09 de julho de 2026
Polícia

Em 8 meses, Febem soma 7 ocorrências

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Tida como um renovado modelo de ressocialização de jovens infratores e segura em relação à comunidade à sua volta, a Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) de Bauru completou meio ano de existência com marcas que comprometem, até agora, a eficácia pretendida. A média de ocorrências registradas na unidade de Bauru é de quase uma por mês, uma marca negativa. Em oito meses de funcionamento, houve sete incidentes.

A Febem de Bauru foi inaugurada em fevereiro de 2002, mas começou a receber os menores apenas no mês de junho.

O propósito inicial da unidade era o de ser diferenciada das outras existentes no Estado, proporcionando aos adolescentes a possibilidade de recuperação e de reintegração à sociedade, através de atividades desenvolvidas com equipe multidisciplinar, infra-estrutura adequada e longe de atos violentos.

Foram ocorrências de fugas, brigas e agressões a internos e funcionários, rebelião e acusação de atentado violento ao pudor.

Além disso, conforme publicado pelo JC na edição de ontem, pesam sobre a unidade acusações de que é freqüente a presença de drogas no local.

Na noite de anteontem, nove internos fugiram. De acordo com o boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, sete deles são de Bauru, um é de Agudos e outro de Botucatu.

Seis funcionários e cinco internos foram feitos reféns - sendo um deles de Botucatu e outro de Arealva.

Polícia Militar

A Polícia Militar (PM) foi acionada por volta das 23h de domingo por funcionários da Febem que comunicaram a rebelião na unidade. Cerca de 50 policiais foram deslocados, entre Força Tática e profissionais do Rádio-patrulhamento Padrão.

De acordo com o tenente-coronel José Alexandre Borin, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI), o prédio foi cercado, mas a situação foi controlada pelos próprios funcionários.

“Posteriormente, ingressamos na parte perimetral da Febem para dar apoio à direção da unidade na recontagem dos menores. A polícia só esteve lá para cercar o local e avaliar a situação externa. Nós não sabíamos quantos haviam fugido”, explica Borin.

Informações extra-oficiais dão conta de que os internos danificaram móveis e objetos na unidade. A informação, entretanto, não foi confirmada pelo tenente-coronel, já que a PM atuou apenas na área perimetral da unidade na noite de anteontem.

Não há dados precisos sobre o motivo do motim. O juiz da Vara da Infância e da Juventude, Ubirajara Maintinguer, acredita que foi apenas um pretexto para as fugas (leia mais em entrevista na página 9).

Segundo Borin, a ocorrência começou com uma briga. “Não percebemos nada grave. Houve um desentendimento entre os internos, que partiram para uma briga generalizada”, expõe.

Há também duas versões sobre a forma pela qual os menores fugiram. Enquanto Maintinguer acredita que eles tenham saído pela porta da frente, Borin diz que pode ter sido com o auxílio de uma tereza (espécie de corda confeccionada com lençóis).

“Eu vi uma tereza com a qual eles teriam condição de pular o muro. Uma funcionária apresentou uma bastante grande, de oito a dez metros. Tudo leva a crer que tenham saído pela tereza”, afirma o tenente-coronel.

A polícia apreendeu no local nove espetos de madeira, duas torneiras niqueladas, quatro pedaços de ferro pontiagudos, um garfo e um pedaço de tubo de metal. Três camisetas dos adolescentes com os números 31, 26 e 43 foram encontradas do lado externo do prédio.

As vítimas não sofreram agressões graves. Nenhuma delas foi removida para atendimento médico, que foi providenciado na própria unidade.

“Essas situações internas sempre vão existir. Não tem como afastá-las. Ontem (anteontem), não houve nenhuma gravidade”, acrescenta Borin.

Vizinhos

As ocorrências na Febem têm sido alvo de reclamações dos moradores da região, principalmente do Núcleo Geisel. Eles alegam que a presença da Febem no local prejudica a população vizinha.

Alan Carlos Ursulino de Paula, da Associação de Moradores do Geisel, diz que as reclamações são constantes.

Na época em que a unidade estava sendo construída, a comunidade solicitou que o prédio fosse erguido em local mais afastado.

Agora, eles mostram descontentamento. “Isso só veio para denegrir e desvalorizar ainda mais o bairro. Há uns 30 dias teve um problema lá. Agora, outra rebelião”, diz.

Assustados com as ocorrências envolvendo a Febem, moradores estão erguendo muros mais altos nas casas. “Os moradores estão surpresos e estão levantando muros de até 2,5 metros, colocando grades e fechando as casas. A Febem veio para tirar a liberdade do bairro. Quem fica na rua agora são os meninos que vivem no escuro”, reclama Alan.

Um dos temores da população do bairro, segundo o membro da associação de moradores, é que menores de outras regiões do Estado sejam transferidos para Bauru. “Temos medo de que o pessoal de São Paulo venha para cá”, reforça.