08 de julho de 2026
Turismo

Eu Estive lá - O oceano é o limite

* Vera Lúcia Andrade
| Tempo de leitura: 5 min

Escapar da rotina pode ir muito mais longe do que se pensa. Pode se constituir em algo encantado por surpresas a bordo. Principalmente se você for marinheiro de primeira viagem e optar por um navio com caráter informal de atendimento, mas que em nada perde em glamour e luxo que envolvem as imagens mostradas no cinema.

O primeiro cruzeiro a gente nunca esquece. Conhecer fatos interessantes através de pessoas cultas, ver gente bonita torrando ao sol, fazendo jogging no convés do navio ou exercitando-se na sala de ginástica.

Apreciar o mar nesse ângulo é conseguir a sorte de mirar golfinhos ou baleias como que festejando a visita de ilustres viajantes.

Passageiros do Island Escape, navio em que os eventos public relations são administrados pela carioca Virginia Shultz, lamentam a proximidade do fim de um dos roteiros oferecidos pelo “ transatlântico pra lá de tropical” na orla verde-amarela, na temporada 2002/2003.

Sob a tutela do “mestre”, o comandante inglês Stuart Horne, que administra e conduz o navio em seus vários rumos, junta-se ao time de oficiais de várias nacionalidades associado à tripulação de 556 pessoas, que cuida dos diversos setores do navio, servindo aos anseios e devaneios de uma população flutuante de quase 1.700 habitantes.

Viajar de navio não significa mais navegar pelo Caribe, Ilhas Gregas ou singrar o Mediterrâneo. Desde 1997, a navegação de cabotagem no Brasil está liberada, o que tem permitido viajar de uma cidade a outra em nosso País, quando antes só se podia, por exemplo, fazer um cruzeiro de Santos à Itália.

Barato, mas nem tanto, estar no cruzeiro é navegar num resort. Tem salões de festas, piscina, restaurantes, cassino, boate, teatro, shopping, academia e muito mais, contando ainda com atividades promovidas pela tripulação, bem ao estilo brasileiro.

A embarcação também conta com um “staff” que fala português. Vale lembrar que no navio tem sala especial para “guardar” passageiros inconvenientes e a entrada de bebidas alcoólicas é proibida, uma forma de controle, digamos, dos exageros típicos dos jovens e outros mais adultos em época de auto-afirmação.

O próprio preço das bebidas a bordo, às vezes, serve para conter ânimos dos mais engraçadinhos, não se distanciando porém do preço, em reais, praticado pelos hotéis cinco estrelas do País.

Navio e arquitetura

O primeiro ponto de parada é o Rio de Janeiro. Quem já conhece a Cidade Maravilhosa não sai da embarcação. Aproveita para relaxar e fazer novas amizades através dos bons papos que rolam navio afora. Num desses contatos, o arquiteto Marcos Valle conta detalhes sobre a ponte Rio-Niterói.

Porto inSeguro

Com o crescimento da procura de férias em alto-mar, o brasileiro mais afoito, às vezes, não percebe que a bordo de um navio internacional está em território estrangeiro e deve seguir as regras impostas por seu comandante, inclusive ele próprio à mercê de resoluções de emergência, em caso de imprevistos.

Com a impossibilidade de ancorar em Porto Seguro em função da maré baixa, o capitão Horne não arriscou. Tratava-se da segurança de 1.672 passageiros sob sua responsabilidade.

A mudança de planos despertou a ira de alguns brasileiros e bolivianos inconformados que exigiam qualquer “ressarcimento” em função do desvio de rota. Enfim acalmaram-se, após um bate-papo com o comandante, que, pacientemente, os recebeu para explicar a situação.

Búzios e o mar revolto

Já ancorar em Búzios, sem um porto, propiciou uma aventura pra lá de arrepiante, com o mar revolto e embarcações indo e vindo da costa para o navio, conduzindo os passageiros à terra. Essa o comandante garantiu. Marinheiros filipinos suavam o muque para conduzir barcos que transitavam ao sabor das ondas agitadas, encostando com segurança no navio, para desembarque e alívio dos passageiros.

Salvador e chocolate

O tempo vira durante o percurso em direção à Bahia e, na piscina pode-se acompanhar o fechamento do teto retrátil do navio, que cobre toda a área de lazer. Vivas à equipe de eletricidade do cruzeiro, que não deixa a energia cair, sempre atenta a quaisquer alteração ou oscilações.

No mais, chuva forte não é nada e o navio não dá enjôo, não! O que preocupa são os ventos laterais, que podem virar o navio, dependendo da força. Mas há equipamentos e oficiais que cuidam de alterar a rota, fugindo do vento.

Já em Salvador, a situação mostra-se tranqüila. O cais fica próximo aos pontos históricos, como o Pelourinho, Elevador Lacerda, igrejas famosas, Mercado Modelo e muito mais. Farol da Barra e a Lagoa de Abaeté são pontos de visita oferecidos pelo navio os quais você pode tranqüilamente abdicar do conforto oferecido e fazer por conta.

Tudo vai depender do seu bolso. De volta ao navio, uma surpresa: num dos restaurantes, um chá da tarde é oferecido à vontade com incontáveis variedades de doces elaborados à base de chocolate. E dá-lhe calorias!

E a festa não pára nunca. Três restaurantes, sendo um 24 horas, promovem uma farra gastronômica rapidamente compensada por idas diárias à academia de ginástica da Runner, para queimar as calorias pendentes.

Pub, Café Brasil e outros “points” para casais, madurões e balzaquianas formam um conjunto de lazer digno dos cafés franceses e pubs ingleses. Poltronas revestidas em veludo e carpetes macios compõem o cenário de conforto.

Mesmo assim, alguns esnobes torcem o nariz, é claro, para contar que já estiveram em outros cruzeiros, ao contrário da maioria dos passageiros que então viajava pela primeira vez, estreando no Island Escape, “um navio que não perde para outros, de fama internacional”, observa um médico com muitas milhas de alto mar, que na ocasião compartilhava a viagem com a família.

Noites enluaradas

Nas noites enluaradas nos conveses do navio, a boate, localizada no 12.º andar funciona num grande espaço em formato circular, mantendo a balada em alta até o nascer do dia. Tudo muito chique. Embora informal, é bom levar roupas de passeio para “sair” à noite pois uma roupinha tipo calçadão de Guarujá, vai sem dúvida destoar da decoração e porte arrojado do navio.

Quando pensar que não tem mais nada para ver, vale espiar as exposições de arte naval fixadas nos vários decks do navio, que tem 5 elevadores ou espreitar, do convés de sua cabine, o nascer ou o por-do-sol em alto mar.

* Vera Lúcia é jornalista