a consciência de que os negros são um povo forte, vitorioso, resistente e sobreviventeâ€, diz. Para Vera Lúcia, as futuras gerações serão beneficiadas porque resgatar o respeito do negro, suas origens e tradições pode fazer com que o brasileiro se identifique como um conjunto de nacionalidade única, apesar das diferenças físicas e ideológicas.
A diretoria de ensino, tendo em vista a determinação do Governo, oferecerá para os professores de história um programa de capacitação continuada, indicando livros e determinando o conteúdo que terá que ser dado em sala de aula.
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Curso inclui disciplina sobre a África
O déficit no ensino dos conteúdos afro-brasileiros já esteve presente também nas universidades. Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, que é professora do curso de história da Universidade do Sagrado Coração (USC), conta que em 2000 a universidade implantou a disciplina história da África, com objetivo capacitar seus alunos para o ensino nessa área.
Professores formados antes de 1996 podem não ter condições de ensinar estes conteúdos. “Acredito que os professores que dão aula no ensino fundamental e médio há muitos anos terão que buscar leituras para dar essas aulas, caso contrário os alunos serão prejudicadosâ€, diz Vera Lúcia.
Os professores têm que estudar sempre. Neste caso, terão que se dedicar ainda mais, pois a área tem pesquisas recentes que revelam informações importantes sobre a história do negro no Brasil.