08 de julho de 2026
Geral

Acidente não muda meta de astronauta

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 8 min

A recente explosão do ônibus espacial Columbia minutos antes do pouso, matando os sete tripulantes, não muda em nada o propósito do major-aviador Marcos César Pontes de participar de uma missão espacial. Pontes, o primeiro astronauta brasileiro, diz que o acidente foi uma fatalidade e que riscos fazem parte da profissão.

Apesar de ainda não ter data marcada para integrar uma missão espacial, Pontes, que é bauruense, afirma que está pronto para o desafio. “Se fosse escalado para uma missão amanhã, eu iria”, frisa.

Quando chegou à Nasa - a agência espacial americana -, em 1998, ele esperava ser escalado até 2002. Porém, Pontes revela que não há previsão para seu vôo porque o Brasil ainda não assinou o segundo acordo com a Nasa para o vôo e para a utilização da Estação Espacial Internacional - o País não cumpriu o primeiro acordo.

Pelo acordo, o Brasil é responsável por produzir e fornecer peças para a Estação Espacial Internacional, que está sendo construída por um pool de países. Em troca, tem direito a fazer experimentos no espaço e ter um tripulante treinado pela Nasa para voar nas missões espaciais.

O major-aviador está nos Estados Unidos desde 1998 realizando treinamentos, testes e cursos na Nasa. Pontes foi escolhido pela Agência Espacial Brasileira (AEB) e pela Nasa para integrar a equipe de astronautas que irá à estação espacial.

Aos 39 anos, Pontes frisa que ir ao espaço é o seu maior objetivo e agradece a preocupação dos bauruenses e dos brasileiros em geral com seu trabalho. Confira a entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - O senhor poderia estar na nave espacial Columbia, ter morrido como os sete tripulantes?

Marcos César Pontes - Sim, eu poderia estar. Mas operacionalmente eu não estava escalado para essa operação. A equipe estava escalada há dois anos e meio, treinando para isso. Quando eu digo que poderia estar, quero dizer que um dia vou estar escalado e acidentes podem ocorrer. O risco faz parte.

JC - O senhor conhecia os astronautas mortos?

Pontes - Conhecia todos eles. O grupo de astronautas não é muito grande então todos se conhecem.

JC - Quantos astronautas a Nasa tem?

Pontes - Ao todo, somando inclusive os que não estão em serviço aqui (em Houston, no Texas), são cerca de 170. Entre eles estão 22 estrangeiros.

JC - Há risco de morte em toda missão espacial? Os astronautas estão cientes disso?

Pontes - Há sim risco e os astronautas sabem disso. O sistema do ônibus espacial é como o sistema de um avião. No momento da decolagem você confia a sua vida nos dois motores. Dar pane nos dois é difícil, mas se ocorrer uma falha no software, que não seja detectada antes, e que opera os dois controladores ao mesmo tempo, fica difícil evitar o acidente.

JC - A maioria dos acidentes com naves espaciais ocorre na saída e entrada da atmosfera terrestre?

Pontes - Cada fase de vôo tem o seu risco característico. As fases dinâmicas têm um risco maior sobre o veículo devido à carga aerodinâmica na subida ou na descida. Mas durante a órbita vários fatores do sistema também podem apresentar problema. Mas as fases de decolagem e pouso são as mais críticas...

JC - O senhor acha que esse continuará sendo o desafio da Nasa nos próximos anos?

Pontes - Vai sim. Trabalhamos com dois fatores principais, a gravidade e a densidade do ar. Enquanto a gente não conseguir sistemas que sejam capazes de sobrepujar esses dois fatores completamente e facilmente, ainda serão problemas sérios.

JC - E como estão as pesquisas nessas áreas, para aumentar a segurança?

Pontes - Tem se trabalhando muito nessas pesquisas. Não posso precisar a que ponto estamos na segurança numa escala de 0 a 100 porque não sabemos onde está o 100.

JC - O acidente com o Columbia prejudicará o projeto espacial da Nasa?

Pontes - Sem dúvida, prejudica.

JC - Esse prejuízo será no atraso das missões programadas ou na imagem da Nasa junto à opinião pública e governo?

Pontes - No aspecto técnico, o cronograma é prejudicado por causa do tempo que se leva para investigar o acidente ocorrido e determinar as causas. Mas a imagem da Nasa, apesar de todo mundo achar terrível perder vidas, não é afetada. Para o público, o acidente vem reforçar que a profissão de astronauta é arriscada. Embora tenhamos feitos vários vôos sem nenhum problema, isso não significa que um acidente não vá ocorrer no futuro. Para quem já trabalhou com segurança e investigação de acidentes, como eu trabalhei aí no Brasil, digo que este não é o último acidente nos programas espaciais. Acidentes acontecem. Sempre pode ocorrer alguma coisa não prevista pela engenharia. Do ponto de vista de respaldo político, não há prejuízo tanto que o presidente Busch já aumentou o orçamento para a Nasa. Os americanos têm muito orgulho do programa espacial. Além disso, para empresários, o programa representa empregos, desenvolvimento. Por isso eles nunca vão abandonar o programa espacial.

