Seja numa kitinete ou numa mansão com 16 quartos o universo pessoal é determinante nos espaços que ocupamos. A maneira como organizamos nossa casa e a forma como dispomos os objetos vão muito além da estética. Ela mostra também como nos organizamos na prática e na emoção.
Sem preocupação estética alguma, a artesã Viviane Mendes Silveira define sua casa como um “bazarzão empetecadoâ€, onde tem uma “coisarada†de todo tempo e lugar, que vai juntando e dando forma a uma casinha antiga de dois quartos na colônia do aeroporto, que chama a atenção de quem passa por ela.
“Eu não segui nenhuma teoria de harmonização de ambientes. Fui sentindo cada cômodo. Tinha vontade de pintar uma parede do quarto de roxo. O banheiro verde, a cozinha ocre indiano. Parecia que as cores pediam para entrar ali. A única coisa que fiz de acordo com alguma filosofia foi colocar um espelho atrás do fogão para refletir a chama e trazer prosperidadeâ€, comenta.
Viviane aponta que a sua filosofia é a da beleza da imperfeição, do arrumado desarrumado, do charme da simplicidade. Ela mesma faz questão de organizar e limpar a casa. “Eu gosto de limpar, se estou em casa chego a varrer cinco vezes por diaâ€.
E trabalho é o que não falta pois em cada canto há uma infinidade, peças, livros e latinhas que vão desde as antigas latas de doce que a avó guardava botões, modernas latas de cigarros trazidas de Paris e uma lata de sabonetes Matarazzo comprada num brechó. Além de quadros, muitos quadros.
A artesã se define como rata de vidraçaria e conta que catar molduras velhas é com ela mesmo. Prova disso, é que na varanda dos fundos, uma série de molduras dispensam telas.
Viviane não tem um canto preferido na casa, assume gostar do espaço como um todo. Afinal, é a sua cara. Apesar de assinar quase tudo que existe ali dentro, demonstra um carinho especial pelas peças antigas como o fogão e o paneleiro da avó ou as janelas e portas de madeira que emolduram a casa.
“Nessa casa tudo tem uma história, coisas que ganhei, compramos (ela e o namorado Kiko Marcolan com quem divide o lar e o gosto pela decoração, ele é arquiteto) muitas vezes em brechó, trouxemos de viagens, ou catei no lixoâ€, brinca. “Tem um monte de coisa, mas tem uma energia muito boaâ€.
Ela conta que muita gente que nunca viu na vida vem parabenizá-la pela casinha. Gente que passa de ônibus e a encontra no shopping ou no banco, pessoas que caminham por ali todos os dias. “Dizem sempre: a sua casa é linda! Mas acho que acham linda porque ela não parece uma casa de 2003.â€
Apesar de toda essa relação afetiva com o espaço, a artista que transferiu esta semana o seu ateliê para o local, confessa que não pode se apegar muito à casinha, onde vive há quase dois anos, pois paga aluguel pelo lugar dos seus sonhos.
Recanto
Ao contrário de Viviane, o jornalista Luciano Dias Pires, que se especializou em contar a história de Bauru, desfruta do prazer de ter uma chácara a dez minutos da cidade onde pode reunir todas as suas paixões: a família, o Corinthians e “coisas velhasâ€, como ele mesmo brinca.
No Recanto Corinthiano, comprado há 20 anos em apenas um telefone e reformado em setembro do ano passado, Dias Pires passa os finais de semana com a esposa Helena, os filhos e os netos, mas muitas vezes faz reuniões extensivas aos amigos. “Esta casa é a cara do dono. Aqui quem dá as ordens sou eu. Mas quem manda é minha mulher...â€
Mas em matéria de decoração, a chácara é dominada pelo jornalista. A sala de tevê se transformou na galeria de troféus que recebeu durante a carreira. A copa, a cozinha e a sala de jantar têm estilo country. Mas as antigüidades e coisas alusivas ao Timão estão por todos os cantos, seja nos copos, relógio ou toalhas de banho.
No rol de raridades penteadeiras, cristaleira, um telefone de parede e uma balança de quitanda, uma vitrola e um rádio igual ao que Luciano ouviu a Copa de 1938 (que funcionam) mobiliam a casa decorada com dez telas do pintor Marino Fabretti que contam a história de Bauru.
“A maioria dos meus enfeites comprei na feira do rolo. Todo domingo estou por lá, procurando uma nova coisa velhaâ€, confessa.
As paixões do dono também são materializadas do lado de fora. A casa tem estilo inglês com um sino de estação de trem na frente. Na churrasqueira, o espaço é marcado pelo Bauru Ilustrado, editado por Luciano há 30 anos. Mas é no jardim a marca mais forte do dono da casa uma réplica em madeira da locomotiva n.º 1 da Noroeste do Brasil (NOB) encanta qualquer visitante. A maria-fumaça pela qual se apaixonou à primeira vista foi carro alegórico de escola de samba nos não tão antigos carnavais de rua de Bauru. “Corri atrás e consegui pegar o tremâ€.
Todo esse cuidado com as coisas do passado nasceu na vida de Dias Pires quando era relações públicas da NOB.
“A ferrovia nasceu em Bauru e eu precisava saber tudo sobre a cidade. Comecei a minha pesquisa e fui me apaixonando e juntando coisas. A casa da chácara foi durante muito tempo um dos meus depósitosâ€, revela o jornalista que hoje comanda o Instituto Histórico “Antônio Eufrásio de Toledo†sua terceira casa, que também tem a sua cara.
Aos poucos
Não é só quem tem uma condição econômica mais favorável que pode imprimir personalidade à residência. Com poucos recursos, mas muita criatividade a fotógrafa Priscila Medeiros e o desenhista-projetista Ricardo Botta fizeram de uma casa de núcleo a mais diferente do bairro onde moram há um ano e meio na periferia de Bauru.
A casa é vermelha por fora com sala verde-lousa logo na entrada. O banheiro branco e azul com uma banheira improvisada em alvenaria. O quarto do casal é salmão e bordô para manter a paixão com direito a colcha de retalhos. O escritório é laranja para estimular os trabalhos e estudos que precisam ser feitos de madrugada. A copa e a cozinha são amarelas com jeitinho de fazenda. Existe ainda um hall bordô com direito a luz dicróica para as máscaras artesanais.
“Tínhamos a certeza de que não queríamos nada branco, mas queríamos uma casa com personalidade e para o resto da vida. Como não temos muitos móveis e vamos comprando tudo aos poucos, optamos por marcar o território com coresâ€, explica Priscila.
Ela confessa que a sala verde viu em uma revista e com a cartela das demais cores foi com o marido procurar o significado na cromoterapia. “Vimos que não eram cores ruinsâ€, comenta.
“Mas determinadas pessoas jamais podem pintar uma cozinha de amarelo como fizemos. O amarelo é estimulante e faz com que a gente coma sempre maisâ€, acrescenta Ricardo com bom-humor.
Em matéria de enfeites, o casal coloca à mostra peças rústicas trazidas de viagens, fotos e muitas maquetes de campos de futebol de botão, pois o desenhista transformou a paixão de infância em trabalho voluntário com as crianças da comunidade.