08 de julho de 2026
Saúde

Enxurradas podem transmitir doenças

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Um dos grandes problemas durante a chuva são as enxurradas. Elas “varrem” todo tipo de sujeira presente no solo e subsolo, inclusive lixo, esgoto, urina e fezes animais. Desta forma, elas podem ser fonte de contaminação de inúmeras doenças quando em contato com a pele ou mucosas humanas.

Entre essas patologias, a leptospirose é uma das mais temidas. Ela é causada por uma bactéria chamada “Leptospira ssp”, que pode afetar vários animais, inclusive o homem. A contaminação humana geralmente acontece pelo contato com a urina de animais contaminados, principalmente ratos, mas também cães e bovinos.

Ao “varrer” o solo e os dejetos animais, a enxurrada pode ser contaminada pelo germe. De acordo com o médico infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa, pessoas que caminham pela enxurrada podem ser infectadas pelo contato com a água contaminada em um pequeno ferimento no corpo ou mesmo pela ingestão desta água.

O período de incubação da bactéria varia entre cinco e 18 dias. Quando se manifesta, os primeiros sintomas são parecidos com os da gripe: febre, dor de cabeça, mal-estar, prostração, dor no corpo, principalmente nas panturrilhas, podendo haver amarelamento dos olhos e da pele (icterícia).

“Com o passar dos dias, a doença pode causar desidratação e levar à insuficiência renal. Quando isso ocorre, o paciente é encaminhado para sessões de hemodiálise. Porém, a bactéria também pode comprometer os pulmões e a coagulação sangüínea. Nestes casos, a doença tende a ser fatal”, descreve.

A diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) em Bauru, Maria Helena de Abreu, salienta que os casos de leptospirose são raros em Bauru. No ano passado, apenas um caso foi registrado. A vítima, segundo ela, foi um profissional que atua em reparos e resgates durante períodos de chuva.

Mas todos aqueles que andam na enxurrada ou pisam e brincam em poças d’água correm o risco de adquirir a doença. Por isso, os médicos recomendam que as pessoas evitem ter contato com a água das enxurradas e com qualquer coisa que tenha tido contato com esta água.

“Móveis, paredes, pisos, roupas, louças e tudo o mais que tenha sido atingido pela inundação deve ser muito bem lavado com água limpa e sabão, depois desinfetado com água sanitária”, aconselha Abreu.

Segundo ela, alimentos que tiveram contato com a água de enxurrada devem ser desprezados. Eles podem ter sido contaminados não só pela bactéria da leptospirose, mas também por vários outros micróbios - lembrando que a enxurrada carrega toda a sujeira que encontra pela frente.

Outra recomendação é que as pessoas evitem andar descalças ou mexer com terra e areia (inclusive em parquinhos infantis) sem a proteção de botas, luvas ou sacos plásticos grossos. Poços que foram inundados durante a chuva também devem ser desativados. A caixa de água deve ser lavada, desinfetada e bem fechada.

Pessoas que moram em áreas de risco ou profissionais que não podem evitar o contato com a enxurrada devem tomar um banho o mais rápido possível, usando bastante água limpa e sabão. “Em seguida, deve-se procurar um médico, que dará as instruções e medicamentos adequados para impedir a manifestação da doença”, observa o infectologista.

Ele salienta que a sujeira da área urbana é uma das principais causas de disseminação da leptospirose, já que ambientes sujos atraem ratos. Portanto, é preciso manter não só casas e quintais limpos, mas também toda a cidade.

Combinação perfeita

De acordo com o pediatra e alergologista Felinto dos Santos Neto, diretor do Departamento de Urgência e Emergência de Bauru, a combinação de água e calor torna o ambiente perfeito para a proliferação de vírus, bactérias e vermes.

Nessas condições, eles se reproduzem em grande velocidade, aumentando consideravelmente os riscos para a saúde humana. Por isso, o aparecimento de verminoses, micoses, viroses e diarréias infecciosas torna-se mais freqüente.

O infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa comenta que as diarréias podem ocorrer não só pelo contato com a água contaminada, mas também pela ingestão de alimentos estragados por negligência na conservação.

“A pessoa almoça e deixa o feijão sobre o fogão. À noite, ela aquece o feijão e serve. Com tantas bactérias no ar, o alimento pode estar contaminado. O ideal é resfriar o alimento imediatamente após as refeições (guardar na geladeira) ou, antes de ingeri-lo novamente, cozê-lo mais uma vez, ou seja, deixar ferver de novo para eliminar eventuais bactérias”, orienta.

Ele sugere, ainda, que as pessoas evitem ingerir alimentos crus ou mal cozidos, principalmente carne e ovos. Frutas e verduras só devem ser ingeridas depois de ficar pelo menos 20 minutos mergulhadas numa mistura de água com água sanitária.

Outra doença que pode ser transmitida pelo contato com a água das enxurradas ou pela ingestão de água e alimentos contaminados é a hepatite A, de origem viral.

“O mais comum é haver um surto numa creche ou escola. Mas durante a chuva, pode ocorrer um rompimento de tubulação de água, por exemplo, com contaminação da rede de distribuição. Se isso acontece, a cidade pode sofrer uma epidemia de hepatite ou de qualquer outra doença. Felizmente não temos registro de incidentes deste tipo na cidade, mas pode acontecer numa situação de calamidade pública”, comenta.