JC - E os Estados Unidos dominam essa tecnologia....

Pontes - Exato. Se os Estados Unidos não lançarem mais humanos no espaço, apenas vôos não tripulados, outros países podem avançar nessa área. A China está começando nesse mercado e os Estados Unidos não querem correr o risco de serem ultrapassados.

JC - Conselheiros de segurança demitidos pela Nasa disseram na imprensa que o corte de verba nesta área pode ter contribuído para o acidente com o Columbia. O senhor acha que isso tem fundamento ou foi fatalidade?

Pontes - Eu não sei exatamente em quais áreas ocorreram cortes, mas acho que não tem relação. Eu vejo, durante as operações, que segurança é uma coisa levada muito a sério. Vamos supor que o acidente com o Columbia tenha sido causado por um problema mecânico na parte térmica da asa esquerda devido à colisão de uma parte da propulsão térmica que se soltou do tanque. Isso tem sido investigado como uma das grandes possibilidades da causa do acidente. Aliás, soltar pedaços de gelo no tanque é uma coisa rotineira, mas danificar a proteção térmica não acontece sempre. Logicamente que quando se pousa, a proteção térmica está sempre danificada devido o contato com pequenos meteoros no espaço. Mas normalmente um acidente não ocorre por um único fator, mas sim pela combinação deles.

JC - Há estimativa de quanto tempo vai demorar a investigação do acidente?

Pontes - Não, mas eu acho que não deve passar de três meses.

JC - Enquanto isso os vôos tripulados ficam suspensos?

Pontes - Ficam e acho que isso é uma coisa muito sensata, apesar de tudo indicar que esse acidente foi uma coisa isolada. Porém, é preciso ter certeza que o problema não pode ocorrer nos outros veículos. Se for o caso, corrigir o que está errado.

JC - Quantas naves a Nasa possui?

Pontes - Mais três: Endeavour, Atlantis e Discovery.

JC - Há uma coincidência de número 16, ao qual é atribuído uma força negativa, envolvendo o acidente - lançamento ocorreu no dia 16, o ônibus espacial ficou 16 dias no espaço e o acidente ocorreu 16 minutos antes do pouso. O senhor acha que isso é superstição ou não?

Pontes - Estou ouvindo isso agora. Acho que isso é superstição até porque para achar coincidência, é só procurar. Eu acredito em Deus. Com o resto, não me preocupo.

JC - No ano passado foi divulgado que o Brasil não estava cumprindo o acordo com a Nasa na missão espacial. Como está essa situação hoje?

Pontes - Pelo acordo assinado entre o Brasil e os Estados Unidos em 1997, o Brasil seria responsável por produzir seis peças para o programa espacial. O custo estimado dessas peças era de US$ 120 milhões. Fora isso, o Brasil não paga nenhum tostão à Nasa. Esse acordo permite ao Brasil utilizar a estação espacial para experimentos e participação em dois vôos, para os quais estou me preparando.

JC - E o Brasil cumpriu o acordo?

Pontes - A proposta era para que o governo encomendasse essas peças à indústria brasileira. O investimento iria gerar empregos aí no Brasil. Além disso, ao exportar as peças, a indústria brasileira ficaria conhecida no mercado internacional. Seria uma oportunidade e tanto para a indústria brasileira. Mas ocorreu o seguinte: em 2001, a Embraer, que ficou de construir as peças, informou que somente uma delas, a mais complexa, ficaria em torno de US$ 300 milhões. Diante do aumento exorbitante de custos, o governo não autorizou. Foram verificadas outras técnicas para reduzir custos, mas mesmo assim essa peça está orçada em quase US$ 250 milhões. Como o Brasil não conseguiu cumprir o acordo, houve uma renegociação, que começou em outubro do ano passado. A Nasa fez uma proposta para o Brasil fornecer apenas uma peça. As demais foram trocadas por equipamentos de suporte de vôo, que podem ser fabricadas por várias empresas brasileiras.

JC - E esse acordo foi assinado?

Pontes - Foi aprovado pela Associação Brasileira de Indústria Aeroespacial, mas ainda não foi assinado em função da mudança de governo. Eu estou na expectativa de uma reunião logo para acertar isso, até para estabelecer uma previsão de data para o meu vôo.

JC - O senhor acha que o governo Lula vai assinar o acordo?

Pontes - Pelo o que o presidente e o ministro (de Ciência e Tecnologia) falaram em relação a apoio à área de ciência e tecnologia e sabendo o como esse acordo é viável e bom para a indústria brasileira, acho que não haverá problemas. Mas eu gostaria de ver o acordo assinado o quanto antes e marcada a data do meu vôo.