“Nós não temos como ter leis válidas para todosâ€, declara o professor Newton Aquiles von Zuben, doutor em filosofia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Para ele, a nossa ética, fundamentada no “absolutoâ€, não é mais capaz de impedir conflitantes e polêmicos avanços tecnológicos, como a clonagem e as armas de destruição em massa.
Von Zuben, que também tem um importante papel nas pesquisas em educação, implantou o Mestrado em Filosofia da Educação na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, em 1971, na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), em 1972, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1974.
Na Unicamp, onde aposentou, von Zuben produziu a maior parte de seus trabalhos científicos, no campo da Filosofia, tratando da Fenomenologia, nas áreas de Ética, Filosofia da Educação, Epistemologia e, sobretudo, Bioética.
Desde o segundo semestre de 2002, von Zuben está em Bauru para também implantar o Mestrado em Educação na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde ele preside o Comitê de Ética e Pesquisa e passou a coordenar a revista Mimesis, publicação da Edusc voltada para a área das Ciências Humanas.
Em entrevista ao JC, von Zuben discutiu o papel da ética e da moral religiosa na ciência do início do século 21, ou seja, princípios antigos e sólidos diante de uma sociedade que tenta produzir clones humanos e está às voltas com a informação em quantidade e velocidade jamais vistas. Como filósofo da educação, o professor defende a recuperação da qualidade do ensino fundamental como gerador de uma sociedade melhor.
JC - Qual é o papel da ética, ou mesmo da moral religiosa, numa época de crescentes avanços científicos? Von Zuben - Até há uma época recente, até a Modernidade, todo o campo do conhecimento e da ética eram normatizados baseando-se em princípios que estavam solidificados numa idéia de “absolutoâ€, o que chamamos de posições metafísicas e religiosas. A lei divina impunha e, inquestionavelmente, seguia-se. Pois bem, essa necessidade de buscar um fundamento universal, válido para todos e absoluto, está sendo deixado de lado. Porém, nós não podemos negar a existência de um número bastante considerável de pessoas no planeta que ainda seguem isso. Por exemplo, o cristianismo e todas as religiões monoteístas ainda postulam a fundamentação no absoluto, que é o mandamento de Deus. Porém, depois da revolução científica no século 17, nós vemos que a herança de tudo isso na ciência e na tecnologia foi este novo “ambiente†formado por aquilo que se chama de tecnociência, que é responsável por todos os avanços nos campos científico e tecnológico.
Hoje, para se ter idéia, o que está na ponta? É toda a informática, a cibernética, etc. Isso transformou uma série de conceitos, como o tempo, espeço, segurança, certeza. Nós chegamos a um ponto da cultura em que esses fundamentos foram abalados, nós não temos mais certeza.
Baseando nesse problema, nós vemos que os avanços e as transformações no campo da tecnociência, como a clonagem - que é um campo bem específico, chamado biociência -, afetam muito mais diretamente a nossa vida. Esses abalos transformaram a nossa postura e o nosso quadro conceitual ético. A nossa ética está defasada. Nós não temos como ter leis que sejam válidas para todos.
JC - Até que ponto a ética pode interferir na ciência e na produção tecnológica? Von Zuben - Do ponto de vista da tecnologia e da ciência, não há qualquer freio ou ordenamento ético. A ética não pode mais tecer qualquer tipo de impedimento porque é aquilo que a literatura especializada diz: a tecnologia e a ciência são aéticos. O imperativo da tecnologia é: é possível fazer algo tecnicamente? Se é, então faça-se. Por isso que na clonagem, os empecilhos são técnicos. Não se avança mais rapidamente por questões técnicas. Mas existe uma influência da ética? Sim, na medida em que, tanto a ciência quanto a tecnologia não podem ser consideradas fora da sociedade.
Uma sociedade predominantemente cristã naturalmente será ordenada por uma cultura cristã, então essas normas dizem: “cuidado, a essência humana será alterada.â€
JC - O recente anúncio de um suposto clone humano - feito pela empresa Clonaid - foi pouco relevante do ponto de vista científico se comparado à polêmica que causou em todo o mundo. Isso seria uma “resposta ética†à clonagem? Von Zuben - Um cientista, em seu laboratório, está vinculando não só ao domínio da ciência, mas à sociedade ou a governos que são financiadores dessas pesquisas, então os cientistas devem responder a isso.
É natural que ocorra um impacto do ponto de vista emocional ou religioso dada a característica do nosso povo. Por exemplo, um belga, um dinamarquês, o europeu em geral reagiria diferente.
