08 de julho de 2026
Bairros

Áreas de risco ameaçam 2 mil pessoas

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Todo ano, o problema se repete. Chega o verão e, com ele, o período das fortes chuvas. As cerca de 2 mil pessoas que vivem nas áreas de risco de Bauru ficam, mais uma vez, expostas à força da natureza e ao descaso público, que transformam os córregos e as avenidas da cidade em rios agitados e com forte correnteza.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, existem aproximadamente dez pontos considerados de risco na cidade. Eles tanto podem estar na periferia quanto na zona sul, na beira de córregos ou em avenidas movimentadas. Não fazem distinção de classe social ou poder aquisitivo. “Tem muita gente enfrentando problemas com a chuva em Bauru”, diz.

Quem reside em áreas próximas aos córregos ou em baixadas são os primeiros a sofrerem com os dias chuvosos. “Quando muda o tempo, a gente já começa a rezar”, diz a dona de casa Divoneide Maria Procópio.

Ela mora às margens do córrego da Grama, na zona oeste da cidade, em um dos cerca de 20 barracos de madeira e alvenaria existentes no local. “Há alguns meses, tive que me mudar da casa onde morava, pois ela estava condenada”, lembra.

As águas levaram a cerca que dividia o barraco do rio e estavam ameaçando carregar a casa junto.

Muitas vezes, a enxurrada não atinge as casas, mas passa muito perto. É o caso da dona de casa Luzinete Maria Bernardino dos Santos. Ela também mora na margem do córrego da Grama, só que no Parque Jaraguá. Lá são cerca de 90 barracos pendurados na encosta próxima ao rio. A cada chuva, o medo dos moradores aumenta. “Da última vez, a água chegou até aqui”, diz a moradora, apontando para o barranco que dá início ao seu quintal.

Ela ressalta que em toda chuva teme pela proteção da sua família. “A gente nunca sabe até onde a água vai subir. Se invadir o quintal, nós podemos ser carregados”, declara a dona de casa.

Carro na árvore

Esse tipo de mazela não atinge apenas os moradores de favelas e bairros carentes. Lama, enxurrada e preocupação se espalham pelos quatro cantos da cidade, deixando muitas pessoas nervosas e apavoradas.

O Jardim América, por exemplo, bairro de classe média localizado na zona sul de Bauru, vive a mesma angústia de outros pontos da cidade.

Construído dentro de uma bacia hidrográfica, próximo ao córrego Água da Ressaca, o núcleo habitacional recebe toda a água vinda da região da avenida Getúlio Vargas e dos bairros vizinhos. Sem um escoamento eficiente, a enxurrada toma conta da rua Rafael Paulino e da praça Palestina, invadindo as casas que estão nas proximidades e levando calamidade pelo seu rastro.

O momento mais crítico vivido pelos moradores foi em 8 de fevereiro de 2001, exatamente há dois anos. Naquela noite, 40 minutos de chuva destruíram a cidade e aquela região foi uma das mais atingidas. “Foi uma noite de terror”, resume Paulo Roberto Batista, presidente da Associação de Moradores do bairro.

Ele conta que ajudou a retirar pessoas que estavam ilhadas dentro de casa e teve que amarrar automóveis que estavam sendo tragados pela correnteza. “Por onde a água passou, deixou um rastro de destruição”, lembra.

Até hoje, quando a chuva é um pouco mais forte ou demorada do que o normal, o local volta a encher, deixando os moradores assustados.

O vendedor Carlos César Baldim, que reside no bairro há 5 anos, conta que toda precipitação um pouco mais forte inunda a frente do seu imóvel. “A gente não consegue nem entrar e nem sair de casa”, ressalta.

Ele viveu o drama do dia 8 de fevereiro de 2001 e perdeu dois carros na enchente. “Tinha dois automóveis na garagem e deu perda total neles”, lembra.

A casa também foi alagada e os móveis estragaram. “Não gosto nem de lembrar daquela enchente”, diz.

Este ano, chuvas mais intensas já foram suficientes para causar alagamento pela cidade. No entanto, algumas pancadas ainda estão por vir.

A solução desse problema passa não só pela remoção das famílias que vivem nas margens dos córregos, mas também numa reforma completa no sistema de drenagem da cidade.

De acordo com a meteorologista Zildene Pedrosa de Oliveira Emídio, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (Ipmet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), até meados de março, a cidade ainda poderá enfrentar muitas chuvas fortes e intensas. “Esse período se estende até a passagem do verão para o outono, ou seja, até o final de março ainda deve chover bastante”, explica.