Pirajuí - Um crime que ocorreu no início da madrugada de ontem chocou a população de Pirajuí. A adolescente Marina Aparecida da Silva, 14 anos, foi assassinada pelo seu padrasto, João Henrique Leandro, 30 anos. O acusado se suicidou no local do crime, logo em seguida. A adolescente estaria sendo abusada sexualmente pelo padrasto há cerca de dois anos.
O crime aconteceu no bairro Jardim Aclimação, em frente à casa da avó materna da vítima, Carmen da Silva. Segundo informações do delegado titular de Pirajuí, Ricardo Silva Dias, na manhã de anteontem, a adolescente, acompanhada por sua mãe, avó e uma conselheira tutelar, compareceu à delegacia para denunciar que estaria sendo vítima de abuso sexual. De acordo com o depoimento dela, o estupro estaria ocorrendo há dois anos.
Depois de sair da delegacia, a menina foi encaminhada pelo Conselho Tutelar para a casa da avó materna. Horas depois, no início da madrugada, o padrasto teria se dirigido até o local. Segundo o delegado, ele teria arrombado a porta da sala que estava fechada.
Assustada, a adolescente teria corrido e se trancado no banheiro, mas o acusado teria ameaçado arrombar a porta, convencendo a vítima a sair do local. Eles teriam mantido um rápido diálogo na sala e, em seguida, a vítima teria saído da casa, dirigindo-se em direção a avó, que estava sentada num banco em frente à residência. Enquanto a adolescente conversava com a avó, o acusado aproximou-se da vítima, sacou um revólver calibre 38, e a baleou, na altura do ouvido direito. Logo em seguida, o padrasto se suicidou com um tiro na cabeça.
A Polícia Técnica compareceu no local e os corpos foram submetidos à necropsia. A adolescente e o padrasto foram enterrados ontem à tarde no Cemitério Municipal de Pirajuí. A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu o fato.
Medo
De acordo com Dias, no depoimento prestado à polícia, um dia anterior ao crime, a vítima relatou que o padrasto sempre a ameaçava, afirmando que ninguém poderia tomar conhecimento dos abusos.
A adolescente também teria relatado que o acusado a proibia de freqüentar a escola, e aproveitava o horário em que a mãe, Santina Aparecida da Silva Leandro, estava trabalhando como manicure, para cometer o estupro. “Ela saia de casa como se fosse para a escola, mas era obrigada a retornarâ€, relata o delegado. Segundo Dias, o acusado era motorista e, possivelmente, estaria desempregado.
Além do abuso sexual e das ameaças veladas, a menina também relatou que, numa oportunidade, durante uma discussão, o padrasto teria batido a cabeça dela contra a parede.
Segundo o delegado, a adolescente afirmou que nunca teria contado sobre os abusos por temer alguma represália. “Ela tinha muito medo dele. Em princípio ela demonstrou muita vergonha. Era perceptível que quando ela se referia a ele, era de uma forma que denotava até ascoâ€, afirma.
A menina relatou ainda, segundo o delegado, que o padrasto implicava com todos os namorados que ela arrumava. “A impressão que nos ficou, baseado no depoimento dela, da mãe e das conselheiras, é que ele nutria por ela uma paixão doentia. Ele interferia diretamente na vida dela com o sentido de mantê-la presa a eleâ€, observa.
A mãe da menina estava casada há 10 anos com o acusado e teve dois filhos com ele, com idades de 10 e 6 anos. Marina era fruto de um relacionamento anterior. Ela morou com a avó materna até os oito anos de idade, quando foi levada para a casa da mãe e passou a conviver com o padrasto.
Segundo o delegado, anteontem pela manhã, no dia em que o fato foi denunciado à policia, foi solicitado exame pericial para constatação do estupro. Além disso, segundo Dias, as providências necessárias para pedir a prisão temporária do acusado estavam sendo encaminhadas. “Lamentavelmente não foi possível concretizar o pedido e a conseqüente expedição do mandado de prisão temporária dele. A representação para a concessão da prisão temporária foi por mim formulada mas não houve tempo hábil para ela ser protocolada no Fórum e analisada pelo promotor e pelo juizâ€, afirma.
Contradição
Em depoimento prestado à polícia, no dia anterior ao crime, a mãe da menina teria alegado que não tinha conhecimento sobre os abusos sexuais. No entanto, segundo o delegado, alguns fatos demonstraram uma aparente contradição em seu relato. “Desde o princípio a mãe quis falar muito pouco sobre o assunto. A mãe na minha concepção estava muito mais preocupada com o destino do marido do que propriamente com a situação da filhaâ€, avalia.
Segundo a polícia, Santina teria alegado que, no início do mês de fevereiro, surpreendeu o marido beijando a filha, mas teria sido convencida pelo acusado que a iniciativa teria partido da adolescente. “Inclusive ela demonstrou em princípio, durante o depoimento, desinteresse nas providências policiais e processuais que o caso eventualmente requeresseâ€, relata.
O delegado afirma que, no final do depoimento, a mãe teria dito que pretendia se separar do acusado, mas afirmou que não gostaria de vê-lo preso, “em função dela precisar do dinheiro da pensão dos dois filhos que ela tem com eleâ€, conclui.
A denúncia de abuso sexual, de acordo com Dias, foi feita na quinta-feira passada ao Conselho Tutelar, através de uma ligação anônima. “A denúncia foi feita por uma pessoa que não quis se identificar, mas que demonstrou muito conhecimento à respeito da família, porque sabia nome completo, endereço, idade.â€
Segundo depoimento da avó prestado à polícia, somente anteontem ela, a adolescente e sua mãe teriam recebido uma intimação para comparecer no Conselho Tutelar.
O delegado Dias não quis entrar em detalhes sobre a possível demora do conselho em comunicar o caso. “O ponto é saber qual foi a comunicação que o conselho recebeu, o que foi exatamente comunicado ao conselho. É obvio que a partir do momento que nós estamos falando de crime cuja a apuração é atividade da Polícia Civil quem tomou conhecimento do crime, em tese teria obrigação de comunicar a políciaâ€, afirma. A reportagem não conseguiu entrar em contato com o Conselho Tutelar.