08 de julho de 2026
Regional

Polêmica: teste mental para médicos

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica / Regional São Paulo e professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Fausto Viterbo, está iniciando uma discussão junto às entidades médicas do País. O professor defende a proposta de que todo o profissional de medicina recém-formado seja submetido a uma avaliação psicológica e a uma prova de conhecimento antes de receber o registro do Conselho Regional de Medicina (CRM).

Segundo Viterbo, esse seria um requisito básico para avaliar o quanto um médico está apto para desempenhar sua função junto à sociedade. “Qualquer profissional, para receber um título, uma licença para o exercício profissional, tem que provar que sabe a matéria e que tem condições psicológicas para tal.” Partindo desse princípio, Viterbo afirma que o exemplo mais simples e interessante é o da carta de motorista. “Para se habilitar, para conduzir um veículo na rua, qualquer pessoa precisa fazer uma prova, demonstrando que ele sabe dirigir, e fazer um exame psicotécnico mostrando que tem capacidade psicológica para tal. O médico que vai pegar um bisturi, que vai pegar uma injeção, se tiver algum distúrbio psicológico, dele não é exigido nenhuma dessas coisas. Ele recebe o registro do CRM sabendo medicina ou não”, avalia.

Viterbo ressalta que na área da medicina um exame psicológico é de grande importância, dada a confiança e responsabilidade que se estabelece na relação médico-paciente. “Eu acho que é uma área que a vida do paciente está numa relação direta com o estado psicológico do médico. A pessoa está muito vulnerável nas mãos de um médico, um dentista, uma enfermeira. Imagina uma enfermeira maluca dentro de um hospital o que ela pode fazer?”, questiona.

Inicialmente, Viterbo está fomentando a discussão entre a classe médica, mas o professor acredita que essa avaliação deveria se estender a todos os profissionais de saúde.

No caso do exame de conhecimento, o professor defende que ele seja formulado nos moldes do que atualmente é aplicado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aos alunos de direito. “O estudante de direito já sabe que tem o exame da OAB. O candidato faz o exame para que demonstre conhecimentos básicos em direito, para então receber o registro da OAB. Agora na medicina não existe isso, nem em outras áreas da saúde”, afirma.

O professor explica que, no caso de uma reprovação, o profissional estudaria para enfrentar um novo exame. “O reprovado não tem condições de exercer a medicina por questões de conhecimentos médicos? Então ele vai estudar, vai se preparar e o ano que vem ele presta de novo. Ele não tem condições de exercer a medicina por questões psicológicas? É um distúrbio pequeno? Então ele faz um tratamento e tenta de novo o ano que vem. Agora, se não tem a menor condição psicológica, muda de profissão”, conclui.

Necessidade de discussão

Segundo o professor, a idéia de se propor uma avaliação dessa natureza vem de longa data. Entretanto, os últimos acontecimentos envolvendo profissionais da medicina reacenderam a necessidade de discussão. Entre eles está o recente caso do cirurgião plástico Farah Jorge Farah, 53 anos, que foi preso no último dia 27 de janeiro, acusado de matar e esquartejar a dona de casa Maria do Carmo Alves, 46 aos.

Para Viterbo, uma avaliação psicológica poderia detectar os casos de distúrbios mais graves e talvez evitar episódios trágicos. “Como esse último do doutor Farah; o do Eugênio Chipkevitch, o pediatra pedófilo; o caso daquele estudante de medicina que num cinema levanta uma metralhadora e mata quatro pessoas e fere mais não sei quantas. Uma pessoa dessas, se não tiver uma prova, tira a licença e está por aí pondo em risco a vida dos outros”. O professor acredita que talvez essa medida não vá eliminar por completo os crimes envolvendo médicos, mas ao menos diminuirá o número de casos.

Viterbo ressalta ainda que essa avaliação de natureza psicológica deve ser muito bem estudada e desenvolvida por profissionais altamente habilitados. “Seria uma avaliação bem feita, por um serviço escolhido a dedo. Um pessoal sério, muito bem selecionado, consegue evidenciar alterações psicológicas”, defende.

O professor afirma que já está encaminhando essa proposta para todos os presidentes dos Conselhos Regionais de Medicina e associações médicas do Brasil. Para ele, esse debate deve ser realizado o quanto antes. “Eu espero começar uma discussão. Acho que a sociedade tem que assumir essa discussão junto com os conselhos”, completa.

Casos de repercussão

27 de outubro de 1996 - Em Marília, o estudante de medicina Haroldo Alves de Andrade Filho, 22 anos, é acusado de ter degolado seus pais adotivos. O filho teria tentado simular um latrocínio para enganar a polícia e ficar com a apólice de seguros, além da herança da família.

3 de novembro de 1999 - O estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, de posse de uma submetralhadora, disparou contra uma platéia em um cinema do MorubiShopping. Três pessoas morreram e cinco ficaram feridas. O estudante tinha personalidade depressiva e começou a sofrer de alucinações, desde que suspendera a medicação antipsicótica e antidepressiva prescrita pelo psiquiatra.

21 de março de 2002 - O médico Eugênio Chipkevitch, de 47 anos, um dos mais respeitados pediatras de São Paulo, foi preso, acusado de dopar adolescentes em sua clínica, na Zona Sul, e depois abusar sexualmente deles. A polícia apreendeu 35 fitas de vídeo, onde são mostradas as cenas de atentado violento ao pudor.

27 de janeiro de 2003 - O cirurgião Farah Jorge Farah, de 53 anos, foi preso sob a acusação de ter matado e esquartejado a dona de casa Maria do Carmo Alves, de 46 anos, com quem teria mantido um relacionamento amoroso. Usando equipamentos cirúrgicos, Farah esquartejou Maria, despejou os pedaços em cinco sacos de lixo pretos e os colocou no porta-malas de um carro. Farah removeu a pele do tórax e da metade esquerda do rosto de Maria. Além disso, a polícia não encontrou nos sacos plásticos as mãos nem as vísceras da dona de casa.