08 de julho de 2026
Polícia

Para juiz, unidade de Bauru é modelo

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

A rebelião de anteontem na unidade local da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) foi considerada rotineira pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude, Ubirajara Maintinguer. Apesar dos incidentes, ele ainda considera a unidade de Bauru a melhor do Estado.

Segundo o juiz, os menores não têm motivos para rebelar-se. Os problemas internos na unidade ocorreriam apenas por “material humano ruim”, termo utilizado por Maintinguer para referir-se ao perfil dos adolescentes abrigados na Febem. Confira a seguir trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - O que de fato aconteceu na Febem ontem (anteontem) à noite? Maintinguer - Eu estive lá e conversei com os garotos, mas também não tenho uma noção exata do que aconteceu. Parece que houve um tumulto e alguns meninos saíram do módulo da unidade de internação e foram até a unidade de internação provisória e até a unidade de atendimento inicial, onde teriam agredido os meninos que estão cumprindo medida disciplinar e teriam feito três funcionários reféns.

JC - Então tudo teria começado com uma briga? Maintinguer - Não sei.

JC - Foi difícil controlar a rebelião? Maintinguer - Quando eu cheguei, a PM já tinha contido e retirado os funcionários. Então os meninos quiseram conversar comigo.

JC - Eles reivindicaram alguma coisa? Maintinguer - Não reivindicaram nada.

JC - Então qual foi o motivo do motim? Maintinguer - Não tem motivo nenhum. Eu acredito que queriam fazer a fuga. Então você precisava criar alguns focos de conflito ali dentro para dispersar os funcionários. Só tem essa explicação. Eles não tinham nada para pedir, nada para falar.

JC - Alguns deles estavam com os pés machucados... Maintinguer - Os meninos do atendimento inicial estavam com machucados nos pés. Eu estranhei que estava todo mundo com machucado nos pés. Não havia briga coisa nenhuma. Tive a impressão que eles não foram agredidos. Eu acho que eles mesmos provocaram aquilo porque estavam todos machucados do mesmo jeito. Eram uns cinco.

JC - Algum dos reféns ficou ferido? Maintinguer - Tinha um rapaz se queixando que estava com uma marca no pescoço. teriam colocado uma arma no pescoço dele. Eu não vi, mas ele vai passar por exame de corpo delito.

JC - De que forma se deu a fuga? Maintinguer - Não sei. Eu acho que dificilmente com tereza. Difícil jogar tereza para escalar o muro. Pelo que me disseram, eles saíram pela porta da frente. Mas eles podem ter escalado o muro da frente também. Mas eu acho que não. Se eles chegaram até ali, eles provavelmente saíram pela porta.

JC - A capacidade da Febem está esgotada. Isso pode estar relacionado às fugas? Maintinguer - Não, eles estão muito bem lá. Não tem unidade no Estado melhor que essa. É que infelizmente o cidadão não quer colaborar. Você faz de tudo para ajudar e o cara não está nem aí. Essa é que é a realidade. Uma hora dessas eles devem estar em casa e eu vou mandar buscá-los em casa. Eles não têm para onde ir.

JC - Qual é o perfil desses adolescentes? Maintinguer - São pessoas que não têm opção nenhuma na vida, sem estrutura familiar. Têm baixa escolaridade, geralmente são viciados em droga. Então logo eles têm que praticar algum crime para poder comprar droga. Daqui a pouco ele está preso de novo.

JC - Existe a possibilidade de que alguns menores sejam transferidos para outras unidades? Maintinguer - Existe, mas a orientação é para mantê-los perto de casa. Então a chance de que eles saiam não é muito grande.

JC - No início, falou-se muito que a unidade de Bauru da Febem seria diferenciada. A previsão era de que não acontecessem rebeliões e fugas, como em outros locais do Estado. O senhor acredita que esse propósito não está sendo cumprido e que a Febem não está desempenhando a função que deveria desempenhar? Maintinguer - O que acontece é o seguinte: perto do que poderia acontecer numa unidade descentralizada, isso é absolutamente nada e de repercussão nenhuma. A realidade é que, se tivesse um objetivo ou se eles sofressem maus-tratos, eles teriam agido de outra forma. Mas não. Não houve violência. Faz parte do sistema esse tipo de ocorrência. Perto do que se tinha antes - de quebrar a unidade inteira, colocar em pânico toda a população, matar funcionários e internos-, isso não é nada. Esses problemas são característicos em unidades de internação.

JC - Se o cotidiano da unidade é considerado tranqüilo, porque acontecem essas rebeliões? Maintinguer - Material humano muito ruim.

JC - O que o senhor quer dizer com isso? Maintinguer - Vai ver o perfil dos meninos. São todos a mesma coisa: família desestruturada desde o nascimento, baixa escolaridade, entraram nas drogas, praticaram vários atos infracionais. O material humano é muito ruim e muito difícil de ser trabalhado. Você dá um passo para frente e dois para trás. A degradação social é muito intensa.

JC - Como todos esses incidentes, o senhor ainda considera a unidade de Bauru uma das melhores do Estado? Maintinguer - A melhor do Estado.