09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Perfil de um pichador


| Tempo de leitura: 3 min

Desafio qualquer leitor a me mostrar um único muro, fachada, portão ou monumento público ou privado que não esteja pichado em nossa cidade. Viajo com alguma freqüência a cidades da região e à Capital e confesso: nenhuma delas têm uma juventude tão ativa, tão dedicadamente ativa ao mister do crime de dano e ao meio ambiente. Analisando friamente, o pichador, na verdade, não é um humano normal. É um animal, mas também não é um animal normal. Nem mesmo o rato, daninho por natureza, trata seu ambiente com tanta falta de zelo. Talvez se aproximem dos porcos, que comem e defecam no mesmo local, mas os porcos têm alguma utilidade; o pichador, não!

Não importa que o muro tenha sofrido um tratamento especial ou uma textura artística; não importa que seja uma fachada histórica ou um monumento importante para a cidade; que seja feito de pedras onde nunca mais será possível pintar; se a superfície é de madeira nobre, metal ou alvenaria; não importa nem mesmo se está no nível do solo ou no alto de uma sacada; se o morador sonhou com aquela combinação de cores, se gastou muito do que tinha ou não tinha; não importa o custo social, moral ou material despendido na construção e pintura. Lá estará o pichador, invariavelmente dois ou três dias após a pintura nova. E, pichador que é pichador, não faz algo pequeno. A pichada tem que ter dois metros de altura e ocupar todo o espaço possível da fachada, de preferência, feita com grandes rolos de pintura. E, com isso, como nossa Bauru está feia.

Na verdade, o pichador é um animal covarde, traiçoeiro, como nunca se viu no reino animal. Age na calada da noite, acobertado pelo anonimato, como qualquer criminoso comum, sem coragem de encarar sua presa nos olhos. Aliás, o fato de ser um animal menor ou maior de 18 anos não interfere na atitude: continua a ser um animal que pratica um crime contra seus semelhantes e sua coletividade. Por outro lado, o pichador é um animal dementado. Ele não tem propósito algum em seu ato senão o de vandalizar, o de causar prejuízo, o de divertir-se às custas da desgraça e tristeza de outros, a pôr rabiscos ininteligíveis aleatoriamente. Mais que simples maldade, ele sente prazer em lesar. Uma coisa é certa: o pichador é um animal pandêmico. Ele existe tanto nos bairros mais ricos, onde carrega seu veneno colorido nos belos carros particulares, quanto nos bairros mais pobres, onde destila sua maldade com brochas velhas e latas de tinta.

Enfim, enquanto a sociedade tenta evoluir e melhorar seu raciocínio anacrônico, não permite que lições úteis de vida suplantem sua demência, ou seja, não será pela educação que se atingirá qualquer objetivo com ele, mas apenas pela punição severa e exemplar. Na verdade, ele é um caso perdido, longe de ser extinto, pois se pichações existem às centenas de milhares, deduz-se que pichadores existem aos milhares.

Concluir que acabar com o pichador é difícil, temo que mais impossível ainda seja sensibilizar as autoridades públicas sobre sua responsabilidade nessa tragédia. Prefeito, vereadores, delegacias especializadas, polícias, enfim, justamente quem teria a competência para fazer algo, simplesmente fecha os olhos e ignora o problema, entregando a sociedade à própria sorte. Só espero que não reclamem quando, cansados da incompetência administrativa geral, cada vítima buscar fazer justiça com as próprias mãos, afinal, na lei da selva, o animal deve ser tratado como animal! (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)