09 de julho de 2026
Articulistas

Culto à pobreza


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Parece não existirem muitas dúvidas de que, com a ascensão de Lula ao topo da política nacional, a sociedade brasileira viu-se numa imensa contradição: trabalhamos para nossa prosperidade econômica e financeira, no entanto, o discurso populista de alguns políticos e autoridades eclesiásticas nos faz ver justamente o contrário, ou seja, se conseguirmos a tão almejada prosperidade, nossos corpos estarão submerso no purgatório dos impostos e nossas almas destinadas à convivência pouco confortável junto a Lúcifer. O maniqueísmo na classificação da sociedade brasileira em incluídos e excluídos não deixa muita margem a outras interpretações, isto é, possuímos aproximados 160 milhões de incluídos socialmente e aproximados 20 milhões de pessoas socialmente excluídos.

O fato curioso nessa simplória classificação é que teríamos oito brasileiros dando um duro danado para se manterem socialmente incluídos e, de sobra, arrastarem (literalmente) um único excluído social. Assim não dá. Mas que coisa é essa de exclusão social? O que é que isso significa?

A disparidade sobre essas idéias, tanto no governo petista quanto nos meios eclesiásticos, é algo estarrecedor. Entretanto, por simplicidade, admitamos que incluir socialmente traduza-se como inserção do indivíduo no conceito de cidadania. Ora, ser cidadão no Brasil significa, no mínimo, possuir CIC, RG, Título de Eleitor e endereço fixo. Mas possuir tais documentos caracteriza-se como um risco de extraordinária grandeza.

Com o título de eleitor, conferimos legitimidade a todos os absurdos e falcatruas de nossa classe política. Através do Cadastro Individual de Contribuintes, essa mesma classe política exerce o mais absoluto controle sobre o patrimônio e a renda da população. Com carteira de identidade nos responsabilizamos civil e criminalmente por qualquer de nossos atos (mesmo que involuntariamente praticados) e, com endereço fixo, fornecemos o lugar onde poderemos ser alcançados e recolhidos à custódia do Estado. Mas qual o benefício em tudo isso? Nenhum. Da inclusão social, além dos inconvenientes citados, derivam-se outros, tais como: assistir, mansa e pacificamente, a insegurança pública; à falta de qualidade nas escolas públicas; falta de qualidade na assistência médica e hospitalar; insegurança nas estradas esburacadas; degradação ambiental; por falta de planejamento urbano de longo prazo somos obrigados a conviver com favelas e esgotos a céu aberto e por aí segue.

Mas o que intriga em tudo isso é que ninguém perguntou a esses excluídos socialmente se eles gostariam de serem incluídos em alguma coisa. O que se mostra é um discurso oficial equivocado e versando sobre coisas que nem o próprio governo sabe o que é, muito menos como se faz. Haja vista que, na viagem que fez ao Nordeste, a baboseira contida no Projeto Fome Zero evidenciou que havia mais gente na comitiva presidencial do que passando fome nas três regiões visitadas. Uma vergonha, ridículo e exposição desnecessária para o governo petista que se inicia (e muito mal). Conquanto venha de longe o culto à pobreza no Brasil, historicamente nunca um governo fora tão incisivo e inconsistente nesse sentido como agora. Precisamos parar com essa ladainha que, a todo tempo, está a nos encher o saco e acirra, sobremaneira, o preconceito em relação a qualquer sinal exterior de independência econômica e financeira. Esse preconceito, implantado tanto pelas autoridades governamentais quanto pelas eclesiásticas, corre o risco de impor um confronto social pautado pela mais absoluta falta de orientação ideológica e política. (O autor, Leônidas Correia das Neves, é advogado e mestre em Economia Rural pela USP)