08 de julho de 2026
Auto Mercado

No peito e na raça

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Desde os quatro anos de idade, o então pequenino bauruense Cristiano Aparecido da Silva já sonhava em andar de bicicleta. Tanto que, quando sua mãe o levou na época a uma loja para escolher um presente de Natal, não titubeou e logo agarrou-se em uma “magrela”.

Só que, para sua decepção, as condições financeiras da família, que sempre foi humilde, impediram a compra do tão desejado mimo natalino. Resultado: muito choro e uma febre resistente a qualquer remédio, que só foi curada após a mãe emprestar dinheiro e retornar à loja para comprar a “bicicletinha”. “Acho que estava no sangue, pois não demorei para aprender a andar”, considera ele.

Começava ali uma história de amor sem fim entre Cristiano e as “bikes”. Estas se transformaram em suas razões de viver e propiciaram a descoberta de um talento adormecido no jovem que só se revelaria mais tarde com a conquista de alguns títulos de expressão. Os principais foram obtidos no ano passado: campeão da Copa Caloi e do Reebok Power Bar, ambas competições de mountain bike, sua modalidade predileta.

Mas tornar-se um ciclista exigiu de Cristiano muitos sacrifícios. A começar pela compra da bicicleta apropriada à prática do esporte, a cara Alfamek. Para isso, além de ter de ajudar no sustento da casa, no bairro do núcleo Geisel, onde mora juntamente com sua mãe, reuniu as economias obtidas como servente de pedreiro. “Demorei um ano para adquirir todas as peças, acessórios e roupas necessárias”, conta ele.

Divisores de águas

Com a “bike” em mãos, não demorou muito para o então inexperiente Cristiano aventurar-se em competições do gênero. Sem qualquer tipo de preparação prévia, resolveu participar de uma prova de mountain bike realizada, em 1998, em Bauru.

“Ingenuamente, achei que ia ganhar a corrida facilmente e me inscrevi entre os profissionais. Mas, na hora da prova percebi que tinha me enganado. Na largada, saí como um louco e, ao final da primeira volta, todos me ultrapassaram e não agüentei terminá-la”, relembra Cristiano.

O episódio serviu como um divisor de águas na vida do jovem bauruense. Mesmo tendo fracassado na primeira tentativa, Cristiano não desanimou e passou a dedicar-se aos treinamentos visando obter um melhor resultado em outra etapa da mesma competição, que ocorreria um mês depois. Para isso, trabalhava de manhã e à tarde como servente e, à noite e de madrugada, pedalava cerca de 40 quilômetros.

Tanto esforço logo foi recompensado. Na etapa seguinte, Cristiano já conseguiu ficar em terceiro lugar correndo entre os profissionais. O resultado, além de estimulá-lo a continuar praticando o esporte, serviu como uma espécie de “alerta” ao jovem. “Não podia ser normal obter uma colocação daquela disputando com ciclistas muito mais experientes. Ali senti que algo era diferente em mim”, revela.

Outro momento marcante para Cristiano foi quando, em 1999, venceu a Directv Mountain Bike, prova organizada em Bauru com cerca de 400 participantes e que tornou-se a primeira conquista de sua carreira ciclística.

Graças a ela, obteve o patrocínio - também primeiro - de uma imobiliária local, que o acompanhou durante três anos. “Foi um impulso inicial muito importante, pois com a ajuda de custo que recebia do estabelecimento conseguia ir para as corridas e manter a bicicleta”, enfatiza Cristiano.

No ano seguinte, o ciclista parou de atuar como servente e passou a depender de alguns “bicos” para ajudar no apertado orçamento doméstico. E, após trabalhar seis meses limpando pedras, conseguiu reunir recursos para adquirir outra “bike”, mais apropriada para os treinamentos de fortalecimento da massa muscular corporal.

Em 2001, Cristiano obtém outro patrocínio, dessa vez o de uma empresa paulistana especializada em marketing e organização de eventos esportivos. Graças a isso, o bauruense pôde participar de várias provas sem ter de gastar um tostão. “O que me deixou mais orgulhoso foi o fato deles oferecerem o auxílio, o que para mim foi um reconhecimento de minha luta”, frisa ele.

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Perfil

Nome Cristiano Aparecido da Silva

Idade 25 anos

Profissão atual Mecânico de bicicleta

Lugar para passear Ouro Preto (MG)

Time do coração Corinthians

Quem você levaria na sua bicicleta se ela possuísse espaço para garupa?

“Minha mãe Diva.”

E quem você nunca levaria?

“O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.”

O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?

“A imprudência, principalmente dos motoristas de ônibus e caminhões, que pelo porte dos veículos que dirigem, pensam possuir liberdade para usar todo o espaço da rua sem respeitar os ciclistas.”

Que nota você daria aos motoristas de Bauru?

“No máximo, seis.”

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Títulos

Apesar das dificuldades, Cristiano conseguiu superar as barreiras e conquistar títulos e boas colocações em várias competições. Além de ter sido campeão, sempre em sua categoria, da Copa Caloi e da Reebok Power Bar, o ciclista já venceu uma etapa, em São Carlos, do Campeonato Paulista de Mountain Bike.

Além disso, também já integrou, no ano passado, a equipe bauruense de ciclismo dos Jogos Regionais que terminou a disputa em terceiro lugar.

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Dificuldades

Apesar de contar atualmente com quatro patrocinadores - Sampa Bikers, De Bike, Lub Master e Casa da Bike -, o número ainda é pouco para as pretensões e necessidades de Cristiano.

Além de ter de treinar entre duas a quatro horas e percorrer cerca de 60 quilômetros a 80 quilômetros diariamente para manter a forma física, o ciclista bauruense ainda trabalha em uma bicicletaria, que abriu em sociedade com um amigo, como mecânico. Tudo para conseguir efetuar a manutenção de sua “magrela” e ajudar, o máximo possível, a mãe a pagar as contas de casa.

Por essas razões, Cristiano justifica que necessita de outros patrocínios para fazer sua carreira deslanchar de vez no ciclismo. “Quero viver da atividade e gostaria de fazer só isso. Minha meta é, um dia, ingressar em uma equipe de ponta do esporte”, sonha.

Cristiano lamenta, ainda, o fato de ter iniciado “tarde” a competir. “Até hoje, tudo o que obtive foi na base da raça e da vontade, pois nunca sequer fiz uma avaliação física. Queria ter começado mais cedo, mas não tinha condições porque precisava ajudar em casa. Se fosse assim, hoje certamente já seria um profissional.”

Entretanto, como determinação realmente não falta ao ciclista local, ele já faz planos para 2003. Além de ter decidido correr somente entre os profissionais, Cristiano se prepara para disputar o Campeonato Interestadual de Mountain Bike.

A competição, que reúne “bikers” de todo o País e é considerada a terceira mais difícil do Brasil, traz boas lembranças para o bauruense. Em 2001, correndo na categoria expert, conquistou o quinto lugar na classificação geral. â€œÉ uma prova em que os vencedores normalmente são os profissionais apoiados por equipes, como a da Caloi. Por isso, se chegar entre os dez ficarei muito satisfeito”, afirma.

Segundo Cristiano, 2003 será um ano, acima de tudo, dedicado a novas experiências e aprendizados. “Correr entre os profissionais será útil para aprender um pouco de suas preparações, que contam com técnicos, nutricionistas e um staff que nem sonho em ter”, conclui ele.