Quando se fala em clonagem terapêutica, a prudência é mais do ponto de vista científico. Agora, eu não vejo problema algum do ponto de vista ético para que você faça, admita essa possibilidade que a cultura oferece, que a nossa ciência oferece, que a razão humana, afinal de contas, oferece para um fim que está plenamente justificado: salvar vidas humanas, tornar a vida mais aprazível. A emoção sentida pelo povo naturalmente repercute no governo - e aí vem a questão política -, que vai ser mais prudente em ordenar, normatizar.
Do ponto de vista ético, insisto, abandonou-se essa preocupação de buscar freios que se baseiam num princípio absoluto e universal.
JC - Como regular, então, as pesquisas na área da clonagem? Von Zuben - A bioética não é um projeto que vai tecer novas normas. Nós vamos buscar uma certa orientação nas pesquisas da biociência, como a clonagem, que está no ponto central da discussão, e vamos medir: esse avanço constitui uma certa melhora para a humanidade ou não. Evidente que ninguém quer que se comece a tratar o sujeito humano como um simples objeto de laboratório.
Há então que se ter uma certa audácia em se permitir os avanços científicos e uma certa prudência. E voltamos à pergunta: a teologia ou a moral podem obstruir os avanços da ciência? Às vezes sim, mas indiretamente.
JC - A religião acaba sendo então uma espécie de termômetro do que a ciência pode ou não fazer? Von Zuben - O argumento da moral religiosa é o seguinte: clonagem, transfusão de sangue, engenharia genética, transexualidade, casamento de pessoas do mesmo sexo, enfim, essas coisas podem ou não ser feitas? Não pode, porque vai contra a natureza humana. Por que não pode o transgênico? Porque nós vamos modificar o milho, tirar a essência do milho e montar uma outra. Agora a questão é: quem definiu a natureza humana? Foi uma cultura. Mas, na evolução podem existir algumas mudanças que podem ser benéficas.
A ciência se fundamenta na possibilidade de diálogo, de oferecer suas teses à crítica do outro, e avança-se a partir desse diálogo. Por isso que, em geral, há um conflito bastante sério. Imagine um pesquisador de renome que tenha convicções religiosas: o conflito interior dele é sério.
JC - Numa declaração polêmica, o ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, disse que o Brasil deveria ter a tecnologia da bomba atômica. Como o senhor analisa essa questão? Von Zuben - Com a questão das armas a gente volta àquela que foi a grande ferida do século 20, as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, que no fundo não é à racionalidade científica que se deve atribuir isso. Foi a “racionalidade política†que determinou o uso impróprio e reprovável. Eu sou pacifista, creio que qualquer arma deveria ser impedida. Até a prudência que nós temos de tomar a energia nuclear para fins pacíficos, se é para o bem da humanidade, claro que é interessante.
Do ponto de vista mais amplo, o de uma “ecoéticaâ€, qualquer tipo de armamento, de transtorno de uma situação que resulte desfavorável à humanidade, deve ser rejeitado.
JC - Como especialista na área da educação, como a universidade de modo geral deve lidar com a formação do cidadão diante das exigências “técnicas†do mercado? Von Zuben - Eu acho que não pode ser uma coisa ou outra. Nós temos que ver a situação num contexto bem amplo. Não é só mercado, não é só profissional. Tem muita gente que vai à universidade por gosto, porque tem dinheiro, porque gosta de música, de literatura ou de informática. Eu conheci um ateu na Europa que era teólogo, porque gostava das discussões.
Vejo que se nós conseguirmos atualizar o corpo docente, que é um dos pilares da universidade, com aquilo que se pasa no mundo, já é um avanço considerável. A cultura funciona como um pêndulo: em reação a uma situação prévia que só via na formação de jovens a busca de um diploma ou de uma preparação técnica para o mercado, incentivou-se essa preocupação de se formar cidadãos. A idéia do cidadão é daquele indivíduo que não se preocupa com só um aspecto de sua existência. Eventualmente, ele terá uma formação pessoal a mais gabaritada possível e irá enfrentar a questão do mercado. A universidade é o início da preparação, e deve se preocupar com a questão do mercado e da formação mais ampla, daquilo que se chamava de humanista, uma formação de valores básicos da sociedade.
JC - Se houvesse um hipotético Fome Zero na área da educação, qual seria a primeira sugestão do senhor para o programa? Von Zuben - Acredito que a preocupação mais básica seria com a educação no nível inicial. A parte do “edifício†da educação que merece maior atenção é o ensino fundamental, não visando só a criança como tal, mas sobretudo a formação dos docentes. Aí nós temos um problema básico que é a preocupação central do nosso mestrado: nós localizamos essa questão central que é a formação de docentes que atuem no grau fundamental. Se você forma adequadamente essa criança, o adolescente será melhor e, eventualmente, o universitário também.